O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Focus sobe inflação e Selic; Itaú prevê 4,50% e 13%

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Publicado em 30/03/2026 às 11:50

Alterado em 30/03/2026 às 11:57

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Com os preços do petróleo em alta (no mercado futuro, o contrato do óleo Brent para entrega em junho era negociado hoje a US$ 107,90, +2,92% e os vencimentos seguem em alta até maio de 2027), o mercado financeiro elevou a previsão do IPCA e dos juros para 2026. Na Pesquisa Focus, a mediana da inflação subiu de 4,175 para 4,31% e a mediana dos últimos cinco dias úteis chega a 4,47%. O Itaú, que atualizou o cenário de março, reviu o IPCA de 3,8% para 4,5%.

Com tamanha escalada da inflação, o mercado já tinha revisado, desde a semana passada a meta terminal da Selic em 2026 para 12,50%. Pois o Itaú, que esperava 12,25% em fevereiro (antes da guerra no golfo), agora prevê Selic de 13% este ano, mas com a elevação do IPCA de 2027, de 3,9% para 4,1%, o banco também elevou a previsão da Selic de 2027, de 11,25% para 12%.

Inflação sobe no curto prazo
Ao abordar o ciclo de flexibilização gradual e de calibração iniciado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em março, para buscar “reduzir o grau de restrição monetária”, o Itaú explica que, “diante do choque do petróleo e da piora do cenário inflacionário”, o Itaú revisou também, como o mercado, a taxa Selic para 29 de abril, esperando baixa de apenas 0,25%, para 14,50%. Antes da guerra, o mercado esperava duas quedas de 0,50%, para 14,00%. Cada ponto a mais na Selic custa R$ 63 bilhões ao Tesouro.

O esforço do Ministério da Fazenda para evitar uma escalada no preço do óleo diesel visa evitar gastos extras no custo da dívida interna. Mas o cenário doméstico piorou muito na visão do mercado na Focus: o IPCA de março subiu de 0,37% para a mediana de 0,46%, mas a mediana das respostas dos últimos cinco dias úteis chega a 0,69%. O IBGE divulga o número em 10 de abril. Para abril, as expectativas do IPCA subiram de 0,43% para 0,46% e 0,52% nos últimos cinco dias. Para maio, variou de 0,30% para 0,31% e 0,33% na mediana dos últimos cinco dias úteis.

Câmbio e contas externas
O Itaú manteve as projeções para a taxa de câmbio em R$/US$ 5,40 em 2026 e R$/US$ 5,60 em 2027. Segundo o banco “o cenário externo tornou-se mais incerto diante do conflito no Oriente Médio, mas o real tem se mostrado resiliente, apoiado pela melhora nos termos de troca e pelo diferencial de juros elevado”. Nesta segunda-feira, o dólar era cotado a R$ 5,2350, por volta das 11 horas (horário de Brasília), com ligeira baixa de 0,05%.

Depois de o Relatório de Política Monetária do Banco Central revisar a projeção do déficit em conta corrente de US$ 60 para US$ 58 bilhões, com a elevação do saldo comercial de US$ 64 bilhões para US$ 73 bilhões, o Itaú também reduziu as projeções do déficit em conta corrente, para US$ 66 bilhões (de US$ 70 bilhões) em 2026, incorporando a perspectiva de um saldo comercial mais elevado neste ano (US$ 80 bilhões, de US$ 74 bilhões).

PIB e desemprego
“Mantivemos nossas projeções de crescimento do PIB de 1,9% em 2026 e 1,7% em 2027. Para 2026, a ligeira revisão negativa que estamos fazendo na projeção de PIB mundial e a perspectiva de maior contração monetária serão compensadas pelo efeito positivo da elevação do preço do petróleo e incorporação de um cenário mais positivo para o crédito habitacional. Cabe notar, contudo, que o viés de alta que havia para 2026 diminuiu diante de uma eventual desaceleração global mais intensa resultante do conflito”.

“No mercado de trabalho, também preservamos nossas estimativas para a taxa de desemprego em 5,7% em 2026 e 6,0% em 2027”, assinala o cenário.

Contas fiscais
“Revisamos nossas projeções de resultado primário para -0,5% do PIB (de -0,8%) em 2026 e para -0,6% (de - 0,9%) em 2027”.

“Além do efeito positivo de 0,4p.p. do PIB na arrecadação vinculada ao petróleo, assumimos que o governo irá utilizar cerca de 0,2p.p. do espaço fiscal criado em novas iniciativas para mitigar, pelo menos no curto prazo, a alta recente dos preços de preços de combustíveis, ainda sem desenho definido”, justifica o Itaú.

Juros asfixiam as famílias
No mais, o Banco Central divulgou as estatísticas do crédito em fevereiro com cenário aterrador. O custo dos recursos livres para as famílias subiu 5,4% em 12 meses, chegando a 60,1% ao ano (ou seja, quatro vezes a Selic, que estava em 15% ao ano). Com juros tão altos (e comprometimento de 29,3% da renda em janeiro) a inadimplência das pessoas físicas atingiu o recorde de 6,9%, em fevereiro, nos recursos livres, com aumento de 1,3 pontos em 12 meses.

Para as pessoas jurídicas o custo médio dos recursos livres era de 24,9% em fevereiro, com aumento de 1,1 ponto em 12 meses e a inadimplência alcançou 3,3%, com aumento de 0,4 ponto em 12 meses.

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