O OUTRO LADO DA MOEDA
Combustíveis e alimentos levam IPCA a 0,88% em março
Publicado em 10/04/2026 às 18:15
Alterado em 10/04/2026 às 18:25
Refinaria Acelen, instalada na Bahia pelos Emirados Árabes Unidos: a vilã da inflação no Brasil Foto: divulgação
Nos Estados Unidos, a alta média de 12,5% nos preços da energia (a gasolina subiu de 20% a 30%), contra alta de apenas 0,5% em fevereiro, fez a inflação medida pelo IPC disparar a 3,3% na comparação com março de 2025 (contra 2,4% na métrica de fevereiro). Mas lá, apesar dos reflexos da guerra de Israel-EUA contra o Irã, os preços dos alimentos ficaram praticamente estáveis. Aqui no Brasil, o IBGE divulgou o IPCA de março, que subiu 0,88%, acima dos 0,70% de fevereiro (influenciado pela educação), além do previsto pelo mercado.
Os combustíveis tiveram alta média de 4,47%, liderada pelo impacto do aumento de 4,59% no mês. Como a gasolina é o item de maior peso entre os 377 itens pesquisados pelo IBGE, ela respondeu por 0,23 ponto de percentagem no IPCA. O diesel subiu 13,70%, mas pesa menos no IPCA. O Item Transportes teve alta de 1,64% e respondeu por 0,34 p.p. no IPCA. Entretanto, a especulação com o preço do diesel teve impacto no transporte de mercadorias “in natura”, e fez os preços dos Alimentos e Bebidas acelerarem de 0,26% em fevereiro para 1,56% em março, pesando 0,33% no IPCA. Juntos, Transportes e Alimentos e bebidas responderam por 67 p.p. ou por 76% do IPCA de 0,88%.
O caso da Acelen e de Salvador
O dado mais extravagante das informações do IBGE está na inflação fora da curva na cidade de Salvador, que chegou a 1,47%, quase o dobro dos 0,78% do Rio de Janeiro e de São Paulo. A média nacional foi de 0,88%. A capital baiana tem peso de 5,99% na composição final do IPCA, apurado em 16 capitais e regiões metropolitanas. O maior peso é da região metropolitana de São Paulo (32,28%). Belo Horizonte pesa 9,69% no índice, e o Rio de Janeiro, 9,43%).
A capital baiana foi a menos protegida pelo pacote do governo para segurar os preços do diesel e enfrentou mais duramente os efeitos da guerra. A alta extraordinária nas bombas em Salvador, que se irradiou para o transporte dos alimentos e demais mercadorias, tem a ver com a posição singular da Acelen, a ex-refinaria Landulpho Alves, da Petrobras, privatizada pelo governo Bolsonaro para o fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos.
Enquanto a gasolina subia 4,20% no Rio de Janeiro e 4,40% em São Paulo e 4,59% na média nacional, a Acelen, situada no Recôncovo baiano, junto à capital, importa petróleo a preços de mercado, e reajustou a gasolina pesadamente. Em Salvador, a pesquisa do IBGE encontrou alta de 17,37% na gasolina nos postos. No diesel, a alta foi de 28,83%, com forte repasse aos preços dos alimentos e bebidas. Imagina se a Petrobras tivesse privatizado 50% de suas refinarias e os preços dos combustíveis domésticos acompanhassem os reajustes do PPI aposentado em maio de 2023?
O efeito da privatização da Acelen (%)

A análise do Bradesco
O IPCA avançou 0,88% em março, superando o consenso de mercado e do Bradesco. Em 12 meses, a inflação passou de 3,8% para 4,1%. “A surpresa em relação à nossa estimativa foi relativamente disseminada entre os diferentes grupos. Os preços dos bens industriais subiram mais do que o esperado, com altas mais expressivas em higiene pessoal e bens duráveis. Na variação trimestral anualizada, esse segmento passou de 1,5%, no final de 2025, para 4,2%. Em 12 meses, o grupo subiu 2,4%.
A inflação de serviços também acelerou, com a alimentação fora de casa revertendo a tendência recente de enfraquecimento. Excluindo passagem aérea e educação, os serviços ficaram praticamente estáveis em relação a fevereiro, registrando 4,2% na variação trimestral anualizada (5,35% em 12 meses). Como esperado, os alimentos consumidos no domicílio aceleraram, impulsionados pelos itens “in natura”; nesse grupo, a taxa em 12 meses subiu de -0,1% em fevereiro para 0,5% em março.
O núcleo por médias aparadas com suavização também mostrou aceleração: 4,6% em três meses anualizado ante 4,2% no mês anterior. Em 12 meses, o núcleo atingiu alta de 4,50%.
Para o Bradesco, “a surpresa generalizada no índice, combinada ao cenário de preços do petróleo pressionados, indica um período de alta da inflação. Mesmo com alguma moderação no preço do petróleo ao longo dos próximos meses, a inflação acumulada em 12 meses deve seguir tendência altista até o final do ano”.
O banco não arriscou o que virá na reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central dia 29. Muito depende das conversas de paz, amanhã, no Paquistão. O mercado, por enquanto, aposta numa queda de apenas 0,25% na Selic, para 14,50% (muito pouco para influenciar na baixa de juros aos endividados. Mas hoje o petróleo do tipo Brent para entrega em junho estava cotado a US$ 97, com alta de 1,16% e o dólar era negociado a RS$ 5,0280, com baixa de 0,58%. Esta é a menor cotação desde o início de fevereiro de 2024.