O OUTRO LADO DA MOEDA
Brent acima de US$ 100 pressiona juros
Publicado em 09/09/2026 às 13:56
Alterado em 09/09/2026 às 13:56
A retomada das escaramuças entre Estados Unidos e Irã no Golfo Pérsico levaram a cotação do barril de petróleo do tipo Brent para entrega em novembro a superar novamente o nível de US$ 100 (o que não acontecia desde julho). Às 12:20 (horário de Brasília), o Brent era negociado a US$ 101,37 (alta de 3,55% no dia, de 6% na semana e de 21% em 30 dias. Desde fevereiro, antes do ataque conjunto dos EUA-Israel a Teerã, a alta do óleo alcança 40%.
Com a chegada do outono-inverno a demanda por combustíveis de aquecimento no Hemisfério Norte aumenta, o que tende a sustentar os preços dos derivados de petróleo (o Brasil não tem de seguir o movimento), mas a realidade é que isso pressiona o Federal Reserve Bank a elevar os juros em 0,25% em 16 de setembro e demais bancos centrais do Norte a seguirem na cautela monetária para frear a inflação.
Ao divulgar ontem a atualização do cenário semanal, a consultoria 4intelligence considera que a "alta de juros globais não impede corte da Selic [em 0,25% na reunião da próxima quarta-feira, para 13,75%], "mas limita extensão do ciclo de baixa", mesmo com "os indicadores recentes da economia brasileira seguindo apontando desaceleração da atividade econômica".
Sob a ótica da política monetária, (...) a desaceleração da atividade contribui para reduzir as pressões de demanda sobre os preços e favorece um fechamento gradual do hiato do produto (isto é, facilita que a economia volte a operar dentro, e não acima, da sua capacidade produtiva).
Para a consultoria, o diagnóstico central permanece o mesmo: a atividade doméstica perdeu impulso, os setores mais sensíveis ao ciclo econômico vêm apresentando moderação e os efeitos da política monetária restritiva tornaram-se mais visíveis. Em conjunto com a melhora observada nos índices de inflação nos últimos meses, o quadro continua compatível com nova redução da taxa Selic.
"Isso não significa, contudo, que exista espaço para um ciclo prolongado de flexibilização monetária. Alguns fatores recomendam cautela por parte da autoridade monetária", ressalva. O primeiro deles é a perspectiva menos benigna para a inflação nos próximos trimestres.
Outro fator de cautela vem do exterior. a combinação entre mercado de trabalho resiliente nos EUA, inflação persistente e novos choques de oferta tem levado os principais bancos centrais a sinalizar que subirão suas taxas básicas de juros.
O cenário base da 4intelligence continua a contemplar novas elevações por parte do FED, além de movimentos semelhantes por parte do Banco Central Europeu e do Banco do Japão. Esse ambiente tende a restringir o espaço para cortes adicionais da Selic, uma vez que eleva os riscos de desvalorização do real ante o dólar e de aperto (adicional) das condições financeiras domésticas.
“A proximidade do período eleitoral dificulta avaliação mais precisa sobre a trajetória futura dos ativos financeiros, das expectativas e das condições macroeconômicas. Avaliamos que o Banco Central buscará uma comunicação cautelosa, que preserve sua flexibilidade para adaptar suas decisões à medida que novas informações se tornarem disponíveis.
E se o Fed mudar o calendário?
Quando o Conselho Monetário Nacional aprovou o regime de metas de inflação para o Banco Central, em 1999, após a flutuação do câmbio, ficou estabelecido que o Comitê de Política Monetária do BC (o Copom), inspirado no Federal Open Market Committee (FOMC), se reuniria a cada 30 dias para definir a política monetária e a taxa Selic.
Como o FOMC se reunia a cada 45 dias e a economia brasileira ia bem, obrigado, a partir de 2006 as reuniões do Copom encurtaram para oito ao longo de cada ano. O calendário se ajustou às reuniões do Fed, que define as taxas de juros às 15 horas de quarta-feira, com três horas de prazo para o Copom ajustar seu comunicado ao do Fed.
Com Kevin Warsh à frente do Fed, surgiu a ideia de reduzir a quatro ou seis o número de reuniões anuais do Fed. Os 12 membros do FOMC ainda não se definiram, mas é crescente a adesão à proposta. Se ocorrer, o que farão os demais bancos centrais e o Copom, que seguem o calendário do Fed? Haverá ajuste no calendário dos mercados especulativos de juros, moedas, “commodities” e ações?
Qual o impacto do El Niño?
É voz corrente nos mercados, endossada pela consultoria 4 intelligence, que “a alta das cotações agrícolas, combinada ao encarecimento recente das “commodities” energéticas e à perspectiva de novos aumentos em alimentos, sugere que a trajetória dos preços ao produtor deverá voltar a exercer pressão sobre a inflação ao consumidor nos próximos meses”, com a presença do El Niño.
Acontece que os preços sobem nos mercados antes de o plantio da próxima safra ser afetado pelo fenômeno. O Boletim do Agro do Bradesco, ao analisar a partida da safra brasileira de soja 2026/27, iniciada com o fim do vazio sanitário em algumas regiões, assinala que parte de São Paulo e Paraná e o estado de Mato Grosso, responsável por 35% da safra, já podem iniciar o plantio de soja. Nas próximas semanas, Rondônia e Mato Grosso do Sul também serão liberados para a semeadura.
No Centro-Oeste, as chuvas foram esparsas de agosto ao início de setembro, o que caracteriza regime normal para o período. A previsão dos próximos dias aponta precipitação dentro da normalidade, com volume de chuvas entre 30 e 90 mm nas principais regiões do Centro-Oeste. O ambiente favorece a umidade do solo e as operações de plantio.
Já o Sul e Sudeste tiveram chuvas acima do normal, seguindo o regime característico de El Niño. A passagem da massa de ar frio trouxe geadas em algumas lavouras gaúchas de trigo em fase mais avançada, o que pode impactar a produtividade e a qualidade do cereal. O El Niño mantém a atenção ao clima no Brasil nos próximos meses.
A carne é fraca
Segundo o Bradesco, as exportações de carnes de frango e de suínos seguem renovando recordes, mas as de bovinos recuaram. Os embarques de frango cresceram 25,4% na comparação interanual. Os destaques foram a China (base de comparação deprimida em função de questões sanitárias) e a União Europeia (acelerou o ritmo das compras para se antecipar ao bloqueio).
Semana passada, o MAPA comunicou que auditoria realizada pelo bloco reconheceu como satisfatórios os controles sanitários de aves e mel. Os embarques devem ser retomados em breve. Os preços de frango reagem bem, mas a alta sustentada de preços depende de ajustes nos alojamentos.
Já os embarques de carne suína avançaram 8,1% em agosto, com Japão e Filipinas ampliando sua participação, enquanto a China se torna menos representativa.
Para os bovinos, a ausência da China levou ao recuo de 23% das exportações no mês. O volume exportado diretamente à China caiu mais de 90%. Mas a demanda externa segue aquecida, sustentada pelo balanço global apertado. Somada à demanda dos demais países, a medida adotada pelos EUA e a expectativa de antecipação das importações chinesas oferecem suporte aos preços do boi nos próximos meses, diz o Bradesco.