O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Após RPM, Bradesco vê Selic ainda em queda

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Publicado em 24/09/2026 às 15:02

Alterado em 24/09/2026 às 15:02

O Banco Central divulgou hoje, 24, o Relatório de Política Monetária (RPM) do terceiro trimestre, que, embora eleve de 5,1% para 5,2% a projeção do IPCA deste ano, reduziu a projeção de inflação a 3,1% no segundo trimestre de 2028 (horizonte relevante das duas últimas reuniões do Copom de 2026). Nos trimestres seguintes, até o primeiro trimestre de 2029, a projeção foi mantida em 3,1%. A meta é de 3,0%

Ao analisarem o relatório, que se seguiu à Ata do Copom (22), os dois maiores bancos privados do país, Itaú e Bradesco, tiveram avaliação diferente. Para o Itaú, os dois documentos "mantém em aberto a discussão sobre os próximos passos da política monetária e não oferece sinais mais claros sobre a trajetória futura da taxa de juros".

Já o Bradesco, que antes da Ata e do RPM previa duas quedas de 0,25% na Selic em 4 de novembro e 9 de dezembro, disse que "a projeção em 3,1% para o segundo trimestre de 2028 sugere espaço para a continuidade do ciclo de calibração. Dessa forma, a leitura do RPM não muda nossa perspectiva de que, com relativa estabilidade cambial, o Copom fará mais dois cortes de 25 pontos-base até o final do ano, levando a Selic a 13,25%". Hoje o dólar sobe 0,17%, cotado a R$ 5,17.

BC reduz PIB de 2026 e 2027

O Banco Central reduziu a estimativa do PIB de 2026 em 0,2 ponto percentual, para 1,8%, e projeta 1,4% para 2027. A revisão reflete a composição do 2º trimestre, com moderação nos setores cíclicos e no consumo, além de indicadores mais fracos no início do terceiro trimestre. Ainda assim, o hiato do produto foi revisado para cima (de 0,4% para 0,5% no 2º trimestre deste ano). A expectativa é de fechamento gradual, com hiato de -0,4% no 1º trimestre de 2028, sob efeito da política monetária restritiva.

As contas externas seguem estabilizadas. A balança comercial teve o superávit deste ano reduzido de US$ 78 bilhões para US$ 75 bilhões (e US$ 77 bilhões para 2027). O déficit de serviços ficou estável em -US$ 56 bilhões (-US$ 55 bilhões em 2027). Já as contas de rendas de capitais tiveram as despesas elevadas de US$ 83 bilhões para US$ 85 bilhões este ano (US$ 83 bilhões em 2027).

Com o ingresso de US$ 75 bilhões em Investimentos Diretos no País (IDP) este ano e em 2027, o resultado projetado para o déficit em Transações correntes (Balança comercial + serviços e rendas) subiu de -US$ 56 bilhões (no RPM de junho) para -US$ 60 bilhões e -US$ 55 bilhões em 2027.

Efeitos do El Niño

O BC avaliou os efeitos do El Niño sobre a produtividade agrícola, apontando riscos negativos para milho, algodão e arroz em 2027. Para a soja, carro-chefe da agropecuária, os efeitos regionais tendem a se compensar no agregado. O resultado embasa a projeção de crescimento de 0,5% da agropecuária em 2027, após a safra recorde de 2026.

A projeção de inflação de curto prazo, por sua vez, foi revisada para cima, pressionada pelo clima (com um El Niño mais forte e prolongado) e pelo petróleo mais caro.

A inflação acumulada em quatro trimestres deve voltar a subir, atingindo 5,2% no fim de 2026. A projeção considera a devolução desses choques nos horizontes mais distantes, com a inflação recuando para 3,2% no início de 2028 e para 3,1% no 2T28, horizonte relevante das próximas reuniões de política monetária.

O relatório trouxe dois boxes sobre o choque do petróleo. No primeiro, o BC trata dos efeitos de primeira ordem, diretos e indiretos, do choque, chamando atenção para o repasse rápido na cadeia de insumos e para os riscos de repasse ao consumidor no curto prazo.

No segundo, o BC conclui que ainda não há evidência de efeitos de segunda ordem relevantes, com salários em moderação e empresas relatando dificuldade de repasse de preços. A ressalva é que as expectativas de empresas e consumidores subiram após o conflito.

Visão do Itaú

"O Relatório de Política Monetária (RPM) de setembro mostrou projeção de inflação em 3,2% no 1º trimestre de 2028, atual horizonte relevante, sem mudanças frente ao RPM anterior. Para horizontes mais longos, houve pouca mudança, seguindo ligeiramente acima da meta em 3,1%, inclusive para o 1º trimestre de 2029, divulgada pela primeira vez. As estimativas para prazos mais curtos aumentaram para o decorrer de 2027, cuja projeção para o ano fechado subiu de 3,7% para 3,9%".

Para o Itaú, “como de costume, o RPM trouxe estudos relevantes sobre temas conjunturais e estruturais. Destacamos, o boxe sobre os efeitos do El Niño e da La Niña na produtividade agrícola, cujos resultados sugerem riscos de desaceleração da agropecuária em 2027 caso se confirme o cenário de El Niño até o 2º trimestre de 2027.

“Na sequência, dois boxes analisam os impactos do choque recente nos preços do petróleo: o primeiro, mostra que os efeitos primários já se disseminaram além dos combustíveis, alcançando cadeias como químicos, plásticos, fertilizantes e outros segmentos industriais, enquanto o segundo, conclui que, até o momento, há evidências limitadas de efeitos inflacionários de segunda ordem por meio das expectativas das famílias”.

“Por fim, o BC passou a divulgar novos indicadores de reajustes salariais baseados em convenções coletivas, que corroboram o diagnóstico de um mercado de trabalho ainda aquecido, com predominância de ganhos reais desde 2023 e reajustes mais elevados em ambientes de menor desemprego”.


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