O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Sem subsídios IPCA já estaria em 6%

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Publicado em 12/06/2026 às 15:28

Alterado em 12/06/2026 às 15:30

Graças aos subsídios à gasolina e ao diesel, que provocaram baixa de 0,46% no item Transporte, o único a cair entre os nove pesquisados pelo IBGE, o IPCA de maio ficou em 0,58%, abaixo dos 0,67% de abril. Mas a taxa acumulada no ano subiu para 3,20% e a taxa acumulada em 12 meses saltou de 4,32% para 4,72%, a maior taxa desde os 4,68% de outubro de 2025, furando o teto da meta da inflação (3,00%+ 1,50% de tolerância=4,50%).

O resultado deixa o Copom, na reunião de quarta-feira, 17, com pouca margem para reduzir a Selic, hoje em 14,50% ao ano. Ao analisar o resultado, o departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco considerou que “o choque do petróleo continua exercendo pressão para a aceleração dos preços”. O banco projeta IPCA de 5,00% para 2026.

Mas a verdade é que, se não fossem os subsídios aos combustíveis, que acumulam alta no ano de 7,92%, mais do que o dobro da inflação (3,20%), a elevação dos preços teria contaminado ainda mais os preços dos alimentos e bebidas, que acumulam alta de 4,81% até maio, superando largamente os 2,95% de aumento em todo o ano de 2025.

El Niño e Copa do Mundo
Apostas especulativas nos preços dos combustíveis e nos alimentos, elevaram as margens para absorver possíveis reajustes de fretes, e na antecipação dos efeitos do El Niño (que ainda não se manifestaram no clima) e provocaram altas extraordinárias nos preços da batata-inglesa (+44,69% no mês e 75,84% no ano), no tomate (+20,62% e 86,17%, respectivamente) e na cebola (+26,80% e 48,88%).

Houve especulação também com a demanda da Copa. O arroz ainda em queda de 0,02% no ano, subiu 1,74% em maio. A alta de 6,44% no feijão carioca (41,09% no ano), acompanhada pela alta de 2,07% no feijão preto (13,09% no ano), encareceu a feijoada e as refeições em geral.

As carnes, alimento de maior peso no IPCA, subiram 1,39% em maio e acumulam alta de 6,28% no ano. O detalhe é que a picanha, estrela dos churrascos, ficou 3,97% mais cara em maio, acumulando alta de 9,23% no ano. A alcatra subiu 1,48% em maio e 9,00% até maio. A cerveja subiu 1,18% em maio e acumula alta de 5,99% em cinco meses.

No sentido inverso, o café moído (que subiu mais de 80% no ano passado) baixou 2,38% em maio, acumulando quedas de 8,07% no ano e 12,25% em 12 meses. Outro produto em queda foi o óleo de soja. Com a supersafra de 2025/26, os preços caíram 0,87% em maio e têm baixa de 3,52% no ano.

Efeito Petrobras e subsídios

A inflação teria uma trajetória bem mais elevada (talvez estivesse acima de 6% em 12 meses), em consequência da escalada dos preços do petróleo e dos combustíveis, se não fosse amortecida pelos subsídios, com custos financeiros bem maiores para o Tesouro e toda a sociedade que os gastos para segurar os preços da gasolina e do diesel.

Era bem possível que já tivéssemos um aumento na taxa Selic (que estava em 15% em 28 de janeiro, quando o Copom, devido à escalada de hostilidades entre Israel-Estados Unidos contra o Irã, que resultou em fortes ataques a Teerã em 28 de fevereiro) pausou a baixa estimada entre 0,25% e 0,50% pelo mercado. A baixa foi adiada para 17 de março (0,25%, movimento repetido em maio).

Na reunião da próxima semana, o mercado espera a última queda (para 14,25%) ou uma parada para aguardar o impacto da sinalização do Federal Reserve, que anuncia sua decisão às 15 horas (horário de Brasília, três horas e meio antes do comunicado do Copom. O aumento de um ponto na Selic custa R$ 64 bilhões em 12 meses. E vice-versa.

O ganho do efeito dos subsídios ao diesel e à gasolina pode ser dimensionado quando se compara a marcha da inflação do Brasil e nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. A Bahia foi o estado onde o grupo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos privatizou, como Acelen, a refinaria Landulpho Alves, da Petrobras, no governo Bolsonaro.

Na área da Acelen (que se estende a Sergipe), os combustíveis subiram 13,84%, mais do o dobro dos 6,0% da média nacional. E enquanto o IPCA acumulava alta de 3,20% nos primeiros cinco meses do ano na média nacional, subia 3,57% em Salvador e 4,22% em Aracaju, contra 3,11% no Rio de Janeiro e 3,23% em São Paulo

Sujeita aos preços do mercado internacional, enquanto a Petrobras usa o petróleo mais barato que extrai do pré-sal e pode sustentar preços mais baixos dos combustíveis com ajuda dos subsídios, os preços dispararam na Bahia.

O efeito dos subsídios Jan-Maio (%)

Região       IPCA       Combustíveis

Brasil         3,20              6,00

Salvador    3,57             13,84

Rio de Janeiro 3,11           7,62

São Paulo   3,23               5,86



A análise do Bradesco

Para o Bradesco, “a surpresa em maio foi concentrada em bens monitorados. O banco esperava “uma devolução da gasolina pelas altas recentes, mas a queda, de 1,46%, foi menor que a esperada. A alta de energia elétrica [bandeira amarela] também foi mais intensa, de 3,67%. Os bens monitorados desaceleraram no acumulado em 12 meses, com alta de 5,8% ante 6,1% no mês anterior.”

Os Serviços subjacentes subiram 0,4%, desacelerando dos 0,52% de abril. Em 12 meses, os serviços subjacentes apresentam a mesma taxa do mês anterior, em 5,2%, com a variação trimestral anualizada em 5,6%.

Alimentação no domicílio desacelerou com relação a de abril, em 1,65%. Esses bens devem continuar pressionados ao longo do ano por questões de oferta e um possível Super El Niño traz maior incerteza com relação ao efeito sobre os preços. Nos 12 meses encerrados em maio, a alta desta categoria é de 3,0% ao ano (1,3% em abril).

Os bens industriais tiveram alta de 0,32%, desacelerando dos 0,62% de abril. Em 12 meses, acumulam alta de 2,7% e não devem ser problema para a inflação neste ano. A média dos núcleos apresentou ligeira melhora na margem, com alta de 0,45% ante 0,49% em abril. Em 12 meses, a alta foi de 4,5%, acelerando ligeiramente de 4,4% no mês anterior.

Para o Bradesco, a surpresa “foi concentrada em bens monitorados, que estão sujeitos ao choque do petróleo. A composição do número em linha com a esperada, com certa acomodação dos serviços subjacentes e dos núcleos indica que a tendência da inflação está razoavelmente em linha com a nossa projeção para os próximos meses”, diz.

O banco “espera que a inflação siga rodando acima do limite superior da meta de inflação nos próximos meses” e prevê alta de 5,0% para o IPCA de 2026.

Desaceleração em junho

Já a consultoria 4intelligence está prevendo IPCA de 0,28% em junho. A desaceleração, estará ligada (...) à parcial descompressão de Alimentação e bebidas, que é sazonal, e responde à descompressão já registrada em alguns preços agropecuários no atacado. Cabe destacar o início da devolução das fortes altas em alguns “in natura” (destacadamente Tubérculos, raízes e legumes), bem como perda de tração em Carnes e em Leites e derivados”.

Ainda assim a taxa em 12 meses subiria de 4,72% a 4,74% e a consultoria mantém a projeção de 5,4% para 2026.

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