O OUTRO LADO DA MOEDA
Juros custam R$ 118,9 bilhões em março
Publicado em 30/04/2026 às 16:44
Alterado em 30/04/2026 às 16:47
As despesas liquidas com juros atingiram R$ 118,862 bilhões em março, só superadas pelos R$ 121,753 bilhões de dezembro de 2025, e foram agravadas pelas perdas de R$ 6,5 bilhões em “swaps cambiais”. No primeiro trimestre os juros somaram R$ 266,690 bilhões (8,28% do PIB), um forte aumento de 37,6% sobre igual período de 2025, quando representavam 6,41% do PIB. Os números da dívida pública bruta já atingiram 80,1% do PIB e o Bradesco prevê que fechem o ano em torno de 83% do PIB.
Os economistas do mercado financeiro agem como o velho personagem de Luís Fernando Veríssimo, o “Alves Cruz” que não via nada ao seu redor porque sua cabeça estava enterrada no solo. Quanto saem os números do desempenho consolidado do setor público brasileiro eles só focam no resultado primário (receitas menos despesas, sem considerar os juros). E tomem críticas à expansão dos gastos, quando os gastos que mais crescem no setor público são os dos juros. Em 12 meses os juros somaram R$ 1 trilhão 80,424 bilhões, um aumento de 15,5% no trimestre. Em março do ano passado os juros foram de R$ 75,2 bilhões e os gastos acumulados em 112 meses eram de R$ 935 bilhões (7,80%) do PIB.
Os números de março não foram bons, apesar do aumento de 7,5% da receita liquida (após transferências para estados e municípios), pois as despesas cresceram 49,2%. Entretanto boa parte do crescimento não se deve apenas ao incremento de gastos em ano eleitoral, mas da antecipação do pagamento dos precatórios e dívidas judiciais (R$ 74 bilhões) para o primeiro trimestre (movimento concentrado em julho de 2025).
O resultado primário do setor público consolidado foi deficitário em R$ 80,7 bilhões em março, ante superávit de R$ 3,6 bilhões no mesmo mês de 2025. O governo central, os governos regionais e as empresas estatais registraram déficits respectivos de R$ 74,8 bilhões, R$ 5,4 bilhões e R$0,5 bilhão. Em 12 meses, o setor público consolidado acumulou déficit de R$ 137,1 bilhões, equivalente a 1,06% do PIB, 0,65 p.p. do PIB superior ao déficit até fevereiro.
Para a consultoria 4intelligencee “o trimestre foi caracterizado por crescimento real da receita líquida (+4,2%). Nas aberturas, o destaque foi a Arrecadação Líquida para o RGPS (+6,1% sobre o mesmo período de 2025), o que mostra a força do mercado de trabalho em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Nas despesas (+18,3%), há o mesmo impacto citado anteriormente de diferente sazonalidade de precatórios em março, enquanto em Discricionárias (+59,3%) o crescimento está associado à rapidez de desembolsos em todos os meses desse ano até o momento, característica de anos eleitorais
A visão do Itaú
“As receitas seguem resilientes no 1º trimestre de 2026, enquanto as despesas continuam a acelerar, com pressão de despesas obrigatórias, maior execução de discricionárias e antecipação do pagamento de precatórios. Como resultado, o impulso fiscal tende a ficar mais forte no 2º trimestre, ao invés do 3º tri como esperávamos.
No mês, a surpresa negativa é em boa parte do déficit dos governos regionais. Ressaltamos ainda os impactos iniciais da reforma da renda, com custo associado à isenção de IR rodando em cerca de R$ 18 bi, no acumulado no ano e em termos anualizados, e compensações ainda abaixo de R$ 1 bilhão [nas altas fortunas].
“Para 2026, projetamos um déficit primário de 0,5% do PIB. Com a vinculação de receitas extraordinárias a potenciais cortes de impostos sobre combustíveis, o governo deve abrir mão de parte da melhora fiscal conjuntural proporcionada pelo choque externo e priorizar a mitigação do impacto doméstico da guerra no Oriente Médio”.
Bradesco: dívida pode ir a 83% do PIB
(...) A piora significativa do resultado primário em 12 meses é explicada pela concentração do pagamento de precatórios pelo governo federal em março, enquanto ano passado este pagamento foi concentrado em julho” (...). “O déficit nominal de março foi de R$ 199,5 bilhões, bem acima do mesmo mês de 2025 (R$ 71,6 bilhões). O resultado primário do setor público consolidado foi negativo em R$ 80,7 bilhões em março, ante saldo de R$ 3,6 bilhões em março de 2025”.
“Os juros nominais do setor público consolidado, apropriados por competência, somaram R$ 118,9 bilhões em março de 2026, comparativamente a R$ 75,2 bilhões em março de 2025. (...). Os resultados dos “swaps cambiais” contribuíram negativamente em março (negativo em R$ 6,5 bi), mas ainda contribuem favoravelmente para o resultado nominal acumulado em 12 meses, com 0,8% do PIB”.
“A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) subiu 0,9 ponto percentual e a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) subiu 1,3 p.p., alcançando respectivamente 80,1% e 66,8% do PIB. Os juros nominais apropriados responderam pela maior parte da alta (+0,9 p.p. na DBGG e na DLSP), além do déficit primário, que contribuiu com +0,6p.p. na DBGG. Mas o crescimento do PIB nominal contribuiu para reduzir em 0,5 p.p. a DBGG e em 0,4 p.p. a DLSP.”
Para o Bradesco, “O resultado de março foi impactado pela mudança da sazonalidade de pagamento de precatórios”. E (...) “a dinâmica de elevação da dívida pública seguirá ao longo de 2026, com o resultado nominal pressionado ao longo do ano. Projetamos que a DBGG aumente mais de 4 pontos percentuais e encerre o ano próximo de 83% do PIB”.