O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Trump detona acordo; óleo sobe e real resiste

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Publicado em 08/07/2026 às 13:03

Alterado em 08/07/2026 às 13:03

Depois que o presidente Trump detonou, na reunião da OTAN, na Turquia, o acordo de cessar-fogo com o Irã, após ataques do exército iraniano a bases americanas no Bahrein e no Kuwait, os preços do barril do tipo Brent para entrega em setembro dispararam, 7,50%, se aproximando dos US$ 80, com alta registrada em todos os vencimentos até 2030.

No mercado de câmbio houve movimentos diversos. O euro registrou ligeira queda ante o dólar, que sobe 0,38% contra o iene e 0,15% frente ao franco suíço. A moeda americana registra valorização ainda contra o dólar canadense, o peso mexicano, o peso argentino e o dólar australiano. Entre as poucas moedas com desempenho positivo ante o dólar estavam a libra esterlina (+0,12%) e o real, que sustentava às 11:55 (horário de Brasília) alta de 0,08%, com o dólar cotado a R$ 5,1547.

Parece evidente que a instabilidade do fator petróleo segue ameaçando as projeções de todas as economias altamente dependentes do insumo importado. Não é mera coincidência, portanto, que as moedas que não registram queda diante do cenário negativo no Golfo Pérsico são as de países produtores e exportadores de petróleo, como o Brasil e a Noruega, fora dos produtores do Oriente Médio.

Por esse motivo, aguarda-se com expectativa a divulgação da inflação de junho pelo IBGE nesta sexta-feira. A última pesquisa Focus, encerrada sexta-feira, 3 de julho, apontou a mediana de 0,32%. O Departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco está prevendo menos: 0,29%.

A inflação de junho de 2025 foi de 0,24%. Como o índice acumulado em 12 meses estava em 4,72% em maio, se a taxa do mês passado ficar em 0,29%, o índice acumulado em 12 meses sobe para 4,77%. Se der 0,32%, vai a 4,80%.

Parece pequena a diferença, mas sinalizaria (com a expectativa de um IPCA de 0,30% em julho (foi de 0,26% no ano passado) e de deflação de -0,10% em agosto (-0,11% em 2025), que a taxa de 12 meses (no pior cenário) atingiria 4,85% em julho e agosto, evitando ultrapassar a faixa psicológica de 5,00%.

Esta, aliás, foi a nova previsão da 4intelligence para o IPCA de 2026 (a previsão anterior era de 5,2%). Entretanto, tudo depende da evolução de dois fatores externos à economia brasileira, neste já conturbado cenário eleitoral: o impacto inflacionário de uma possível retomada do conflito no Golfo Pérsico e a influência do El Niño nas safras agrícolas.

O risco do El Niño

O departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco, com base nos informes do NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) dos Estados Unidos, prevê que a ocorrência mais severa dos impactos climáticos do fenômeno vai se concentrar nos meses de agosto a janeiro, com os piores prognósticos para o período setembro a novembro, que coincide com o plantio das safras de soja, milho, arroz e feijão no Brasil.

Portanto, apesar da maior verba já destinada pelo governo Lula ao Plano Safra, o destino da fartura na mesa em 2027 e da inflação no bolso dos brasileiros depende do clima.

Vejam como as causas externas mudam as análises. Ontem à noite, antes da biruta virar no Oriente Médio, a consultoria 4intelligence comentava que “as pressões inflacionárias suscitadas pelo conflito no Oriente Médio começam a se dissipar”. O fator, aliado à “moderação de custos [nos preços agrícolas e industriais no atacado] “ajuda a acomodar, mas não elimina, riscos inflacionários.

A consultoria avançava a expectativa de que seria “improvável que ocorram apertos contundentes de política monetária nas economias centrais”. No caso dos EUA, “continuamos a avaliar que o FED não chegará a elevar sua taxa básica de juros. Os resultados mais amenos da criação de empregos também ajudam a reafirmar essa expectativa”.

Como cautela sempre faz bem às previsões dizia: “Ainda assim, não se pode menosprezar o risco de recrudescimento de tensões geopolíticas, com potencial de interromper o processo de normalização das cadeias de suprimento”.

A cautela, diante da pressão de recomposição de estoques neste segundo semestre faria “os bancos centrais se mostrar simetricamente cautelosos - tanto para elevar juros no curto prazo como para voltar a flexibilizar a política monetária mais adiante”.

Como fica no Brasil?

“Os mercados também voltaram a elevar apostas na continuidade do ciclo de calibração da taxa básica Selic no curto prazo. O alívio de custos no exterior e resultados mais amenos do mercado de trabalho e da inflação no Brasil reforçam a percepção de que está se abrindo uma janela de oportunidade para que o Banco Central continue a moderar cautelosamente o grau de restrição da política monetária.

Depois de ressalvar as pressões do mercado de trabalho (sobre os preços dos serviços) e do El Niño, a consultoria pondera que “mesmo que, no curto prazo, o Banco Central volte a cortar a Selic, continua pouco provável que ele vá engatar uma redução contínua e expressiva do grau de restrição da política monetária”.

Ou seja, mantida restritiva, em contexto de diluição de medidas oficiais de estímulo à demanda, é, para a consultoria, “um dos fatores que nos levam a projetar desaceleração do crescimento doméstico em 2027”.

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