O OUTRO LADO DA MOEDA
IPCA cai a 4,44%, com espaço a cortes da Selic
Publicado em 11/08/2026 às 15:46
Puxado pela queda de 0,67% em Alimentos e Bebidas e a redução de 1,14% na Alimentação em domicílio, o IPCA de julho subiu apenas 0,07% (contra 0,16% em junho e expectativa de 0,29% há 30 dias), e ficou pouco acima da mediana das expectativas do mercado (0,01%). Mas a taxa acumulada em 12 meses, caiu de 4,64% para 4,44%.
Divulgado no mesmo dia da Ata da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), que cortou a Selic, o piso dos juros no país, em 0,25% para 14%, a interpretação do cenário, segundo o Bradesco; indica o BC “dependente de dados, sem se comprometer com a trajetória futura de juros, dado o contexto de elevada incerteza” (externa e climática). A estratégia de subsídios temporários aos combustíveis não só evitou alta dos juros, como abriu espaço para “cortes”, no plural, como admitiu o Bradesco.
Cabe notar que as análises conjuntas sobre o IPCA e a Ata pelos economistas das instituições financeiras acentuam mais as chances de a inflação estourar a meta (o que reduziria o espaço para o Copom cortar os juros) e menos que o quadro era de 5,6% a 6,00% do IPC após a escalada dos preços do petróleo com a guerra no Golfo Pérsico, em 28 de fevereiro, e agora já se fala em IPCA de 5% ou menos.
Para agosto, a projeção da Focus para o IPCA está em -0,17%. Como a taxa foi de -0,11% em agosto de 2025, haveria nova queda da taxa anual. O problema são os resultados de setembro a dezembro comparados aos números de 2025. A Focus prevê IPCA de 0,49%/0,50% (a taxa foi de 0,48% em setembro de 2025). Se houver nova baixa da gasolina nas próximas semanas, neutralizaria as expectativas altistas do El Niño nos preços agrícolas. Se a inflação do último trimestre for inferior à do ano passado, a taxa anual cai abaixo de 5%. Com sorte, fecharia dentro do teto da meta (3,00%+ tolerância de 1,50%=4,50%). Outubro de 2025 subiu 0,09%, novembro, 0,18% e dezembro, 0,33%.
Bradesco e Itaú esperam corte de 0,25% na Selic em 16 de setembro, para 13,75%. Mas, enquanto o Itaú avalia ser o último corte do ano, o cenário do Bradesco “prevê continuidade da moderação da atividade e que a inflação corrente seguirá mostrando dissipação dos choques do primeiro semestre nos próximos meses, antes dos efeitos do El Niño”. (...) Confirmado o nosso cenário e com câmbio próximo da estabilidade, é provável que os cortes continuem em 2026”, adianta o Bradesco, que espera 5,0% de IPCA, contra agora 5,1% do Itaú, que previa 5,6% em março.
Na média móvel de três meses, com dados dessazonalizados e anualizados, os serviços subjacentes desaceleraram para 4,6% (de 4,9%) ano contra ano, enquanto o núcleo de industriais subjacentes desacelerou para 5,2% (de 6,4%). Na mesma métrica, a média dos núcleos desacelerou para 4,5% (de 4,9%).

Fonte: IBGE
A interpretação da Ata
Para o Bradesco: “A ata (...) trouxe elementos adicionais em relação ao comunicado, dando respaldo para a continuidade do ciclo de calibração da taxa de juros. O Copom segue sem indicar antecipadamente os próximos passos e mantém-se dependente dos dados. Manteve o diagnóstico de que a transmissão da política monetária está se verificando sobre a atividade. O Copom avalia que as evidências de transmissão têm se acumulado gradualmente e que a desaceleração do 1º para o 2º trimestre está disseminada entre os componentes de oferta e de demanda”.
“O documento deixa claro que o Banco Central não deve combater os efeitos primários dos choques de oferta, que são relevantes, ainda que mantenha atenção aos efeitos secundários. O Comitê reconhece que esses choques têm influenciado tanto a trajetória recente quanto a prospectiva da inflação e afirma que reagirá com firmeza apenas caso os efeitos de segunda ordem se materializem”, assinala.
O Itaú chamou a atenção para “alguns pontos marginais que, apesar de secundários, merecem acompanhamento. Em primeiro lugar, e de forma mais relevante, destacamos a ênfase dada aos choques de oferta, que estariam influenciando a trajetória recente e prospectiva da inflação. O Banco Central reiterou que esses choques devem ser combatidos pela política monetária apenas na medida em que gerem efeitos de segunda ordem. Será importante acompanhar quais fatores estão sendo considerados nessa categoria e incorporados às projeções, incluindo impactos relacionados ao El Niño e aos preços do petróleo”.
“O documento mantém aberta a avaliação sobre os próximos passos da política monetária, sem oferecer sinais mais claros sobre a trajetória futura dos juros. Dessa forma, seguimos trabalhando com a expectativa de um corte na próxima reunião do Copom”.
Harmonia fiscal e monetária
Destaco o item 7, com recado às campanhas eleitorais sobre a necessidade de harmonia entre as políticas fiscal e monetária: Disse o Copom que “A política fiscal tem um impacto de curto prazo, majoritariamente por meio de estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, (com) potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros. Uma política fiscal que atue de forma contracíclica e contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta”.
“O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”.
“O Comitê mantém a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê reforça, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”, o recado foi dado.