O OUTRO LADO DA MOEDA
Seção 301 faz mais chantagem que PCC
Publicado em 02/06/2026 às 14:36
Alterado em 02/06/2026 às 14:36
O arrazoado de argumentos levantados pelo USTR (o Escritório de Representação de Comércio dos Estados Unidos), para impor tarifas de 25% ao Brasil e condenar o Pix, com base na Seção 301, por supostas “práticas comerciais desleais” em relação às empresas e negócios americanos, parece mais um “Salve Geral” emitido da cadeia pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) a seus agentes do crime. E o efeito colateral vai acabar respingando, mais uma vez, no clã Bolsonaro, que não perde oportunidades para tramar contra o Brasil.
Há um inegável objetivo no USTR: preservar a qualquer custo negócios e interesses americanos. O governo Trump praticamente esvaziou a Organização Mundial de Comércio (de resto, a ONU e suas agências) e se vale disso para impor, a ferro e fogo, os interesses americanos. Se a OMC estivesse ativa, o Brasil abria painel de controvérsias. Ao fim de investigações isentas, os EUA poderiam ser condenados. Como foram no começo do século por “dumping” contra o algodão brasileiro e a Embraer – que tentaram, via Boeing, levar na mão grande no governo Temer.
O governo Trump2 tentou impor seu poder imperial na largada com o tarifaço de janeiro. O efeito bumerangue, com a desorganização das cadeias de produção montadas no exterior pelas multinacionais americanas nas últimas três décadas, (e a pressionar a inflação doméstica) levou os CEOs das grandes corporações americanas a pressionar Trump a voltar atrás. O que explica as idas e vindas no tarifaço (comemorado pelo clã e aliados como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em meados de 2025).
Agora, informados de que o pacote americano da Seção 301 fazia menção à atuação do crime organizado no Brasil - que espalha terror, tanto pelas milícias quanto pelos narcotraficantes nas áreas em que atuam, mas não agem como as organizações terroristas de cunho político, os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro (este enredado pelas relações promíscuas com Daniel Vorcaro) conseguiram uma janela na agenda do presidente Donald Trump. E surfaram na onda de que conseguiram o apoio do Departamento de Estado (chefiado por Marco Rubio) para considerar o PCC paulista e o Comando Vermelho carioca, como “organizações terroristas. A onda era um calhau. Trazia junto um ataque ainda mais poderoso aos interesses brasileiros.
Hipocrisia americana
No pacote de produtos de exportação que poderiam estar sujeitos, a partir de 6 de junho, de tarifas de 25%, os EUA excluíram aqueles que podem onerar o consumidor americano. Estão nesse caso frutas não produzidas em terras americanas, o café, a carne [a carne brasileira é essencial à produção dos hambúrgueres pelos processadores locais, entre os quais se destaca a brasileira JBS-Friboi], além da Embraer (no valor final dos aviões da companhia brasileira de São José dos Campos e que tem filial nos EUA, há mais produtos “made in USA” do que brasileiros). Tudo o mais que concorrer contra produtos americanos, incluindo o milho e a soja, ficam sob vagas suspeitas de serem cultivadas em áreas desmatadas.
Trata-se de uma tremenda hipocrisia do governo Trump, que abandonou o Acordo de Paris como uma de suas medidas inaugurais, e nunca promoveu ações em defesa do meio ambiente, tentar impor restrições comerciais ao Brasil por supostas plantações de soja e milho em áreas que foram desmatadas. Os EUA e a Europa desmataram suas florestas e biomas nos últimos três séculos para conquistar áreas agrícolas e “sentam” em cima de “reservas de mercado”, com acusações genéricas. Isso já foi tentado com a carne. O rastreamento dos bovinos derrubou os argumentos.
Na soja e no milho, Brasil e EUA são concorrentes diretos e indiretos (na exportação de carnes de aves e suínos, pois soja e milho são essenciais nas rações de engorda para esses animais). O Brasil já desbancou os EUA como maior exportador de soja e de carnes de frango e bovina. O USTR sabe que é ínfima a área cultivada de soja e milho na Amazônia. O grosso da produção vem do Centro-Oeste, do Paraná e do MATOPIBA (iniciais das regiões sul do Maranhão, Tocantins e do Piauí, além do oeste da Bahia). O etanol brasileiro era 100% de cana de açúcar; agora já se produz etanol de milho em todas as regiões produtores e a sobra do milho, após extraídos óleo ou etanol, vira ração.
O alvo é o Pix
O grande alvo americano, no entanto, é o Pix. O sistema de pagamentos instantâneo, desenvolvido pelo Banco Central desde 2017, aperfeiçoando sistemas em operação em dezenas de países (e em estudo pelo Federal Reserve, o BC americano), e adotado em fins de 2021 (na gestão Roberto Campos Neto, no governo de Jair Bolsonaro, para facilitar transações bancárias durante a pandemia foi um sucesso nacional que mudou os hábitos da população brasileira.
Na prática, o “lobby” de Trump acordado com o clã Bolsonaro sobre o Pix acontece não só porque o sistema de pagamentos brasileiro afeta os negócios de bancos e do sistema financeiro dos EUA, especialmente das operadoras Visa e Mastercard, que estimam perdas de R$ 12 bilhões com seus cartões de créditos em razão dos pagamentos pelo método criado no Brasil. O comércio e prestadores de serviços fizeram enorme economia com o Pix (sobretudo entre as tardes de sexta-feira e domingo, quando há a maior movimentação financeira dos consumidores). Com o Pix o dinheiro da transação entra no ato (nas compras via cartões de débito ou crédito) demoraria até terça ou quarta-feira, período em que, estando devedor incorreriam juros bancários. Mas não é só, as taxas cobradas pelo credenciamento no Pix são bem mais suaves para os lojistas: enquanto o Pix custa em média 0,22% a 0,33%, os cartões de crédito cobram taxas médias superiores a 2,2%.
A rigor, bancários brasileiros e os próprios bancos poderiam se aliar às bandeiras Visa e Mastercard que perderam lucros com a concorrência do Pix. O Pix e a pandemia forçaram uma “bancarização” acelerada da população brasileira. Centenas a milhares de agências bancárias foram fechadas (com perdas de milhares de empregos), quando as transações passaram a ser feitas via celular.
Mas, enquanto as “fintechs” brasileiras (instituições de pagamentos que prosperaram com o Pix, e algumas fizeram lavagem de dinheiro para o crime organizado, além do PCC e do CV, para sonegadores contumazes, motivo pelo qual o Banco Central está descredenciando várias IPs por insuficiência de capital e operações fraudulentas), há um grande interesse oculto das “Big Techs” americanas, à frente a Meta de Mark Zuckerberg, em combater o Pix.
Cavalo de Troia
O Banco Central não autorizou o sistema do WhatsApp para transferência eletrônica de fundos, que utilizaria o Pix e concorreria com os cartões Visa e Mastercard). Zuckerberg e outras redes sociais americanas querem usar o Pix como “Cavalo de Troia” para questionar as restrições da Justiça brasileira à difusão irresponsável de notícias falsas e de cunho sexual pelas redes sociais (como fizeram a União Europeia e a Austrália).
A acusação do USTR diz que “em 2023 e 2024, os tribunais brasileiros ordenaram a remoção e desmonetização de diversas contas e canais relacionados a um “podcaster” brasileiro popular que mora na Flórida. Em 2025, os tribunais brasileiros permitiram o desbloqueio das contas do “podcaster” sob a condição de que conteúdos supostamente ofensivos permanecessem inacessíveis (um dos alvos é o bolsonarista Alan dos Santos).
Os relatórios de transparência da Meta indicam que, de julho a dezembro de 2025, o Brasil ordenou que restringisse mais conteúdo do que restringiu em qualquer período comparável desde 2016, incluindo aproximadamente 9.800 itens em conformidade com ordens de tribunais locais e por meio de ações legais de remoção relacionadas a processos civis, criminais e eleitorais.
A situação foi agravada pela decisão da Suprema Corte do Brasil, de 26 de junho de 2025, que declarou parcialmente inconstitucional o Artigo 19 do Marco de Direitos Civis da Internet do Brasil de 2014, que exigia uma ordem judicial antes que a responsabilidade civil pudesse surgir por conteúdo de terceiros.
Essa seria a maior interferência do governo Trump nas eleições brasileiras, tentando passar por cima do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal que coíbem a disseminação de notícias faltas e disparo em massa de memes controversos na campanha eleitoral. Por ora, os tiros de Flávio Bolsonaro estão saindo pela culatra.