O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

EUA saem da guerra; petróleo despenca

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Publicado em 01/04/2026 às 14:44

Alterado em 01/04/2026 às 14:51

Donald Trump Foto: Reuters/Evelyn Hockstein

O presidente Donald Trump fará um pronunciamento na noite desta quarta-feira (1º). Possivelmente vai cantar vitória e anunciar a retirada dos Estados Unidos da guerra no Golfo Persico. Ele disse, pela manhã, que o Irã propôs um cessar fogo (Teerã não confirmou). Mas já deixou claro que, como os EUA são autossuficientes em petróleo e combustíveis, a reabertura do Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, é problema dos países que dependem do petróleo, gás e fertilizantes que escoam pelo Golfo. Eles que se entendam, a começar pela China, que importa petróleo e gás do Irã, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

Foi o que bastou para uma queda geral nos vencimentos dos contratos futuros de petróleo do tipo Brent até março de 2033. Às 11h40 (horário de Brasília) o contrato do petróleo para entrega em junho era negociado a US$ 101,40, por barril, com baixa de 2,50%. O contrato de dezembro caía 1,91, cotado a US$ 77,71. Antes dos novos passos dos EUA, a continuidade do fechamento do Estreito de Ormuz e dos ataques contra instalações petrolíferas no Oriente Médio tinha mantido os preços do petróleo sob pressão ao longo da semana. E o mercado financeiro brasileiro chegou a prever, segundo o jornal “Valor Econômico”, que o patamar de US$ 120 por barril continuaria por muito tempo.

Mercado aposta na inflação
Não é só a política que se comporta como nuvens. Na economia é a mesma coisa. Os cenários mudam conforme os ventos mudam a direção da biruta. A questão é que o mercado financeiro faz uma aposta preferencial pela inflação. E o noticiário econômico valoriza mais os movimentos altistas do que os baixistas. Trata-se de um velho vício do modelo de indexação que o país introduziu em meados de 1965, quando foi criada a correção monetária das ORTNs. Como a correção monetária reflete (total ou quase totalmente) a inflação passada, quem aposta na inflação em momentos críticos geralmente ganha muito dinheiro no mercado financeiro.

Em 1973, houve o primeiro choque do petróleo e o ministro da Fazenda, Antônio Delfim Neto, do governo Médici, segurou os preços (a inflação oficial foi de 13,4% e a real, segundo a FGV, que calculava os índices, foi o dobro). Quem estava carregado de papéis com correção monetária pós-fixada ganhou fortunas. No sentido inverso, toda a vez que o novo ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen (no governo Geisel 1974-79) tentava expurgar altas extemporâneas como a do chuchu (prática comum nos mercados americanos e europeus, onde não há indexação) houve uma grita dos economistas do mercado. Confesso que como jovem jornalista entrei na onda.

Agora, a orquestração parece bem maior por dois motivos: Primeiro, vivemos a predominância absoluta dos contratos futuros. Os volumes negociados de moedas, ações, “commodities”, criptomoedas e títulos excedem em muito os negócios à vista. Quando os cenários mudam, há um movimento de manada (sempre criticado que ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan) que amplifica tanto as altas quanto as baixas (com o agravante da falta de liquidez e interrupção dos circuitos nas negociações eletrônicas).

O fator eleitoral
Mas há um fator extra neste ano eleitoral de 2026: os segmentos do agronegócio, dos caminhoneiros e dos importadores de combustíveis e fertilizantes, fazem coro à Faria Lima na torcida pela inflação e pelo “quanto pior melhor” para seus interesses eleitorais que são contrários à reeleição do presidente Lula. O noticiário e as análises econômicas dão mais peso aos picos de negociação do diesel (especulado nas bombas ou no mercado importador, embora não representem mais de 25% do mercado nacional) do que à garantia de suprimento a preço contido pela Petrobras. Isso se repete nos fertilizantes, ainda que o plantio da nova safra só ocorra a partir de agosto (até lá, o cenário da guerra já terá mudado bastante).

A análise da 4intelligence
“Os contratos futuros continuam precificando um recuo consistente no preço do petróleo ao longo do ano; e nos EUA as expectativas de inflação de longo prazo continuam bem ancoradas. A ancoragem de expectativas tem sido apontada pelo presidente do FED, Jerome Powell, como um indicativo de que o risco de longo de prazo para a inflação continua limitado. Nesse contexto, Powell tem atribuído probabilidade também limitada a um cenário em que o FED precisaria reverter parte da flexibilização monetária que realizou recentemente”.

“No Brasil, o Relatório de Política Monetária (RPM) de março reforçou a percepção de que o choque do petróleo tornou o ambiente para a condução da política monetária ainda mais incerto. Mas o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, apontou que a política monetária restritiva e o atual estágio do ciclo econômico contribuem para que o Brasil absorva os impactos do choque. Também foi ressaltado que a condição do Brasil de exportador líquido de petróleo e a robustez do balanço de pagamentos funcionam, em alguma medida, como amortecedores relevantes.”

“Num contexto em que o mercado de trabalho segue aquecido e a desinflação ainda se mostra incompleta, em nossa avaliação o conteúdo do RPM sugere, ainda que de forma indireta, a necessidade de uma postura cautelosa por parte do Copom. A dimensão dos próximos movimentos de flexibilização (isto é, cortes de 25 pontos-base ou 50 pontos-base) deverá continuar fortemente condicionada à evolução da inflação corrente, das expectativas e do grau de transmissão do choque de commodities para os demais preços da economia. Cumpre, assim, alertar que aumentaram as chances de uma redução mais lenta e talvez menor de juros no atual ciclo de flexibilização”

O Bradesco e a dívida pública
Ao analisar o déficit primário de R$ 16,4 bilhões do setor público consolidado, em fevereiro, “melhor que a expectativa de mercado de -R$ 21,9 bilhões, (...) o Bradesco destacou “a surpresa positiva em relação à expectativa foi concentrada no resultado dos governos regionais (superávit de R$ 10,7 bilhões nos estados e de R$ 2,9 bilhões nos municípios) contra resultado negativo das estatais (-R$ 0,6 bilhão levando o déficit acumulado em 12 meses das estatais das três esferas para R$ 10,6 bilhões”.

O banco destacou no déficit nominal de fevereiro (R$ 100,6 bilhões) que “o pagamento de juros de R$ 84,2 bilhões no mês e R$ 147,9 bilhões no primeiro bimestre “é a principal fonte de pressão sobre a dívida pública”. Lembrou que “os resultados dos “swaps” cambiais foram novamente positivos e continuam contribuindo favoravelmente para o resultado nominal. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) e a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) subiram 0,5 ponto percentual, alcançando respectivamente 79,2% e 65,5% do PIB. Os juros nominais apropriados responderam pela maior parte da alta (+0,7 p.p.), enquanto o crescimento do PIB nominal contribuiu para reduzir os indicadores (-0,2 p.p. na DBGG e -0,3 p.p. na DLSP). O Bradesco projeta que a DBGG aumente cerca de cinco pontos percentuais neste ano e encerre acima de 83% do PIB”.

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