O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Inflação cai nos EUA e facilita baixa de juros

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Publicado em 14/07/2026 às 14:47

Alterado em 14/07/2026 às 14:47

A inflação para os consumidores americanos teve surpreendente queda em junho, com baixa de 0,4%, liderada pela baixa de quase 10% na gasolina, o que fez a taxa acumulada em 12 meses recuar de 4,2% em maio para 3,8%. Mesmo com as incertezas na retomada das escaramuças entre Estados Unidos e Irã, que elevaram o barril do Brent para entrega em setembro para US$ 85 (+2,12%), mas com queda nos vencimentos até agosto de 2027, as apostas de um cenário mais favorável à queda dos juros pelo Federal Reserve provocaram alta nos índices de ações e baixa do dólar ante as principais moedas.

O dólar operava em queda de 0,29% frente ao iene e de 0,86% ante o franco suíço. O euro subia 0,60% frente ao dólar, e a libra esterlina valorizava 0,47%. Entre as moedas de países de economias emergentes, as maiores valorizações eram do dólar australiano, que subia 1,00% e do real, com o dólar cotado a R$ 5,07, às 11:50 (horário de Brasília), a menor cotação desde 15 de junho, com baixa diária de 1,26% do dólar. O movimento baixista afetou de as cotações das “commodities”, sujeitas a movimentos especulativos com apostas nos efeitos do El Niño.

O aumento dos preços dos alimentos foi relativamente brando, diminuindo os temores de que o aumento dos custos de energia continuasse a se espalhar para as compras. O custo dos alimentos consumidos em casa subiu 0,2% no mês e cresceu 2,7% em relação a 2025. O índice tinha acelerado em abril para 2,9%, indicando queda reconfortante. Passados os impactos da gripe aviária, os preços dos ovos caíram 27,9% desde o ano passado.

Todos agora se voltam para o depoimento do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh no Comitê de Serviços Financeiros da Câmara. Os investidores querem saber como Warsh pretende cumprir sua promessa de reduzir a inflação. Ele está prestes a dizer aos legisladores que o Fed não tem "tolerância para inflação persistentemente elevada" e que, ao definir a política "corretamente", o aumento da inflação nos últimos cinco anos será "coisa do passado."

Warsh ainda não esclareceu qual considera ser a política "certa". Isso reflete sua oposição a enviar sinais explícitos aos mercados financeiros sobre o que o Fed pode fazer a seguir. Essa prática, conhecida como orientação futura, encurrala o Fed, argumenta. Mas a abordagem também deixou o público incerto sobre as condições em que Warsh pode considerar subir ou cortar as taxas a curto prazo.

Para o Bradesco, a melhora da inflação satisfaz a condição que [o vice-presidente do Fed, Cristopher] Waller havia articulado para reabrir o debate sobre cortes. Para o FED, o número deve trazer alívio no curto prazo e deixar o BC em modo de espera”.

Safras na dependência do EL Niño

A continuidade da baixa dos preços dos alimentos (nos EUA e no Brasil, os dois maiores produtores e exportadores mundiais) está na dependência dos impactos do El Niño, cuja intensidade sobre as lavouras está prevista a partir de setembro (época de maior plantio no Brasil). Na semana passada, os preços internacionais de soja, milho, trigo, açúcar e café registraram alta. Na soja, a China voltou a comprar dos EUA da safra 2026/27, (cota de 25 milhões de toneladas), E há rumores sobre a redução da tarifa de importação adicional de 10% sobre a soja norte-americana pela China a partir de outubro. Por fim, o USDA apontou um balanço global mais apertado para os principais grãos.

Os ajustes foram maiores no milho: os estoques iniciais foram reduzidos, puxados pelos EUA e China. A oferta também foi reduzida na Europa, devido ao clima mais quente e seco. O consumo global foi reduzido, sem compensar o menor estoque e produção. A relação estoque consumo, estimada em 20,8%, está no menor nível dos últimos 13 anos. Para o Bradesco, o milho continua como o mercado mais apertado entre os grãos. No Brasil, a elevação de 30% para 32% no teor da mistura de álcool anidro na gasolina vai absorver a crescente produção de álcool de milho.

No Brasil, o excesso de chuvas no Sudeste tem levado a atrasos na colheita de café e cana. A previsão é de precipitação acima da média na segunda metade de julho, o que deve manter o atraso. Para café, a frente fria trouxe riscos de geada. E o El Niño tem mantido o atraso das chuvas de monções na Índia.

A NOAA reforçou a previsão de um El Niño de forte intensidade a partir de setembro, o que eleva os riscos para a florada do café. Nesse ambiente, os fundos especulativos ampliaram suas posições compradas em café, gerando alta nos preços, enquanto o açúcar ficou praticamente estável, com menor disponibilidade de matéria-prima e da redução do mix destinado à produção de açúcar.

A safra 2026/2027 está sob a ameaça dos impactos do conflito no Oriente Médio, que subiu o preço da ureia, a US$/t 420.

IBGE confirma safra de 2026

A estimativa de junho de 2026 para a produção de cereais, leguminosas e oleaginosas foi de 347,4 milhões de toneladas, 0,4% maior (+1,3 milhão de t.) que a obtida em 2025 (346,1 milhões de t.), com queda de 0,8% (ou menos 3,0 milhões de t.) em relação à de maio de 2026, revelou o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE.

Arroz, milho e soja são os três principais produtos deste grupo. Representaram 92,8% da estimativa da produção e por 87,4% da área a ser colhida. Para a soja, a estimativa de produção foi de 174,8 milhões de t. Para o milho, estima-se 136,5 milhões de t. (29,7 milhões de t. na 1ª safra e 106,8 milhões de t. na 2ª safra). A produção do arroz (em casca) foi estimada em 11,2 milhões de t. a do trigo, em 6,6 milhões de t., a do algodão herbáceo (em caroço), em 9,1 milhões de t.; e a do sorgo, em 5,6 milhões de t.

Entre as grandes regiões, o volume da produção de cereais, leguminosas e oleaginosas apresentou a seguinte distribuição: Centro-Oeste, 172,4 milhões de t. (49,6%); Sul, 92,4 milhões de t. (26,5%); Sudeste, 30,8 milhões de t. (8,9%), Nordeste, 29,8 milhões de t. (8,6%) e Norte, 22,2 milhões de t. (6,4%).

O Estado do Mato Grosso lidera a produção, com 31,3%, seguido pelo Paraná (13,7%) e o Rio Grande do Sul (10,7%). Junto com Goiás (9,7%), Mato Grosso do Sul (8,4%) e Minas Gerais (5,5%), esses seis estados respondem por 79,3% da produção nacional.

Mas vale registrar que as áreas pioneiras do chamado MATOPIBA (as iniciais de Maranhão (2,2%), Tocantins (2,4%), Piauí (1,9%) e Bahia (3,8%) conquistadas neste século no sul dos três primeiros estados e no oeste baiano, já responderiam por 10,3% da produção nacional, superando os 9,7% de Goiás.

Outro destaque é o Pará, que empata com Santa Catarina em 2,1 milhões de toneladas, e além da produção de gado bovino, concentra 49,4% da produção nacional de cacau, desbancando o sul da Bahia.

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