O OUTRO LADO DA MOEDA
Itaú vê juros altos nos EUA e Selic em 14% até abril
Publicado em 01/07/2026 às 13:41
Alterado em 01/07/2026 às 13:41
Não só o Banco Central enfrentou cenário de grande incerteza para decidir a última redução de 0,25% da Selic em 17 de junho, para 14,25%, antes do armistício entre Estados Unidos e Irã, de 20 de junho. O Itaú também viu o horizonte externo tão confuso que só divulgou o cenário de junho (datado de 26.06) em 1º de julho. E prevê inflação e juros altos para 2026 e 2027.
O Itaú está prevendo que o IPCA feche o ano em 5,4% (bem acima do teto da meta (3,00%+tolerância de 1,50%=4,50%), nível que só será alcançado em 2027. Para 2026, o banco deixou de incorporar altas adicionais de gasolina na refinaria diante do recuo recente do petróleo, com o balanço de riscos passando de altista para ligeiramente baixista. Para 2027, o balanço de riscos segue assimétrico para cima, com a incerteza quanto ao efeito do El Niño sobre a oferta de grãos.
Com a previsão de aumento dos juros nos Estados Unidos (da faixa atual de 3,50%-3,75% para 4,50%, contrariando os desejos do presidente Trump e as orientações ao recém nomeado presidente do Federal Reserve Bank, Kevin Warsh), e a Selic tendo a última baixa de 0,25% em 5 de agosto, assim permanecendo até a reunião do Comitê de Política Monetária (antes era de 13,75%) de 28 de abril de 2027, o Itaú acredita que a redução do diferencial de juros entre o Brasil e os EUA favorecerá a valorização do dólar.
Alta do dólar está em curso
No início do ano, o diferencial entre o piso dos juros no Brasil (Selic em 15%) e nos Estados Unidos (“fed funds” em 3,75%) era de 11,25%. Agora está em 10,50% e tende a fechar o ano em 9,50% (14,00% X 4,50%), haveria perda de 1,75 ponto percentual que, segundo o Itaú levaria o câmbio a fechar 2026 em R$ 5,30 e a R$ 5,50 em 2027.
Nesta quarta-feira o dólar estava cotado a R$ 5,2060, com alta de 0,88% do dólar que experimenta jornada altista contra todas as moedas. O euro caía 0,29% contra o dólar, que subia ligeiramente contra o iene, o franco suíço e o dólar australiano. A alta contra o peso mexicano era de 0,33%.
PIB e contas fiscais
O Itaú prevê que o PIB cresça 2,1% este ano e 1,7% em 2027. Após crescer 1,8% no primeiro trimestre, comparado ao mesmo período de 2025, a taxa aumentaria a 2,2% no segundo e terceiro trimestres, para encerrar o ano com alta de 2,1%. Para 2027, passados os estímulos fiscais do ano eleitoral e da alta do petróleo, o banco prevê desaceleração do PIB para 1,7%. Isso terá implicações fiscais.
Com o mercado de trabalho ainda aquecido (a previsão é de taxa de desemprego em 5,7% em 2026 e 6,0% em 2027), o Itaú espera “perda de intensidade do impulso fiscal, que ainda deve permanecer positivo, em um contexto no qual a política monetária deve permanecer em terreno contracionista, limitando a aceleração da atividade”.
O Itaú manteve a projeção de resultado primário de - 0,5% do PIB em 2026 e -0,6% em 2027, com balanço de riscos mais negativo diante da perspectiva de preços de petróleo mais baixos. Com a queda dos preços de petróleo, vemos risco de não concretização de receitas recorrentes e extraordinárias (como o imposto de exportação) ligadas à commodity e já incorporadas no cenário”.
Por outro lado, a retirada de subsídios aos preços de combustíveis pode ser feita de forma mais gradual, amortecendo o impacto nos preços domésticos, porém sustentando um patamar elevado de despesas extraordinárias. O banco reitera e ressalta “a necessidade de um ajuste fiscal relevante para a estabilização da dívida pública”.
Para o banco, “o desafio estrutural permanece elevado”. Mantidas as regras atuais, sem qualquer correção de curso, “o ajuste fiscal necessário para estabilizar a dívida pública, hoje em torno de 4 p.p. do PIB, continuará crescente e em magnitudes ainda mais expressivas”. Os dados do Itaú apontam para a dívida líquida subindo de 70,7% para 70,9% do PIB este ano, mas a dívida bruta teria ligeira queda ante a projeção de maio: de 80,8% para 80,6% do PIB.
Adverte que “nesse contexto, o desenho das regras vigentes tem permitido uma expansão de despesas primárias incompatível com a trajetória requerida, com aumento das exceções às regras e dos estímulos ao crédito direcionado via despesas financeiras, de tal modo que a credibilidade da âncora fiscal vem sendo prejudicada, com repercussões sobre a plena transmissão da política monetária”.
Contas externas melhoram
Nem todas as projeções são negativas. As contas externas melhoram com o impulso das vendas do petróleo valorizado pela guerra do Golfo Pérsico. O saldo da balança comercial foi mantido em US$ 80 bilhões para este ano (US$ 68 bilhões em 2025) e o déficit em transações correntes (balança comercial + serviços e rendas de capitais), que era de 2,9% do PIB no ano passado, se reduz para 2,7% do PIB este ano (US$ 69 bilhões).
O Itaú manteve as projeções de déficit em conta corrente em 2026 e em US$ 72 bilhões em 2027, com o efeito do câmbio mais depreciado sendo compensado pela queda nos termos de troca. O déficit em conta corrente segue acima da média recente, com a melhora na balança comercial parcialmente compensada por serviços e rendas mais pressionados.
Ainda assim, as contas externas mostram maior equilíbrio, refletindo a melhora no financiamento externo, embora com composição marginalmente menos benigna, dada a maior participação dos fluxos de portfólio, assinala o Itaú.