O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Idas e vindas de Trump desorientam mercados

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Publicado em 29/07/2026 às 13:50

As idas e vindas do governo Trump, nas tarifas de importação, que atingem seus principais parceiros e afetam as cotações das moedas e “commodities”, amplificadas pelo cenário cada dia mais incerto no Oriente Médio, que provoca altas e baixas na cotação do petróleo Brent, desorientam os mercados em todo o mundo.

O cenário desorienta o próprio Federal Reserve Bank, que hoje deve manter o juro dos EUA inalterado na faixa de 3,50%-3,75%, preservando espaço para que o Copom siga calibrando a Selic com nova queda de 0,25% para 14,00% na reunião de 6 de agosto. Mas a gangorra traz oportunidades fantásticas a detentores de “inside information”.

A gangorra do Brent

E o círculo próximo ao presidente Trump, em especial o genro Jared Kushner, que atua como negociador de acordos com Israel e Irã, e outros países do Oriente Médio, está sempre bem-informado. Altos e baixos do contrato de Brent para entrega em outubro, cotado a US$ 87,85, às 12;25 de hoje (horário de Brasília), com alta de 7%, são oportunidades de ganhos extraordinários, assim como as baixas.

Nos últimos 30 dias as cotações do petróleo estiveram nos extremos máximos de US$ 95,30 por barril (em 23 de julho) e a mínima de US$ 70,14 (em 2 de julho, quando se comemorava um cessar fogo que segue sendo violado). Entre os dois extremos, uma variação de 21,57%. Mas, neste intervalo de 30 dias, ocorreram altas de 9,59% (em 13 de julho), de 5,20% (em 8 de julho) e de 7% (hoje). No sentido inverso, as baixas mais acentuadas foram de 6,34% (27.07) e de 4,41 (28.07).

Dilemas dos BCs e mercado

Em sua análise semanal, a consultoria 4intelligence considera que “o grau de incerteza em torno do cenário inflacionário continua elevado. Há fatores de oferta e de demanda que estão exercendo pressão sobre a inflação corrente dos EUA. Do lado da oferta, o conflito no Oriente Médio e o aumento de tarifas de importação exercem pressão de custos sobre as cadeias de produção”.

Já a demanda (doméstica no Brasil) tem se mantido em crescimento firme, com o consumo sustentado pelo mercado de trabalho fortalecido e pelos cortes de impostos que turbinaram a restituição de imposto de renda. Os investimentos, por sua vez, têm sido impulsionados (em termos globais) pela expressiva expansão da demanda em setores ligados ao avanço da inteligência artificial’.

Apesar desses fatores de pressão, as medidas de núcleo da inflação não chegaram a se distanciar significativamente da meta; e as expectativas inflacionárias de longo prazo seguem ancoradas. Nesse contexto, a consultoria avalia que “a maioria dos diretores do FOMC (Federal Open Market Committee) optará por manter a taxa de juros dos EUA inalterada na reunião desta semana”.

E que “a manutenção de juros nos EUA deverá contribuir para manter o câmbio doméstico acomodado, tornando quase certa a redução da Selic 25 pontos-base na reunião do Copom da próxima semana”.

O Copom terá uma semana para avaliar as possíveis repercussões da reunião do FOMC sobre os mercados globais de ativos e moedas. “Se o FOMC surpreender com um aumento da taxa básica de juros dos EUA, a cotação do câmbio doméstico pode voltar a ficar sob alguma pressão - o que não chegaria a fechar, mas estreitaria, a janela de oportunidade para que o Copom dê continuidade ao processo de calibração da taxa básica Selic”, observa.

Mas o cenário mais provável é de que o FOMC manterá inalterada a sua taxa básica de juros. Isso deverá contribuir para manter o câmbio doméstico acomodado, tornando quase certa a redução da Selic em outros 25 pontos-base, para 14% ao ano, na reunião da próxima semana.

Essa perspectiva vem sendo reforçada pela evolução recente mais benigna da inflação corrente (IPCA-15 de 0,06%). Boa parte da surpresa favorável da inflação decorreu da descompressão, mais rápida do que se previa, nos preços de alimentos e combustíveis - que estiveram pressionados entre março e maio pelos impactos do choque de oferta provocado pelo conflito no Oriente Médio.

[como se vê, foi certíssima a decisão do governo Lula de subsidiar os combustíveis para evitar uma escalada de inflação que elevaria os juros e os custos da dívida muito acima dos gastos com subsídios, bancados com o imposto sobre a exportação de petróleo].

Mas as medidas de núcleo da inflação, que procuram excluir os itens com comportamento mais volátil, também desaceleraram, passando a registrar variações mensais anualizadas, com ajuste sazonal, mais compatíveis com as metas. Para a consultoria, “essa descompressão adicional da inflação corrente pode ajudar a consolidar a incipiente tendência de moderação das expectativas de inflação.

As atualizações promovidas nos últimos cinco dias úteis, as projeções para a alta do IPCA têm sofrido algum ajuste para baixo. A 4intelligence considera que “essa janela de oportunidade para a continuidade da calibração da Selic, que deverá ser aproveitada pelo Copom na reunião da próxima semana, tenderá a se estreitar mais adiante.

Primeiro, porque a descompressão dos preços internacionais de petróleo e demais commodities foi interrompida com o recrudescimento do conflito no Oriente Médio. E logo o fenômeno El Niño tende a influir nos preços dos alimentos a partir de setembro. Por isso, a consultoria continua “a avaliar que o Copom não conseguira estender o atual ciclo de flexibilização monetária para muito além da reunião da próxima semana. Isso, mesmo se o FOMC conseguir evitar uma elevação de juros nos EUA”.

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