O OUTRO LADO DA MOEDA
A queda no varejo é um mau sinal?
Publicado em 16/06/2026 às 13:09
Alterado em 16/06/2026 às 16:22
NO G7 - O presidente Lula encontrou-se nesta terça, em Évian, na França, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa
Foto: Ricardo Stuckert
À véspera da super quarta-feira, a economia mundial dá sinais de que os estragos provocados pela guerra de Israel-Estados Unidos, iniciada em 28 de fevereiro e pausada domingo, 14 de julho, foram longe demais na alta dos preços do petróleo, que reduziu a renda de bilhões de consumidores em todo o mundo. O que deve ser discutido na reunião do G-7 em Evian, na França.
Na semana passada, o Banco Central Europeu adotou o remédio amargo de elevar as taxas de juros da Zona do Euro de 0,75% para 1,00%. Hoje, terça-feira, ao mesmo tempo em que a China divulgava a primeira queda de vendas do varejo desde a pandemia da Covid, o Banco do Japão elevou as taxas de juros para o nível mais alto em 31 anos, ancorando a política monetária contra os riscos inflacionários decorrentes da alta nos custos de energia.
O Banco Central do Japão elevou nesta terça-feira sua taxa básica de juros de 0,75% para 1%, levando os custos de empréstimo ao nível mais alto desde 1995. A decisão, tomada por 7 votos a 1, encerra uma pausa que vinha ocorrendo desde dezembro passado.
No primeiro dos dois dias de reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central, o IBGE divulgou a queda de 1,5% no volume de vendas do varejo em abril (superando a expectativa do mercado, de retração de 0,6%). O varejo ampliado, que inclui veículos, autopeças e materiais de construção, itens mais sensíveis ao crédito, a queda foi de 0,7%. No ano, o varejo tem avanço de 2,0% no volume de vendas, que acumula 1,5% nos últimos 12 meses.
A visão dos analistas
O Bradesco considera que “a dinâmica recente do varejo tem apontado acomodação do consumo de bens, seja aquele mais relacionado ao crédito ou à renda. A desaceleração do mercado de trabalho e a política monetária em patamar restritivo tendem a pressionar o consumo das famílias para baixo. Por outro lado, as medidas de crédito divulgadas recentemente sustentam uma desaceleração mais gradual. Assim, projetamos alta de 0,5% do PIB no segundo trimestre, após a expansão de 1,1% no primeiro trimestre”, assinala o banco.
Para a economista Sara Paixão, analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, o principal destaque negativo foi o segmento de combustíveis e lubrificantes, com retração de 6,5% no período. A composição do índice mostra que a desaceleração do consumo esteve concentrada em bens não essenciais, enquanto os segmentos de consumo básico, como hiper e supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, bem como livros, jornais, revistas e papelaria, registraram crescimento.
.Esse comportamento é compatível com um ambiente de juros elevados e de pressão sobre o orçamento das famílias, especialmente em razão da alta dos preços dos alimentos vista recentemente e do elevado endividamento das famílias.
Sara Paixão considera que, sob a ótica do Banco Central, o resultado representa um sinal de moderação na atividade econômica e pode contribuir para justificar um corte de 25 bps na divulgação de amanhã, conforme o esperado pelo mercado, expectativa que ganhou força após a sinalização de trégua entre EUA e Irã.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, observa que o resultado negativo pode ter sido causado pela antecipação de compras em março (reflexo preventivo quanto à alta geral de preços causada pela guerra). Os dados da desaceleração da política monetária serão mais evidentes neste segundo trimestre, acredita.
Por isso, considera que “a leitura do Copom não deve sofrer alterações significativas quando abordado o tema de atividade econômica, tampouco a mesma deve ser vista como um entrave para a continuidade do ciclo de calibragem da política monetária, embora demais fatores, como a inflação corrente e expectativas, devam seguir como ponto de atenção”.
Em relação ao PIB, ”seguimos projetando crescimento de 0,4% no segundo trimestre, com alta de 1,7% ao final de 2026”, diz.