O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Juro alto não deixa o PIB crescer

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Publicado em 21/05/2026 às 16:43

Alterado em 21/05/2026 às 16:43

No dia 29 de maio, o IBGE divulga o resultado do PIB do 1º trimestre de 2026. A consultoria 4intelligence estima que o PIB total, a preços de mercado, mostre alta de 1,8% em relação ao mesmo trimestre de 2025, (21º resultado positivo seguido). Em termos dessazonalizados, haveria avanço de 1,0% na comparação com o último trimestre de 2025, o que significaria alguma retomada do crescimento após dois trimestres de virtual estabilidade.

Para a consultoria “a retomada de uma taxa de crescimento substancial do PIB no início do ano está relacionada principalmente a três fatores: estímulos governamentais, com destaque para a ampliação da faixa de isenção do IR e outra liberação excepcional do saldo do FGTS; continuidade do avanço da Agropecuária; e o favorecimento do mecanismo de ajuste sazonal aplicado pelo IBGE no PIB total”.

Decompondo o lado da oferta, a consultoria estima que a Agropecuária caia -0,3% em termos anuais e cresça +1,5% no trimestre. O segmento manteria a tendência de crescimento na comparação marginal, impulsionado pela soja (que deve ter outra safra recorde em 2026) e a pecuária.

Após fraco desempenho no final do ano passado, a Indústria deve retomar a trajetória de alta. (+1,7% sobre o primeiro trimestre de 2025 e +1,0% sobre o quarto), com avanço anual de 11,7% na Extrativa mineral (+2,7% no trimestre), com recordes na extração de petróleo e gás natural, e outros minérios. Na indústria de Transformação (estagnada em termos anuais, haveria crescimento trimestral de 0,7%) e a Construção, após cair 1,5% em termos anuais, avançaria 0,9% no trimestre). Por sinal, a consultoria nota que a produção de Insumos Típicos da Construção Civil (ITCC) continuou fraca, mas a ocupação e a massa de rendimentos dos trabalhadores melhoraram.

Serviços seguram o PIB

O setor de Serviços, que representa 67% do PIB, deve crescer 2,2% em bases anuais e 0,9% no trimestre, “com praticamente todos os segmentos registrando altas marginais, sempre considerando as séries ajustadas sazonalmente”.

Para a consultoria, “estímulos fiscais e a resiliência do mercado de trabalho favorecem segmentos como o Comércio (+1,5% no trimestre) Outros serviços (+0,7%). Na direção contrária, Transporte, armazenagem e correio deve cair1,3%no trimestre), na segunda queda trimestral, em parte já afetado pela explosão do preço do petróleo e aumento do valor dos combustíveis.

Consumo das famílias

Sob a ótica da demanda, espera avanços marginais relevantes no Consumo das Famílias (+1,7% anual e +0,9% trimestral) e na Formação Bruta de Capital Fixo (+0,8% e +5,4%, respectivamente). “Este último, apesar dos números contidos da construção civil e da produção de bens de capital, deve ganhar fôlego por conta da importação de uma grande plataforma de petróleo em fevereiro, que provavelmente deve ser a única neste ano” diz a consultoria.

Pelo lado externo, espera que Exportações cresçam 6,4% em 12 meses e caiam 2,3% no trimestre, enquanto as Importações teriam queda anual de 1,5%, mas avanço trimestral de 2,4%, pelos impactos do Golfo Pérsico.

PIB de 2026 pode crescer 2%

A consultoria observa que “se confirmada nossa estimativa para o 1º trimestre, o PIB total teria um carregamento em 2026 - isto é, a variação anual do PIB sob a hipótese de que a economia apresentasse variação dessazonalizada nula nos três outros trimestres deste ano - de +1,4%. Avaliamos que esse valor é compatível com nossa perspectiva para a evolução da atividade econômica neste ano, que contempla desaceleração das taxas de crescimento marginais nos próximos trimestres, de forma que o PIB encerre 2026 com crescimento próximo a 2%”.

Santander vê freio no juro real alto

Por sinal, o Banco Santander, ao analisar as perspectivas de crescimento do PIB, e assinalar que a taxa de A taxa de investimento do Brasil teve uma média de 17,8% do PIB entre 2011 e 2019, com uma mínima recente de 14,6% em 2017, e notar que, apesar da modesta recuperação nos últimos anos (16,8% do PIB em 2025), contra taxa média de investimento de 19% na América Latina, enquanto nos mercados emergentes ficou ligeiramente acima de 30% do PIB), conclui que um dos fatores que inibem o investimento privado é o alto nível dos juros reais (descontada a inflação).

Depois de citar dados da FGV, que mostram queda do investimento público líquido (de 0,67% do PIB em 2024 para 0,37% do PIB em 2025), o estudo do Departamento de Economia do banco espanhol no Brasil, chefiado pela ex-secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, assinala que “o investimento privado, por sua vez, permanece moderado e é a principal razão pela qual a recuperação não se tornou mais robusta. As taxas de juros reais persistentemente elevadas, ligadas a pressões fiscais e à poupança estruturalmente baixa, continuam a restringir um aumento mais forte na formação de capital e a atrasar as decisões corporativas de expansão da capacidade”.

E ainda observa que boa parte da melhoria nas taxas de formação bruta de capital fixa está ligada às importações de plataformas de petróleo pela Petrobras, que agora se beneficia pela alta do petróleo (o barril do Brent caía hoje 1,50% às 14:30 (horário de Brasília), cotado a US$ 103,43.

O ovo ou a galinha

A observação do Santander de Ana Paula Vescovi, que esteve do lado de dentro do balcão no governo Temer, amargando os altos custos da rolagem da dívida pública, (que tinha juros reais bem mais modestos que os atuais 10% – o Santander prevê que a inflação em 12 meses entra agora em maio na faixa superior a 4,50%), é pertinente por oferecer um contraponto realista da questão fiscal no país.

O ex-chefe da Secretaria de Política Econômica de Paulo Guedes (ministro da Economia de Jair Bolsonaro), Adolfo Sachsida, que foi o último ministro das Minas e Energia do governo anterior, quando Guedes e Sachsida tentaram derrubar a inflação eleitoralmente, cortando os impostos dos combustíveis, da energia elétrica residencial e nas comunicações, que está colaborando com Flávio Bolsonaro, apresentou esboço de diagnóstico da política fiscal que toca no crescimento do endividamento público sem considerar o próprio peso do juro real que realimenta o déficit e que – ao conter o consumo e o investimento (vale dizer, o PIB) - desequilibra ainda mais o peso da gangorra para os juros.

Enquanto os juros estiverem acima de 10% em termos reais (além de crescer a lista das empresas que pedem recuperação judicial e das famílias que batem às portas do Desenrola), quem se interessará por investir no país com a necessidade de taxas de retorno incompatíveis com projetos empresariais normais, se é possível ganhar 8% a 10% ao ano, em termos reais nas aplicações do mercado financeiro.

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