O OUTRO LADO DA MOEDA
IPCA de -0,32% em agosto eleva juro real
Publicado em 11/09/2026 às 15:47
Mais uma vez o mercado financeiro perdeu a aposta para o governo. A variação do IPCA de agosto foi negativa em 0,32%, maior que a baixa de 0,30% esperada pelo mercado (o Itaú previa -0,24% e o Bradesco -0,26%). Como agosto de 2025 teve deflação de 0,11%, a taxa da inflação em 12 meses, que estava em 4,44% em julho, caiu para 4,22%.
No último resultado de inflação a ser apresentado pelo IBGE antes do primeiro turno (4 de outubro – o dado de setembro sai em 9 de outubro) houve um fato inédito em três anos: todas as 16 capitais e regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE tiveram índices negativos.
Isso ocorreu tanto no IPCA, que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários-mínimos (R$ 64.840) quanto no INPC, que mede as despesas das famílias com renda até cinco SM (R$ 8.105), que caiu 0,32% e acumula alta de 3,98% em 12 meses. No IPCA, a maior queda foi em Curitiba (-0,64%), cidade onde o INPC baixou 0,67%.
Na véspera da reunião do Fed e do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), o resultado negativo da inflação fez subir o nível dos juros reais da taxa Selic, que está em 14% ao ano desde 6 de agosto. Na reunião de agosto, descontada a inflação de 4,44% em 12 meses, o juro real era de 9,15%; com a taxa de 4,22% em 12 meses, o juro real subiu para 9,38%. Isso aumenta a pressão para que Copom prossiga a baixa da Selic mesmo que o Fed siga o BCE e eleve os juros nos Estados Unidos em 0,25%.

Abas critica o juro real
Felipe Queiroz, economista-chefe da APAS - Associação Paulista de Supermercados, critica o aumento do nível dos juros taxa real: "as indústrias estão sendo prejudicadas, o comércio está sendo prejudicado, os serviços estão sendo prejudicados e as famílias estão sendo prejudicadas também, porque o custo de rolagem da dívida tem onerado muito tanto as empresas quanto as famílias".
Ele assinala que já em julho, "havíamos observado um processo de alta e no mês de agosto, agora, uma deflação. Vale lembrar que esse resultado mostra que o processo de redução dos preços acelerou frente a agosto de 2025 (deflação de 0,11%) Nós temos um ritmo de atividade econômica que está fraco e a economia precisa ser estimulada. Além disso, não observamos nenhum descompasso inflacionário, nenhuma perda do controle monetário. O índice de inflação que temos não justifica uma taxa de juros neste patamar atual", reforça Felipe.
É interessante notar que o mercado apostou no primeiro semestre numa explosão inflacionária devido à alta de quase 50% nos preços do petróleo devido ao ataque dos EUA-Israel a Teerã em 28 de fevereiro, o que elevaria o IPCA próximo a 6% e forçaria o Copom a elevar a Selic até 16%.
O governo usou subsídios ao diesel, gasolina e GLP. Além de evitar a explosão da inflação, permite ao Copom cortar a Selic para 13,75% na quarta-feira, 16. O preço da gasolina caiu 0,59% em agosto, com alta acumulada de apenas 4,3% no ano. O etanol, cuja mistura à gasolina aumentou para 32% teve queda de 3,95% e isso, junto com a redução de impostos federais, ajuda a conter os preços dos combustíveis, por mais 30 dias. Hoje o Brent recuou 2,85% para US% 104,55% e o dólar caiu 0,14% para R$ 5,0987.
Para o segundo semestre, as apostas inflacionárias se fiam na pressão sobre os preços dos alimentos devido ao El Niño. Os impactos do fenômeno, que afetariam, eventualmente, o plantio das safras de 2026-27, extrapolam para 2027. Os dados da Alimentação e Bebidas, exceto a alta do Leite Longa Vida (+1,78% em agosto, acumulando 27,33% no ano) e nas carnes (+0,61% em agosto e 6,22% no ano), por pressão do mercado internacional.
Os dados de agosto indicaram reversão de 12,37% nos preços de tubérculos, raízes e legumes, com destaque para as baixas da batata-inglesa -19,39%, da cenoura -11,22%, da cebola -11,07% e do tomate -10,94%. O café moído teve nova baixa de 1,86% e acumula redução de 15,26% no ano. Nenhum deles, até agora, fora afetado pelo El Ninõ.
A visão do Itaú e do Bradesco
Na abertura do dado de hoje, o Itaú destacou as surpresas baixistas em alimentação no domicílio e gasolina. O item fumo (+19,59%), veio acima das expectativas. Em relação aos núcleos, serviços subjacentes vieram em linha com as expectativas, enquanto industriais subjacentes vieram abaixo do esperado, puxados por higiene pessoal.
Na média móvel de três meses, com dados dessazonalizados e anualizados, os serviços subjacentes aceleraram para 5,0% (de 4,7%), enquanto o núcleo de industriais subjacentes desacelerou para 2,3% (de 4,8%). Na mesma métrica, a média dos núcleos desacelerou para 3,9% (de 4,5%). O Itaú manteve a projeção de 5,1% para o IPCA de 2026 e segue esperando uma reaceleração dos núcleos nos próximos meses, impulsionada principalmente por alimentos “in natura” e serviços.
Para o Bradesco, que esperava deflação de 0,26%, o recuo de 0,32% no IPCA foi explicado pela redução da tarifa de energia elétrica, fruto do bônus de Itaipu, e pela queda de 0,61% no preço dos alimentos consumidos no domicílio. Mas o banco admite que “para os próximos meses, a inflação deve voltar a subir, liderada pelo preço dos alimentos, enquanto os serviços devem seguir próximos do nível atual”. O banco espera que o IPCA termine o ano com alta de 5%.
Para o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, “o dado de agosto reforça uma convergência da inflação após o choque do petróleo em março. Um bom sinal também para o Banco Central poder continuar cortando os juros”.