O OUTRO LADO DA MOEDA
Brent e dólar dão segurança ao Copom
Publicado em 05/08/2026 às 15:09
Alterado em 05/08/2026 às 18:44
Enquanto os bancos centrais de todo o mundo, sobretudo os países importadores de petróleo continuam divididos sobre manter os juros altos para conter a inflação acumulada em 155 dias de guerra no Golfo Pérsico, com o Brent e o dólar em queda, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) encontra um cenário mais favorável para reduzir a Selic hoje e anunciar passos futuros da política monetária.
O governo Lula fez uma aposta contra a inflação. Concedeu subsídios temporários aos combustíveis (gasolina, diesel e GLP) e evitou a escalada dos preços (há projeções de índice zero qualquer coisa em julho e deflação em agosto) e das taxas de juros, como previa e desejava o mercado.
Em vez de subir, os juros da Selic, que estavam em 15% ao ano em 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram Teerã, matando a cúpula do governo dos aiatolás, caíram a 14,25%. Hoje, devem baixar mais 0,25%, para 14,00% e a expectativa do mercado é de nova queda em 16 de setembro, para 13,75%.
Os dados de hoje dos mercados internacionais são favoráveis. O contrato do petróleo tipo Brent para entrega em outubro estava cotado a US$ 79 ao meio-dia (horário de Brasília), com queda de 0,48% no dia, de -12,95% em uma semana e de -28,16% em três meses. Por sua vez, o dólar era negociado a R$ 5,12, com queda de 0,14% no dia e de -0,94% no mês.
Ou seja, se o conflito amainar no Oriente Médio, há espaço para uma baixa da gasolina até a reunião do Copom de setembro, o que pode jogar a inflação para baixo de 5% até dezembro (até junho estava em 4,64% e a última Focus previa 5,03%). O teto da meta é de 3,00%+tolerância de 1,50%=4,50%.
Os tambores da guerra
Ao analisar o cenário externo para o encontro do Copom, a consultoria 4intelligence, reconhece que “os mercados financeiros globais têm experimentado dias agitados. Decisões de política monetária, intervenções atípicas nos mercados de câmbio e a divulgação de indicadores vieram se somar às incertezas dos tambores da guerra no Oriente Médio para conferir maior volatilidade aos mercados globais”
As reuniões de política monetária dos principais bancos centrais mundiais realizadas nos últimos dias não trouxeram surpresas, resultando em manutenção de juros. Mas as decisões foram divididas, com diversos votos dissidentes pela elevação de juros nos EUA, no Reino Unido e no Japão.
A coletiva de imprensa do presidente do Fed, Kevin Warsh, também aumentou as incertezas em relação à política monetária dos EUA. Warsh reforçou o recado de que "entregará estabilidade de preços" - mas sem oferecer informações sobre o horizonte da convergência da inflação à meta.
Warsh mencionou que a alta recente nas taxas de juros dos títulos públicos representa um aperto de condições financeiras capaz de dispensar o Fed de elevar a taxa básica de juros. E o resultado do PIB dos EUA revelou que a maior economia do mundo continua a crescer em ritmo robusto, apesar do aumento de incertezas com o conflito no Oriente Médio.
Sinais de que um acordo EUA-Irã está próximo nos levam a seguir avaliando que, por margem estreita, as chances de que não haja elevação da “Fed Funds Rate” (FFR) até o final do ano ainda preponderam. Hoje os mercados atribuem 60% de chance de elevação da FFR em setembro. Se a criação de empregos seguir firme e a inflação surpreender para cima, iremos rever nossas projeções.
Os dilemas do Copom
No Brasil, a expectativa quase consensual para a reunião de política monetária do Copom é de nova redução de 25 pontos-base na taxa Selic. Seria a quarta redução seguida de 25 pontos-base.
Os resultados mais amenos da inflação, que ajudam a acomodar expectativas inflacionárias, são os principais fatores a contribuir para a expectativa de continuidade do processo de calibração da Selic. Ainda assim, diante da gangorra dos mercados, a consultoria avalia que o comunicado do Copom novamente não apresentará sinalização explícita para sua reunião seguinte. Mas tampouco descartará a possibilidade de continuidade da calibração da Selic.
E justifica que “o espaço para flexibilização adicional da política monetária é limitado, (...) num contexto de reforço de iniciativas oficiais de estímulo à demanda em ano eleitoral”
A consultoria considera que “o Copom não conseguirá estender o atual ciclo de flexibilização monetária para muito além da reunião desta semana ou, no máximo, da próxima”.
Pois eu considero que, apesar das surpresas da reta final da campanha eleitoral, que começa na semana que vem, ainda há espaço (e vontade política) para mais uma rodada de baixa de juros. Sobretudo se Lula for reeleito.