O OUTRO LADO DA MOEDA
Juros altos quebram comércio e consumidor
Publicado em 18/08/2026 às 16:41
Alterado em 18/08/2026 às 16:41
Levantamento do Banco Central sobre os altos níveis dos juros cobrados (de 29 de julho a 4 de agosto) pelos principais bancos do país e “fintechs” no crédito rotativo do cartão de crédito aos consumidores e aos lojistas (capital de giro, conta garantida e antecipação das faturas do cartão de crédito) explica a quebradeira comércio varejista. São os juros bancários e não a Selic a causa da quebradeira.
Para uma inflação de acumula 4,44% nos 12 meses encerrados em julho e aumentos de salários inferiores a 6%, o piso dos juros, determinado pela taxa Selic (que era de 2% em fins de 2020, em plena pandemia, quando as grandes lojas investiram em vendas no e-commerce e agora está em 14%, após ter atravessado em 15% ao ano durante 10 meses), os juros bancários são cinco a dez vezes maiores.
Cartão parcelado de 100% a 747% ao ano
Para os consumidores, o juro do cartão de crédito parcelado dos 58 grandes financiadores pesquisados variava de 85,74% ao ano, do sedutor anúncio do C6Bank, com Giselle Bundchen, aos 106,79% do BTG-Pactual, passando pelos 108,31% do Bradesco, os 133,64% do Banco do Brasil, aos 135,68% do Banco XP, da taxa de 136,08% do PicPay Bank (que oferece a maquininha amarela aos lojistas).
A Caixa Econômica Federal cobrava juros anuais de 167,03% no cartão de crédito parcelado. O Santander já saltava para 175,13%. A Nu Financeira cobrava 179,93%. No Safra, o parcelamento custava 189,40%. No Itaú Unibanco chegava a 199,67%. Já na LuizaCred, financeira do Magazine Luiza que é o principal concorrente da Casas Bahia, o juro anual era de 265,20%. O Banco Crefisa cobrava 383,32% ao ano. A maior taxa era do banco do menor estado do Brasil – Sergipe, com 747,34% ao ano.
As penosas taxas aos lojistas
A competição nas ofertas de maquininhas de processamento de vendas pelo cartão de débito e de crédito, em alternativa ao Pix tem razão de ser: ligam o faturamento à possibilidade de antecipar linhas de crédito. A principal modalidade é o adiantamento das faturas do cartão de crédito a taxas pré-fixadas (as compras parceladas “em 10 meses sem juros seriam pagas à base mensal de 1/10 avos).
No levantamento do Banco Central, 16 bancos e “fintechs” disputavam o mercado. com maquininhas que controlam o faturamento. O Itaú Unibanco cobrava a menor taxa 13,36% ao ano, seguido pelo Safra (14,50%). A Nu financeira pedia 14,63% ao ano. No BTG-Pactual, a operação custava 15,02% ao ano. O Bradescard cobrava 16,19%, o Santander, 16,68%, o BB, 17,60% e o Bradesco, 19,28%
Outro segmento muito competitivo era o das contas garantidas (para evitar calotes aos fornecedores). Nada menos que 37 bancos e “fintechs” estavam no levantamento do BC. O Banco do Brasil cobrava 29,90% ao ano, o Santander, 39,34%; o Itaú Unibanco pedia 60,53% (mais de quatro vezes a Selic), o Bradesco cobrava 70,97% (cinco vezes a Selic) e o Safra, 199,45%. Já o C6Bank seduzia os lojistas com La Bundchen e cobrava 439,52% ao ano.
Uma fonte de recursos que era válvula de escape dos lojistas, mas virou arapuca com a escalada dos juros depois da pandemia foi o capital de giro com menos de 365 dias de prazo. As reviravoltas da conjuntura pegaram muitos varejistas no contrapé, sobretudo nas idas e vindas das restrições e liberações às importações de mercadorias de pequeno valor (mais conhecidas como a “taxa das blusinhas). A mordida dos sites de vendas de importados abocanhou um quinhão importante do varejo nacional.
Dos 50 bancos e “fintechs” pesquisados, entre os grandes bancos, a menor taxa de capital de giro a menos de um ano era do Itaú Unibanco, com 25,92% ao ano, seguido pelos 26,32% da CEF. O Bradesco cobrava 34,10%, o Santander, 39,07% e o BB, 39,75%. O BTG-Pactual já operava com 45,96% ao ano. O C6Bank cobrava 78,80%. A Nu Financeira pedia 93,90% e o Pic Pay Bank cobrava 270, 52% ao ano.
Situação é ruim em todo o mundo
Tanto o britânico “Financial Times”, quanto o “Wall Street Journal”, dos Estados Unidos, destacam hoje que as condições de crédito pioraram para os governos e as empresas em todo o mundo. O “FT” diz que ”Custos de empréstimos do governo atingem níveis recordes em várias décadas”.
Já o “WSJ” assinala que “nas economias desenvolvidas de todo o mundo, os rendimentos dos títulos do governo de longo prazo estão subindo para níveis não vistos em décadas. Tradicionalmente, isso tem sido um sinal de alerta de que os investidores estão preocupados com a saúde fiscal das nações”.
Mas, neste caso, o “boom” da IA também está desempenhando um papel, já que as grandes empresas de tecnologia emitem grandes quantidades de dívida para comprar chips da Nvidia e construir centros de dados, oferecendo aos investidores em títulos uma alternativa atraente aos títulos do Tesouro dos EUA e seus equivalentes estrangeiros”. Vale lembrar que um mega lançamento, como do IPO da Space X, drenou recursos de governos, empresas e consumidores e tende a mandar os juros à Lua.