O OUTRO LADO DA MOEDA
Focus já prevê novo corte da Selic
Publicado em 21/09/2026 às 14:27
Alterado em 21/09/2026 às 14:27
A Pesquisa Focus encerrada sexta-feira junto a 146 instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisa e divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central, com o petróleo tipo Brent caindo abaixo dos US$ 100, trouxe cenário mais otimista para a inflação (abaixo de 5%) e, com o câmbio mais estável (o dólar era cotado a R$ 5,1051 (queda de 0,70% às 11:50), levou o mercado a prever nova queda de 0,25% da Selic para 13,50% este ano.
As apostas do mercado ainda se dividem por uma baixa em 4 de novembro ou na reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central em 9 de dezembro. Cada redução/aumento de um ponto na Selic resulta em economia/gasto de R$ 70 bilhões ao Tesouro ao fim de 12 meses. Essa nova queda de 0,25% na Selic – somando 0,50% neste segundo semestre – pouparia R$ 35 bilhões ao Tesouro Nacional no giro da dívida pública.
É uma economia muito maior do que o criticado aumento de gastos (R$ 5,8 bilhões este ano e R$ 22,7 bilhões em 2027) com o Bolsa Família com a atualização de 15%, correspondendo à inflação desde junho de 2022. A três meses da eleição daquele ano, o governo Bolsonaro propôs elevar em 33,33% o Auxílio Emergencial, de R$ 300 para R$ 400, e acabou, premido pela campanha eleitoral, a elevar em 100% para R$ 600 em julho. Voltou o nome Bolsa Família no governo Lula, mas com o valor congelado.
Os dois movimentos, a atualização do BF e a redução dos juros básicos da economia, tendem a azeitar o consumo e a destravar o crédito, o que é fundamental para girar a roda da economia. Com a retração de 0,5% no PIB do segundo trimestre, as instituições financeiras, como o Bradesco reduziram a projeção do crescimento deste ano de 1,9% para 1,7% e a expectativa para 2027 recuou de 1,3% para 1,0%. A Consultoria 4intelligence também reduziu a previsão do PIB de 2026 de 2,00% para 1,8%, e prevê 1,2% em 2027.
Bradesco vê duas reduções em 2026
Mas o Bradesco, que reduziu a projeção do IPCA para 4,9% este ano (a Focus elevou a expectativa de 4,90% para 4,92% e 4,97% na mediana dos últimos cinco dias úteis, influenciada pela alta do petróleo, revertida hoje), está prevendo, se o câmbio seguir estável, uma ou duas reduções da Selic.
"Sem uma desvalorização cambial relevante, dada a desaceleração da economia, há espaço para continuidade do ciclo de calibração dos juros. Por isso, passamos a incorporar cortes adicionais em 2026, até 13,25%, mantendo a expectativa de afrouxamento até 11,0% em 2027", diz.
Não é preciso dizer que o impacto no giro da dívida pública seria considerável e uma vitória do governo Lula que usou a Petrobras para evitar a escalada de preços domésticos dos derivados de petróleo, que contaminaria a cadeia produtiva e levaria a Selic de 15% para 16%.
Uma baixa de cinco pontos equivaleria, no mínimo, a R$ 350 bilhões de economia do Tesouro for a o ganho de receitas com o PIB maior. E notáveis os benefícios para toda a sociedade (exceto rentistas e o mercado financeiro).
Em sua análise, o banco da Cidade de Deus diz que "a inflação está desacelerando após os choques relevantes do começo do ano e deve encerrar 2026 em 4,9%. No começo do ano, choques pontuais em alguns alimentos e nos derivados de petróleo trouxeram pressão relevante para a inflação corrente, que após essa incorporação tem mostrado a dissipação dos choques. Em 12 meses, o IPCA voltou a ficar levemente abaixo do teto da meta de inflação, mas deve voltar a superá-lo nos próximos meses, quando os efeitos do El Niño e do recrudescimento da guerra voltarem a pressionar o índice".
Clima a incógnita
Além das incertezas do resultado eleitoral (as pesquisas desta semana vão medir os impactos do BF ajustado e dos escândalos do STF), as expectativas do mercado para a inflação do fim do ano e do primeiro trimestre de 2027 estão condicionadas aos efeitos climáticos do El Niño. Há mais valorização dos efeitos danosos e menos dos benefícios.
Por exemplo, o excesso de chuvas no Sudeste pode recompor os fluxos dos principais rios da região e de suas hidrelétricas. Isso pode resultar, a partir de outubro, na troca da bandeira amarela pela verde, o que reduziria o custo da energia elétrica residencial, por exemplo.
Mas a maior especulação sobre o El Niño se refere ao plantio da safra 2026/27. No Paraná, que responde por 15% da safra agrícola do país (menos da metade do Mato Grosso) o plantio de soja deve começar em ritmo mais acelerado que outras importantes regiões produtoras do país. Segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, as variações climáticas para as próximas semanas indicam volumes mais regulares de chuva no estado, melhorando a restauração da umidade do solo e o avanço dos trabalhos de campo.
O cenário contrasta com o observado em parte do Centro-Oeste e da Região Norte. Mato Grosso e Rondônia ainda convivem com precipitações irregulares e distribuídas de forma desigual, o que tende a resultar em uma semeadura mais gradual ao longo de setembro.