O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Focus aponta + inflação e juros

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Publicado em 23/03/2026 às 17:17

Alterado em 23/03/2026 às 17:21

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As idas e vindas do governo Trump no tarifaço, que se repetem quanto a novos ataques à infraestrutura energética do Irã, adiadas por alguns dias, deram um alívio nas cotações futuras do barril do petróleo Brent, que caiu mais de 11% nos contratos para entrega em maio (US$ 94,18, com queda de 11,22%) por volta das 12:20 (horário de Brasília) e animou os mercados financeiros, com forte alta nos índices acionários e queda de mais de 0,50% do dólar ante as principais moedas. O real liderou as valorizações, com o dólar cotado a R$ 5,22 (no mesmo horário), com queda de 1,74% e após abrir a R$ 5,3154.

Um dos motivos das hesitações de Trump se prende, à pressão das grandes companhias petrolíferas. Há versões maldosas no mercado, à luz das especulações já feitas por pessoas ligadas ao presidente americano ao longo dos recuos na imposição das tarifas, de que o “timing” das pausas facilita as ações especulativas dos amigos de Donald Trump, que, por sinal, costuma comemorar os “ganhos” dos tarifaços (a suspensão da Suprema Corte pode custar US$ 135 bilhões de impostos a serem devolvidos aos importadores).

Mas o “Wall Street Journal”, assinala outra causa: “os ataques com mísseis iranianos estão custando bilhões em receita perdida às grandes petrolíferas”. O “WSJ” lembra que “a infrestrutura energética danificada pode levar anos para volta a funcionar, mas as altas nos preços do petróleo e dos gás estão ajudando a compensar parte da perda da produção, por enquanto". Acontece que, nas máquinas de calcular das petrolíferas há clara preferência pela contenção de danos. Por isso, a parada temporáaria dos ataques americanos para avaliação de dados (no Catar, Kuwait, Emirados Àrabes Unidos e Arábia Saudita, além do próprio Irã) trouxe alívio aos mercados.

A torcida pela inflação
O ritmo frenético dos impactos da guerra nas cotações dos mercados (o Brent para entrega em junho caiu 10,81% para US$ 95,60 e o de dezembro para US$ 80 -5,80%) deixa as previsões rapidamente desatualizadas. É o caso da última pesquisa Focus, encerrada na sexta-feira e divulgada hoje pelo Banco Central. No embalo do noticiário da semana passada, reviu, para cima, os números da inflação deste ano e as projeções dos juros da Selic até 2027.

O mercado financeiro parece torcer pela escalada da inflação. Isto não apenas freia o cronograma do Comitê de Política Monetária do Banco Central para a baixa da Selic (antes da guerra, as apostas eram de que a taxa que estava em 15% ao ano, cairia a 14,50% em 18 de março – caiu só 0,25% - e mais 0,50% em 29 de abril e fecharia o ano entre 12,00 e 12,25%). A alta da inflação freia a redução dos juros em todo o mundo. Mas no Brasil, com a existência da indexação dos contratos (inclusive de títulos) à inflação passada, uma escalada de juros trás mais lucros para os rentistas e os especuladores financeiros.

Quem carrega carteiras de títulos indexados ganha muito quando a inflação escala. Foi assim nos anos de 1973 a 1975 (a partir do primeiro choque do petróleo e quando o então ministro da Fazenda, Delfim Neto, segurava e maquiava os índices de inflação, calculados pela FGV). A qualquer expurgo nos índices de preços havia uma grita dos economistas do mercado.

Mas eles silenciaram quando Paulo Guedes fez a maior intervenção nos preços cortando os impostos federais e estaduais (ICMS) dos combustíveis, energia elétrica residencial e comunicações, de 1º de julho a 31 de dezembro de 2022. Agora, quando o governo Lula faz um esforço para evitar a contaminação maior da inflação importada pela guerra no Golfo (e o Tesouro Nacional fez uma recompra recorde de mais de R$ 40 bilhões em títulos pós-fixados, na semana passada), houve manifestações daqueles que se calaram em 2022. Cada ponto a mais na Selic custa R$ 63 bilhões ao Tesouro ao fim de 12 meses. No sentido inverso, um ponto de baixa economiza R$ 63 bilhões.

Pela Focus, a inflação prevista para 2026, há quatro semanas, antes da guerra, era de 3,91%. Subiu de 4,10% da semana anterior para 4,17%, na semana passada, e a mediana das respostas dos últimos cinco dias úteis chegou a 4,21%. A projeção de março aumentou no mesmo período de 0,33% para 0,37% e 0,45% nos últimos cinco dias; para abril, o salto foi de 0,39% para 0,41%, 0,43% e 0,46% nos últimos cinco dias úteis.

Em consequência, a projeção da Selic de abril que era de 14,00% subiu para 14,25%, mas a mediana dos últimos cinco dias úteis, quando o Brent estava acima de US$ 110 por barril, foi elevada para 14,50%, com nova baixa cautelosa de 0,25%. A Selic de dezembro de 2026 foi elevada para 12,50% (o que custaria mais US$ 31,5 bilhões ao Tesouro), mas os reflexos se estendem a 2027, quando a taxa terminal da Selic se elevou de 10,50% (na mediana do mercado) para 10,75% na mediana das previsões dos últimos cinco dias úteis.

Mais um ataque ao Pix no SBP
Alvo de um ataque “hacker” que desviou R$ 100 milhões, na manhã de domingo, por meio de uma falha relacionada com as operações via Pix, do Sistema Brasileiro de Pagamentos (SBP) o ?BTG-Pactual ?comunicou, nesta segunda-feira, o restabelecimento das operações via Pix. O banco suspendeu o serviço ontem, depois de identificadas falhas no sistema. Segundo nota do BTG, “a paralisação ocorreu após o Banco Central identificar atividades atípicas que acionaram os sistemas de segurança na manhã ?do domingo”.

Trata-se de um dos maiores ataques de hackers ao Sistema Financeiro Nacional. O BTG-Pactual informou que nenhuma conta de cliente foi acessada, mas não revelou o montante já recuperado – fala-se que ainda faltam R$ 40 milhões. As informações disponíveis apontam que a falha teria ocorrido nos sistemas do BTG. O Banco Central identificou o vazamento às 6 horas de domingo, mas o BTG ainda demorou um tempo para suspender o sistema.

É interessante observar que o site do Banco Central não costuma revelar vulnerabilidades nos sistemas das grandes instituições financeiras. Foi assim com o Nu(bank) no ano passado e agora não há qualquer informação sobre o caso do BTG-Pactual.

Na sexta-feira, 20, o Banco Central informou, às 18 horas, “a ocorrência de incidente de segurança com dados pessoais vinculados a chaves Pix sob a guarda e a responsabilidade da Pefisa S.A. - Crédito, Financiamento e Investimento, em razão de falhas pontuais em sistemas dessa instituição”. E acrescenta ”não terem sido expostos dados sensíveis, tais como senhas, informações de movimentações ou saldos financeiros em contas transacionais, ou quaisquer outras informações sob sigilo bancário. As informações obtidas são de natureza cadastral, que não permitem movimentação de recursos, nem acesso às contas ou a outras informações financeiras”, diz a nota do BC.

O caso do BTG-Pactual foi o terceiro ataque estrutural registrado em março de 2026. Além da Pefisa, o Ministério Público de Goiás também foi alvo de ataques. Em janeiro, o Banco do Nordeste havia suspendido serviços por motivos semelhantes. Mas no caso da Pefisa chama a atenção o fato de que as irregularidades se iniciaram em 30 de agosto de 2025 e duraram até 27 de fevereiro de 2026, mas só foram tornadas públicas em 20 de março deste ano.

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