O OUTRO LADO DA MOEDA
Focus prevê Selic de 13,25%; Itaú, de 13,75%
Publicado em 01/06/2026 às 15:30
Alterado em 01/06/2026 às 15:30
Ao contrário da mediana do mercado, que na Pesquisa Focus do Banco Central, encerrada sex-feira, 29 de maio e divulgada hoje, que espera 5,095 de inflação e apontou estabilidade na projeção da taxa Selic de 2026 (13,25%) e de 2027 (11,25%), o Itaú, que divulgou hoje o cenário de maio, elevou a previsão do IPCA de 5,2% para 5,4% e elevou a projeção da Selic de 13,25% para 13,75%.
Para 2027, o Itaú também elevou a previsão do IPCA (de 4,3% para 4,5%), com a Selic se elevando de 12,25% para 12,50%. E justifica a previsão mais conservadora para a redução da Selic (atualmente em 14,50% (que o mercado espera ver reduzido a 14,25% porque, “diante da nova piora do cenário inflacionário e da atividade resiliente, o espaço para corte de juros fica ainda mais limitado”
Outras projeções
O Itaú justificou o aumento das projeções da inflação, apesar de ter mantido as projeções de taxa de câmbio em R$/US$ 5,15 em 2026 e R$/US$ 5,35 em 2027, pelos impactos da guerra nos preços de petróleo e derivados e esperados reflexos do El Niño nos preços dos alimentos.
“Para 2026, a revisão reflete principalmente o maior repasse indireto do choque do petróleo, enquanto para 2027 pesa a combinação de maior inércia inflacionária e pressão adicional em alimentos. O balanço de riscos permanece assimétrico para cima em ambos os anos, com combustíveis como principal vetor de alta no curto prazo e, para o próximo ano, riscos associados a fertilizantes e ao El Niño elevando a incerteza sobre inflação de alimentos”.
O banco assinala, ainda, que “os fundamentos seguem dando suporte para a moeda no curto prazo, mas a incerteza típica de anos eleitorais justifica nossa projeção de alguma depreciação ao longo do ano”.
Em função das “medidas de estímulo anunciadas recentemente, deixando o balanço de riscos para o crescimento deste ano mais equilibrado”, o Itaú revisou a projeção de crescimento do PIB deste ano dos 1,9%, previstos pelo FMI e pela Focus 2026 (como a mediana da Focus) e manteve a projeção de 1,7% (idem a Focus).
Quanto ao mercado de trabalho, manteve as estimativas de taxa de desemprego em 5,7% em 2026 e 6,0% em 2027.
Déficit fiscal
O Itaú manteve a projeção de resultado primário de -0,5% do PIB em 2026 e de -0,6% em 2027. “A perspectiva de ampliação das despesas com transferências, associada à redução da fila do INSS, deve aumentar o impulso fiscal no ano e evitar que a melhora conjuntural das receitas se traduza em uma melhora das contas públicas”, acredita.
A consultoria 4intelligence também atualizou projeções, com o IPCA elevado para 5,36% este ano e 5,31% em 2027, motivo que a levou a também reduzir a expectativa de queda da Selic para 13,50% este ano, nível mantido para 2027. O Bradesco, ainda sem atualizar cenário, previa IPCA de 5,0% este ano e Selic terminando o ano em 12,75%.
As previsões do mercado (%)
Indicador IPCA/26 IPCA/27 Selic/26 Selic/27
Focus 5,09 4,02 13,25 11,25
Itaú 5,40 4,50 13,75 12,50
4intelligence 5,36 5,31 13,50 13,50
Bradesco 5,00 3,70 12,75 10,50
Subsídios X gastos com juros
A Medida Provisória publicada no Diário Oficial da União (DOU) no fim de semana, que estendeu de 1º de junho até 31 de dezembro de 2026 a vigência dos subsídios ao diesel e à gasolina, lembra, com algumas diferenças, o pacote eleitoral de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, que cortou (sem negociação) impostos federais e o ICMS dos estados sobre combustíveis, energia elétrica residencial e comunicações, valendo de 1º de julho a 31 de dezembro de 2022.
Completava o pacote de bondades eleitorais (elevação de 100% no Auxílio Emergencial para R$ 600, mesadas de R$ 1 mil para caminhoneiros autônomos e taxistas e isenção de impostos na importação de jet ski), nitidamente voltada para a classe média alta, e buscava reduzir a inflação (a gasolina tem o maior peso no IPCA), tentada, sem sucesso, pelo Banco Central com o aumento da Selic.
O pano de fundo externo nos dois casos era idêntico: reflexos inflacionários de alta de petróleo e derivados (incluindo fertilizantes) causados por uma guerra (em fevereiro de 2022 a Rússia, maior produtora de gás e a segunda de petróleo do mundo, invadira a Ucrânia, situação que continua; agora, é a guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã, deflagrada em 28 de fevereiro de 2026. No plano interno, há um processo eleitoral.
Agora, segundo os dados do Banco Central, cada um ponto a mais na Selic custa R$ 64 bilhões ao fim de 12 meses. O aumento das previsões inflacionárias (que era de 3,80% para este ano) já está levando os agentes financeiros a reduzirem em mais de um ponto percentual a queda da Selic (que começou o ano em 15% e o mercado previa cair para 12,25%/12/00% em 2026) e elevarem para 13,25% a 13,75% o nível final deste ano.
Ou seja, mesmo tentando evitar, com subsídios, que a alta internacional do petróleo e derivados (amortecida pela produção própria da Petrobras) não apenas contamine o IPCA como a cadeia de preços. O que faria a Selic em vez de encurtar em 1,5 ponto percentual a baixa deste ano, a cortaria em mais de dois pontos percentuais (ou seja R$ 128 bilhões a mais de juros transferidos aos bancos e investidores em papéis do Tesouro Nacional.
O mercado reclama por deixar de ganhar bolada, mas reconhece (projeções indicam que o déficit público não cresce) que o governo Lula está usando os ganhos extras, com a taxação na exportação do petróleo valorizado, para bancar os subsídios. Tradução: sem ônus e com bilhões em economia para o Tesouro Nacional nos juros da dívida.