O OUTRO LADO DA MOEDA
Guerra favorece contas externas
Publicado em 26/05/2026 às 12:57
Alterado em 26/05/2026 às 12:57
Com a valorização de algumas “commodities”, à frente o petróleo, devido à guerra entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, (nesta terça-feira, ante o impasse nas negociações no Catar, o petróleo do tipo Brent para entrega em agosto voltou a subir mais de 4%, cotado a US$ 97,24, ainda acumulando queda de 9,27% em uma semana, mas alta de 53,37% em seis meses), o saldo da balança comercial brasileira cresceu forte até abril, superando os maiores gastos em serviços (viagens, propriedade intelectual e aluguel de equipamentos), além dos encargos de créditos externos e remessas de lucros e dividendos.
Em abril, segundo dados revelados hoje pelo Banco Central, o déficit em transações correntes (balança comercial + serviços e rendas de capitais) somou US$ 1,765 bilhão, contra US$ 1,6 bilhão no mesmo mês de 2025. No primeiro quadrimestre houve melhora: o déficit caiu de US$ 24,3 bilhões para US$ 22,0 bilhões.
Ao analisar o resultado, a consultoria 4intelligence considerou que “o quadro das contas externas continua robusto neste ano, apesar da deterioração em serviços e renda primária. O investimento direto no país permanece pouco acima de US$ 75 bilhões em 12 meses, a balança comercial segue firme e os ativos brasileiros continuam a atrair capital externo, principalmente na forma de dívida”.
O déficit em serviços aumentou nas duas bases de comparação. Em abril, passou de US$ 4,1 bilhões para US$ 5,0 bilhões (+23,3%), enquanto, no acumulado, avançou de US$ 16,5 milhões para US$ 17,1 bilhões (+4,0%).
As principais pressões vieram de viagens - o déficit saltou de US$ 875 milhões para US$ 1,5 bilhão em abril (+66,4%) e de US$ 3,0 bilhões para US$ 4,3 milhões no acumulado (+44,8%) - e telecomunicações e computação: em abril o déficit cresceu 26% para US$ 839 milhões.
Mas a inversão no fluxo de petróleo e derivados (cresceram as exportações e encolheram as importações) fez transportes mostrar redução de 23% no déficit acumulado: de US$ 5,0 bilhões (2025) para US$ 3,8 bilhões. O superávit em outros serviços de negócio também avançou, de US$ 599 milhões para US$ 732 milhões em abril (+22,2%). Serviços de Propriedade Intelectual saltaram de US$ 3,587 bilhões para US$ 4,063 bilhões (+US$ 476 milhões). Os gastos com transportes ficaram estáveis na base anual, apesar da alta dos fretes devido à guerra.
Remessas e amortizações
A renda primária registrou deterioração acentuada. O déficit mensal aumentou de US$ 5,0 milhões para US$ 6,8 bilhões (+35,5%), enquanto, no acumulado, subiu de US$ 23,8 bilhões para US$ 28,2 bilhões (+18,5%). A renda de investimento direto respondeu pela maior parte desse movimento, com o déficit passando de US$ 4.218 milhões para US$ 5.437 milhões em abril (+28,9%).
Os lucros reinvestidos no Brasil cresceram de US$ 2,5 bilhões para US$ 3,7 bilhões (+46,4%), o que sugere maior retenção de resultados pelas multinacionais e um estoque elevado de investimento direto no país (IDP). A renda de reservas permaneceu estável, com receitas de US$ 785 milhões em abril de 2026.
O IDP mostrou forte expansão. Em abril, os ingressos líquidos saltaram de US$ 5.371 milhões para US$ 8.912 milhões (+65,9%). No acumulado, a alta foi mais moderada, de US$ 28,4 bilhões para US$ 29,9 bilhões (+5,4%).
A participação no capital avançou de US$ 6,5 bilhões para US$ 6,8 milhões em abril (+5,4%), enquanto as operações intercompanhia passaram de déficit de US$ 1,1 bilhão para superávit de US$ 2,1 bilhões, o que sinaliza menor pressão de amortizações de empréstimos entre empresas relacionadas.
Previsões para maio e 2026
A consultoria está prevendo em maio déficit de US$ 6,6 bilhões em transações correntes, diante da continuidade das remessas elevadas de renda (US$ 8,3 bilhões), e de ingresso de US$ 7,8 bilhões em IDP. Também espera forte superávit comercial, de US$ 7,1 bilhões.
Para 2026 a previsão é de que o déficit em conta corrente caia a US$ 54,2 bilhões (a última previsão do Banco Central, em março, era de -US$ 58 bilhões). Ao contrário do BC, que previa saldo comercial de US$ 73 bilhões (a consultoria é mais modesta +US$ 67,9 bilhões), a conta de serviços diminuiria as despesas (-US$ 52,3 bilhões, contra -US$ 54 bilhões do BC). A maior divergência é na renda primária: o BC estima déficit de US$ 82 bilhões e a 4intelligence quase US$ 10 bilhões a menos: US$ 72,3 bilhões. A conferir.
