O OUTRO LADO DA MOEDA
Indústria alerta Copom: juros estão asfixiantes
Publicado em 04/08/2026 às 12:59
Alterado em 04/08/2026 às 12:59
No primeiro de dois dias de reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), que amanhã decide nova baixa dos juros básicos (a Selic está em 14,25% ao ano contra inflação annual de 4,64% em junho), a Pesquisa Mensal da Indústria do IBGE, que apontou queda de 2,8% na produção industrial em junho, mandou um alerta ao Copom: os juros estão muito altos, asfixiando a economia.
A queda da produção industrial superou amplamente o consenso do mercado (-0,9%) e a expectativa do Bradesco (-0,6%). Em maio, a indústria já havia recuado 0,2%, também surpreendendo negativamente as expectativas. Na variação annual, houve alta de 1,7%.
A surpresa foi concentrada na indústria de transformação, que teve queda de 1,8% (o Bradesco previa -0,5%). As maiores quedas foram em confecção de vestuário e fabricação de produtos químicos, ambas com -11%. O resultado mais fraco, porém, foi puxado pela indústria alimentícia (-1,9%) e pela de coque e produtos derivados de petróleo (-5,9%): apesar de recuos menores, esses segmentos têm mais peso na produção industrial.
Para o Bradesco, o resultado chama atenção por incluir setores tipicamente cíclicos. Houve queda em todas as categorias de uso, com destaque para bens de consumo (-3,7%), enquanto bens intermediários e bens de capital registraram ambos queda de 1,1%.
Ou seja, o consumo se retraiu com os juros altos e o comércio reduziu encomendas à indústria, mostrando que a manutenção dos juros altos que endividam famílias e empresas (além do governo, que ainda paga os juros mais baixos da praça), projeta forte desaceleração do PIB para 2027. E não haverá reversão, se os juros básicos não caírem e abrirem espaço para a queda dos juros bancários.
Para o Bradesco, a queda de 0,6% na indústria extrativa " veio praticamente em linha com a nossa projeção (-0,7%). Após o forte movimento de abril, impulsionado pelo conflito geopolítico, o segmento vem revertendo esse desempenho, primeiro em maio e agora em junho.
Com esse resultado, a alta da indústria foi de 0,3% no trimestre, desaceleração importante ante a alta de 1,7% no primeiro quarto do ano. Na avaliação do banco, a pesquisa da indústria, a primeira a fechar o segundo trimestre, corrobora nossa expectativa de desaceleração em relação ao primeiro". O Bradesco projeta crescimento de 2% no ano, com perda de ímpeto do segundo trimestre em diante".
Ciesp critica 'maior juro real do mundo'
Para o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Rafael Cervone, "com inflação em queda, o Brasil não precisa do maior juro real do mundo".
Antes mesmo de saber do desempenho negativo da indústria em junho, ele afirmou que "a Selic elevada é um tarifaço que se soma aos impostos pelos Estados Unidos contra a competitividade da economia nacional".
As análises da Faria Lima, no entanto, traduzem uma torcida pela inflação e pela manutenção dos juros altos. A maioria admite apenas a baixa de 0,25% na Selic amanhã, para 14% ao ano, mas já põem em dúvida as chances de nova baixa em 16 de setembro. Bradesco e Santander preveem nova queda para a Selic fechar o ano em 13,75%. O Itaú também recuou nas suas projeções altistas e agora prevê 13,75%, mas a XP considera que a última baixa será em agosto, com a taxa básica de juros fechando o ano em 14,00%.