O OUTRO LADO DA MOEDA
Guerra eleva 1,8% o IPCA e 1,50% a Selic
Publicado em 24/06/2026 às 14:01
Alterado em 24/06/2026 às 16:45
A guerra no Golfo Pérsico, deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro e agora em fase de armistício, alterou todas as previsões para a economia mundial. Isso justifica, no Brasil, o grau de incerteza nas projeções de inflação e juros (o cenário da reunião do Copom de 17 de junho já mudou com a trégua) e a própria falta de previsão do Copom para a reunião de 5 de agosto.
Agora, com a trégua, já que a Ata do Comitê de Política Monetária ficou também ultrapassada pelo novo cenário, o mercado financeiro espera, com ansiedade, a divulgação amanhã do Relatório de Política Monetária, com comentários do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do diretor de Política Econômica, Paulo Pichetti, para tirar suas conclusões sobre o cenário futuro.
O Itaú rememorou as sucessivas mudanças de cenário a cada reunião do Copom este ano (que, de resto, se refletiu nas próprias projeções mensais do banco, que ainda não atualizou o cenário de junho). Por ora, o Itaú projeta 5,4% de IPCA para 2026 e a Selic fechando o ano em 13,75%.
As revisões do Copom para 2026 (%)
Reunião IPCA Selic
Janeiro 3,4 12,25
Março 3,9 12,25
Abril 4,6 13,00
Junho 5,2 13,75
Para o Itaú, “a ata do Copom esclarece como as autoridades enxergam o cenário: os riscos inflacionários altistas predominam. (...) “O comitê sinaliza que qualquer espaço que ainda exista para a flexibilização está se esgotando rapidamente. As autoridades parecem preocupadas com evidências de que a atividade econômica pode estar ganhando tração, ao invés de desacelerar. E explicam a decisão de cortar a taxa de juros como uma tentativa de evitar volatilidade excessiva no instrumento de política monetária, nos preços dos ativos e na atividade econômica”.
Acrescenta que “o texto remove a qualificação [feita por parte do mercado, incluindo o Itaú] de que a decisão havia sido tomada “neste momento”, presente no comunicado, que historicamente sinaliza que o quadro pode mudar no curto prazo. E reintroduz a referência ao choque do petróleo (retirada do comunicado), agora talvez em sentido oposto”.
Exemplos do impacto da guerra
Antes de cada reunião do Copom, o Banco Central (diretoria de Política Econômica distribuiu extenso questionário (Questionário Pré-Copom-QPC) para colher a mediana das projeções do mercado para a inflação (e os preços dos itens de maior peso no IPCA), das taxas de juros e uma série de indicadores auscultados semanalmente na Pesquisa Focus.
Comparado a janeiro, para se ver a visão de tranquilidade reinante antes da guerra, além da inflação prevista para 2026 ter saltado de 3,4% para 5,2% (+1,80 ponto percentual ou 52,9%) e a Selic saltado 1,50% p.p. (de 12,25% para 13,75%), dois produtos chamam a atenção: a gasolina, item de maior peso entre os 377 pesquisados pelo IBGE no IPCA, teve a previsão de alta triplicada de 2,1% (em janeiro) para 6,3% (em junho, mesmo com subsídios) e a carne, com maior peso na alimentação, saltou 45,7% (de 7,0% para 10,2% nos mesmos períodos).
O maior aumento previsto (306,25%) foi em passagens aéreas, sem tantos subsídios como os da gasolina, do diesel e do GLP. Os ônibus urbanos, por razões eleitorais, tiveram preços contidos no diesel e as previsões de alta subiram de 5,6% para 6,6% (+17,8%). Uma das raras exceções foi a queda nos reajustes esperados para os planos de saúde.
Os efeitos da guerra no QPC (%)
Item Janeiro Junho Variação
IPCA 3,4 5,2 52,9
Gasolina 2,1 6,3 200,0
GLP 2,0 6,0 200,0
Energia 5,5 6,0 9,0
P de saúde 6,1 5,5 -9,8
Carnes 7,0 10,2 45,7
P. aérea 6,4 26,0 306,2
Ônibus 5,6 6,6 17,8
As incertezas do Itaú
O cenário mudou mais que biruta de aeroporto e isso pode ser notado nas previsões do Itaú, o maior banco privado brasileiro, que por ter vários ex-integrantes do Copom em sua diretoria adota o mesmo modelo de acompanhamento nas previsões (após moratória de seis meses, o ex-diretor de Política Econômica do BC, Diogo Guillen, substituirá Mário Mesquita, ex-BC, como economista-chefe do Itaú).
Os cenários do Itaú para 2026 (%)
Mês IPCA Selic
Dez/25 4,5 12,75
Janeiro 4,0 12,75
Fevereiro 3,8 12,25
Março 4,5 13,00
Abril 5,2 13,25
Maio 5,4 13,75
Como cada ponto a mais na Selic onera para o Tesouro Nacional em R$ 64 bilhões (ao fim de 12 meses) o custo da dívida pública, pode-se concluir que para o Tesouro Nacional a mudança de trajetória da Selic (1,50% acima do previsto), pode implicar em custo de quase R$ 100 bilhões. Mas teria sido ainda mais danoso sem os subsídios aos combustíveis: onerariam toda a sociedade e dobrariam ou até triplicariam os gastos do TN se a Selic chegasse a 16%, por exemplo.
A consuloria 4intelligence, ao atualizar ontem à noite seu cenário após a interpretação da Ata do Copom, assinala que "o cenário de cumprimento da meta de inflação no 1º trimestre de 2028 não comporta cortes de juros na segunda metade deste ano - razão pela qual projetamos estabilidade da Selic em 14,25% ao ano por período prolongado".