O OUTRO LADO DA MOEDA
Os juros não são os únicos culpados
Publicado em 30/08/2026 às 09:58
Alterado em 30/08/2026 às 10:00
Divulgação
Culpar juros altos pelo endividamento que levou grandes empresas, como Casas Bahia, Raízen e Braskem, a pedir Recuperação Judicial ou Extrajudicial (quando há dívidas concentradas em poucos credores), tem sido o argumento dos advogados de causas comerciais para convencer juízes de Varas Cíveis. Parte da imprensa passa recibo. Mas, nem sempre a crise decorre 100% de juros altos, que oneram, sim, famílias, médias, pequenas e microempresas. Em muitos casos, juros salgam uma ferida já aberta.
Lojas Americanas, o caso mais escandaloso, é anterior à escalada das taxas de juros. Em janeiro de 2023, a empresa informou, em “Fato Relevante”, ter descoberto dívidas não contabilizadas (de risco sacado e de criação fictícia de verba de propaganda cooperada).
De início, a companhia disse que o rombo era de R$ 40 bilhões. Na Recuperação Judicial, chegou a R$ 54 bilhões (os acionistas controladores injetaram bilhões; a empresa renegociou dívidas, transformadas em participação no capital, fechou unidades e demitiu muito pessoal). Mas voltou a ter prejuízos este ano. Agora, a Polícia Federal investiga a responsabilidade dos gestores nas fraudes contábeis.
Com rombo de R$ 10 bilhões, Casas Bahia repetem crises internas de gestão de gigantes do varejo. Com estoques sem saída, devido ao endividamento dos compradores, ficam apertados pelos altos custos do capital de giro. Mas, nas suas quebras, Casas Pernambucanas, Coroa-Brastel, Ricardo Eletro e Casa&Vídeo (que se recuperou) não tinham a forte concorrência das vendas diretas ou parceladas (via cartão de crédito) dos sites estrangeiros e gigantes nacionais como o Mercado Livre. Eram só os juros.
O grupo Marabraz, com uma centena de lojas em São Paulo, até que tinha uma dívida pequena (R$ 140 milhões). Mas houve cisão entre os sócios e um deles retirou as garantias à dívida, o que motivou o pedido de RJ, para evitar o pior.
Braskem afundou bairros
A Braskem, braço petroquímico do grupo Odebrecht, é culpada pelo afundamento de seis bairros de Maceió, capital de Alagoas, devido às atividades imprudentes de exploração de sal-gema. Parte dos túneis de perfuração, às margens da lagoa de Mundaú, cedeu, tragando quarteirões inteiros. Há sete anos, a holandesa LyondellBasell, uma das maiores petroquímicas do mundo, desistiu de comprar a Braskem (era controlada pela Odebrecht, que cedeu o controle à Shine, e tinha 47% das ações PN detidas pela Petrobras) por avaliar que as indenizações judiciais tornariam a empresa inviável. A dívida é de US$ 11 bilhões (RS$ 57 bilhões).
Uma crise de alavancagem
O grupo Raízen, parceria do grupo Cosan, de Rubens Ometto, com a Shell, pediu RJ por dívidas de R$ 65 bilhões, devido a problemas administrativos e apostas malfeitas. Maior produtor de açúcar e álcool do mundo, Ometto investiu, financiado, em 2022, quase R$ 10 bilhões para ser grande acionista da Vale. Deu-se mal. Os preços do minério de ferro caíram após a Rússia invadir a Ucrânia, em fevereiro de 2022. Perdeu quase R$ 5 bilhões ao revender as ações da Vale entre o fim de 2024 e começo de 2025.
Neste meio tempo, os preços do mercado doméstico de combustíveis viraram montanha russa. E a concorrência da produção de álcool de milho no Centro-Oeste ganhou escala. As usinas no Planalto Central contam com duas safras anuais de milho, enquanto há enorme empate de capital nas usinas de açúcar e álcool de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, que operam uma única safra.
Outro fato apertou o grupo Cosan. Enquanto vigorava (desde 2017) o sistema de paridade de preços internacionais (PPI), os preços da gasolina seguiam a alta internacional, ajustada pelo câmbio. E, como a gasolina comum tinha mistura de 27% de álcool anidro, a cada subida da gasolina nas refinarias da Petrobras a Cosan e a Raízen eram bafejadas por repasse de 27%.
A partir de maio de 2023, o governo Lula cumpriu a promessa de acabar com o PPI e “abrasileirar” os preços dos combustíveis, usando mais o petróleo do pré-sal nas refinarias da Petrobras, retiradas da lista de privatização, e que passaram a operar à plena carga.
O fim do PPI, combinado à política de subsídios temporários à gasolina, diesel e GLP, mostrou utilidade na guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã: os preços dos derivados evitaram que a inflação passasse de 5% (estava em 4,24% nos 12 meses terminados em julho). A gasolina subiu só 4,97% no ano e evitou escalada ainda maior dos juros.
Com seis meses de guerra, o governo está elevando a 30% a mistura do álcool à gasolina comum. Ou seja, sem RJ, a situação de liquidez podia ainda ser pior para a Raízen e o grupo Cosan, que está vendendo empresas e terras no CO para abater dívidas e reduzir o excesso de alavancagem.