O OUTRO LADO DA MOEDA
EUA usaram IA para acusar Brasil?
Publicado em 03/06/2026 às 15:48
Alterado em 03/06/2026 às 15:48
Se não fossem tão pueris, embora tenham respaldo da investigação do Departamento de Justiça, divulgada em maio último, contra o suposto cartel da carne nos Estados Unidos, com apoio dos pecuaristas locais, que estão perdendo mercado, e suporte da Secretária de Agricultura, Brooke Rollins, as acusações americanas contra práticas de trabalho escravo na bovinocultura brasileira, poderiam ser classificadas como obra de IA, tal o primarismo das queixas.
Os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança mundial na exportação de carne bovina neste terceiro milênio por questão de escala e pelos efeitos do inverno. Devido à neve do inverno, lá há menos cinco/seis meses de criação aberta no pasto (contra o ano inteiro no Brasil tropical). Pelo mesmo motivo, perderam a liderança na exportação de soja e carne de frango (em 40/45 dias, os pintos engordados com ração de soja e milho são abatidos.
Com novas áreas de pastagens e avanços tecnológicos (rotação de pastagens com capins mais resistentes à seca, cruzamento de bovinos – Nelore com raças de corte europeias mais precoces e uso de fertilização “in vitro” e transferência de embriões (uma vaca passou a ter várias crias por ano) – o rebanho de corte aumentou exponencialmente e encurtou o tempo de abate de 4/5 anos, no fim dos anos 90, para 24/36 meses, mas com maior produção de carne por carcaça.
A conquista do Centro-Oeste
Pode-se dizer que, no Brasil, quando as geadas de junho-julho de 1975, destruíram os cafezais em São Paulo e Paraná e acabaram com o colonato, que cultivava milho, feijão e mandioca nas “ruas” do café em regime de parceria com os donos da terra, houve uma grave crise de alimentos básicos que avançou pelos anos 80.
Mas, a conquista do Centro-Oeste pela agricultura com as pesquisas da Embrapa em espécies de soja, milho, algodão e outras lavouras adaptadas ao cerrado, normalizou o abastecimento na década de 90 e abriu novas perspectivas de integração entre a agricultura e a pecuária.
Áreas antes usadas como pastagens extensivas no Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), passaram a ter pastos plantados ou foram ocupadas por lavouras mecanizadas em rotação de cultura. A soja é o carro-chefe. Após sua colheita, entra o plantio direto de milho, algodão, girassol ou outra lavoura compatível. E as sobras da agricultura (farelo de soja e de milho, após extração de óleo ou de etanol) passaram a entrar, junto com variedades de capim e plantas de alto rendimento, na engorda de gado em confinamento. As áreas de pastagens são mais ocupadas por novilhas destinadas à reprodução.
Desde o ano 2000 não se tem notícia no Brasil de falta de carne bovina ou de frango. E lavouras atingidas pela seca ou enchentes, têm a saída das importações. Nos Estados Unidos, que conquistaram o Oeste e as terras indígenas nos séculos 17 e 18, não há mais áreas disponíveis.
O resultado é que a população de 342 milhões de habitantes, com alto consumo de carne “per capita”, mas com apenas 87 milhões de cabeças de gado de corte, além de ter pouco excedente para exportar, depende da importação de carne para fazer hamburguer (com a carne do dianteiro). Dono do maior rebanho bovino do mundo 16% dos 1,22 bilhão de cabeças (232 milhões de cabeças, quase o triplo dos EUA, para uma população de 214 milhões, dos quais 30% têm pouco poder aquisitivo para consumir), o Brasil tem excedentes de carne do dianteiro e do traseiro do boi para exportar a países ávidos de proteína animal.
Brasil X EUA na carne (em milhões)
País População Bovinos
EUA 342 87
Brasil 214 238
Mundo 8.200 1.220
Chororô dos pecuaristas dos EUA
No Brasil, o pessoal do agro se alinhou à direita no governo Bolsonaro (que relaxou nos controles ambientais, nas restrições ao uso de agrotóxicos e anabolizantes, bem como no controle de desmatamento e de garimpo e ações invasoras em terras indígenas – agora alegadas pelos EUA para tentar impor restrições tarifárias ao Brasil). Nos EUA, agricultores e pecuaristas são a base do eleitorado republicano e foram cativados por Donald Trump.
Segundo o “Wall Street Journal” “esses agricultores eram considerados "marginais". Agora, estão aconselhando a equipe de Trump e conquistaram lugar de destaque nas discussões. Diz o “WSJ”,que, “quando altos funcionários do governo Trump criticaram, no mês passado, o poder de mercado das principais empresas de processamento de carne dos Estados Unidos, eles foram acompanhados por Shad Sullivan, um pecuarista do Colorado e apresentador de um “podcast” voltado para criadores de gado.
“Onde há carne bovina, há liberdade”, disse Sullivan, ladeado pelo procurador-geral interino Todd Blanche e pela secretária de Agricultura, Brooke Rollins, que estavam atualizando as informações sobre a investigação antitruste do Departamento de Justiça (DOJ) contra as principais empresas de processamento de carne.
Dois gigantes brasileiros na mira
O DOJ confirmou uma investigação criminal e antitruste contra as quatro maiores processadoras de carne bovina do país: dois delas são a gigante brasileira JBS, e a National Beef (controlada pela Marfrig/MBRF), além da Cargill e a Tyson Foods. A secretária chamou atenção para o papel de empresas com controle estrangeiro no setor, destacando as brasileiras JBS e MBRF. Segundo ela, a presença dessas empresas levanta preocupações relacionadas à produção nacional, à estrutura do mercado e a preços, e “representam uma ameaça não apenas à nossa produção de gado, mas também à própria América”, disse
“Uma empresa brasileira detém cerca de 25% do mercado e tem um histórico documentado de corrupção internacional e atividades ilícitas. A dura realidade é que essa propriedade estrangeira de frigoríficos tem sido associada não apenas à corrupção, mas também a cartéis e, tão recentemente quanto na semana passada, a trabalho escravo— o que já é grave por si só, mas também prejudica os pecuaristas e consumidores americanos”, disse na ocasião, em coletiva.
A prática de condições de trabalho análogo ao trabalho escravo é residual na pecuária bovina (quem fica confinado é o boi). Mas, além do caso específico da carne, os EUA estão usando a acusação de “trabalho escravo” em terceiros países, com os quais o Brasil comercializa (exporta mercadorias e importa produtos) cujas atividades exploratórias de menores e condições ultrajantes de trabalho eram práticas de filiais americanas (vide os casos da Nike e da Lululemon no Vietnã).