O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Normalidade em óleo e gás pode superar 6 meses

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Publicado em 20/03/2026 às 16:14

Alterado em 20/03/2026 às 16:14

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Ao descer do pico de US$ 119,13, quinta-feira, para a faixa de US$ 107, o contrato do barril de petróleo do tipo Brent para entrega em maio, trouxe aparente alívio, com o anúncio do reforço de envio de tropas e navios americanos ao Golfo Pérsico, para desobstruir a navegação pelo Estreito de Ormuz. Mas o alívio durou pouco. O Brent chegou a ser negociado às 12 horas de hoje (horário de Brasília) a US$ 110, com alta diária de 1,30%, de 6,57% na semana, uma escalada de 54% no mês e de 81,8% em três meses, mas recuou a US$ 109. Para setembro, valia US$ 91 e US$ 85 em dezembro.

Uma manchete do britânico “Financial Times”, que ontem já classificara a situação como “apocalíptica”, situou mais dramaticamente a situação na avaliação da Agência Internacional de Energia (AIE). Para o chefe da AIE, Fatih Birol, “a guerra no Irã é a maior ameaça à energia global “da história’, e alerta que a recuperação dos campos de petróleo e gás na região do Golfo (sobretudo o campo de South Pars, o maior campo de gás do mundo, dividido entre Irã e Catar) “pode levar mais de seis meses”. E as notícias do “front da guerra repetiam a escalada: “Israel ataca Teerã enquanto o Irã lança mais ataques contra países do Golfo”.

Um período de crise prolongada no abastecimento mundial de petróleo e gás não estaca nos cálculos do governo Trump, que esperava uma campanha de cerca de um mês. Neste sábado, os ataques de Israel-Estados Unidos a Teerã, que dizimaram a cúpula do regime, a começar pelo líder supremo, o Aiatolá Khameney, entram na terceira semana e o conflito só escala.

A possibilidade de um petróleo próximo de US$ 100 por período prolongado assustou os mercados financeiros em todo o mundo, ante a natural reação dos bancos centrais de suspender os planos de baixa de juros diante da pressão inflacionária. Com os juros mais altos nos EUA (as apostas eram duas quedas de 0,25% do atual patamar de 3,50%-3,75% ao ano e agora há quem tema até aumento dos “fed funds”, o dólar subiu em todo o mundo).

Mudança de cenário
A mudança de cenário assustou os agentes econômicos. O euro caía hoje 0,37% perante o dólar por volta das 12:330, mas ainda acumulava alta de 1,14% na semana. Com feriado no Japão, o iene via o dólar avançar 0,82% no dia, mas ainda acusar queda de 0,41% na semana contra a moeda japonesa.

Já o real, pressionado por ações especulativas sobre o preço do diesel (o governo afastou a greve dos caminhoneiros mantendo a tabela de fretes), via o dólar subir 1,15%, sendo cotado a R$ 5,28 às 12:40, mas acusando perda semanal de 0,75% para a moeda brasileira.

O diesel, o todo e a parte
Um pouco de racionalidade evitaria o histerismo no mercado de combustíveis e conclusões apressadas no mercado financeiro (as ações das petrolíferas despencaram hoje). O Brasil é autossuficiente em petróleo e exporta muito. O ganho extra vai ter uma tributação de 12%, o que não tira a rentabilidade. No caso do diesel e do GLP, a Petrobras atende cerca de 75% da demanda do mercado a preços mais contidos. Não se pode tomar o extremo das cotações da fatia importada como o preço médio do mercado.

Há condições, a curto e médio prazo da Petrobras garantir o abastecimento do mercado doméstico. A longo prazo, é intensificar a produção de diesel nas diversas refinarias e o GLP. Os preços nas alturas viabilizam os investimentos em curso, como nas refinarias de São Paulo, incluindo a de Paulínia, a maior do país, na Reduc (RJ), na Gabriel Passos (MG), nas duas do Sul e na de Abreu e Lima (PE).

Ruim estaria o país se o plano do governo Bolsonaro tivesse dado certo: vender 50% do parque de refino (a Petrobras ficaria apenas com as refinarias de São Paulo e Rio de Janeiro). Numa crise como essa, e com o PPI, os preços estariam nas alturas, com uma inflação estúpida e sem garantia no abastecimento, com preços dispares e brigas nos postos pelo país afora. Chego a achar ridículas as manifestações de órgãos de classe de entidades de petróleo e combustíveis que pedem previsibilidade da Petrobras quanto ao horizonte dos preços. Ela está fazendo o que pode, com competência. Antes de criticar, deveriam fazer a "mea culpa" de terem defendido a privatização de 50% das atividades de refino da estatal.

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