O OUTRO LADO DA MOEDA
Faria Lima torce pela inflação e juro alto
Publicado em 10/03/2026 às 21:07
Alterado em 10/03/2026 às 21:14
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem razão: a turma da Faria Lima torce sempre pelo pior cenário Agência Brasil
Com o escoamento do fluxo marítimo do petróleo do Oriente Médio engarrafado, devido ao fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã – e pela recusa das seguradoras de oferecer cobertura aos armadores que insistirem em navegar pelo Mar Vermelho, por onde escoam de 20% a 25% do óleo e do GNL do mundo, - os grandes produtores árabes (Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Iraque) e o próprio Irã, todos super estocados, não tiveram outra saída a não ser cortar a produção.
Mas há mais especulação no mercado que avaliação precisa sobre a duração do conflito entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, e suas consequências. O cenário de curto prazo é incerto. E é precipitado apostar numa inflação duradoura e na interrupção da baixa dos juros, sobretudo no Brasil, no próximo dia 18 de março.
A consultoria 4Intelligence divulgou há pouco seu último cenário:
“A escalada do conflito no Oriente Médio levou a um repique nos preços do petróleo associado ao risco - ainda elevado - de que as tensões na região se prolonguem, sobretudo após a sucessão no comando iraniano reforçar a ala mais dura do regime.
“Apesar de Trump sinalizar preferência por uma intervenção curta, o cenário permanece altamente incerto. E, mesmo que se revele transitório, o choque de oferta já gera pressão inflacionária global.
“Se o conflito se estender, a pressão de custos de combustíveis tornará o recuo da inflação nos EUA ainda mais lento, num momento em que o mercado de trabalho esfria, agravando as dificuldades do FED para cumprir seu mandato de zelar pelo controle da inflação e pela preservação do emprego.
“A Europa tende a ser mais prejudicada pelo conflito, por depender mais da energia advinda da região conflagrada. Já a China deve absorver melhor o choque, graças ao nível elevado de reservas estratégicas e à capacidade de ampliar compras de petróleo de países sancionados, como a Rússia.
“Diante de tamanha incerteza, por ora mantemos nossas projeções para as principais economias inalteradas, mas com claro viés de alta para inflação e viés de baixa para crescimento.
Redução de impostos nos combustíveis?
“No Brasil, os impactos diretos da disparada do petróleo tendem a ser mais moderados, em parte devido ao controle da Petrobras sobre os preços domésticos de combustíveis”. [foi o que fizeram Paulo Guedes e Bolsonaro em 2022; a consultoria ignora que a Petrobras extrai 70% do petróleo consumido em suas refinarias do pré-sal, a um custo inferior a US$ 21 por barril. Ou seja, a Petrobras tem fôlego para evitar repasse dos preços internacionais para o mercado doméstico e ainda conta com a baixa do dólar, para não fazer o jogo inflacionário dos especuladores. O risco é dos importadores de combustíveis].
“Ainda assim, dada a defasagem já alta entre os preços domésticos e internacionais”, a consultoria admite que “se estes seguirem pressionados por mais algumas semanas algum repasse aos preços domésticos se tornará provável. A redução da tributação dos combustíveis poderia suavizar o impacto sobre o consumidor final”.
“Do ponto de vista da atividade, o choque gerado pelo conflito no Oriente Médio pode trazer efeito líquido moderadamente positivo, via indústria extrativa e setores ligados a combustíveis alternativos. Por outro lado, o agronegócio pode sofrer com custos maiores, especialmente de fertilizantes” [é uma leitura apressada, pois depende da duração do conflito, sobretudo porque a safra está sendo colhida e a de 2026-27 só será trabalhada a partir de agosto. Há tempo para reverter o cenário].
A consultoria afirma que “o ambiente reforça a necessidade de cautela por parte do Banco Central. Embora o corte de 50 pontos-base permaneça como cenário mais provável para o Copom de 18 de março, a probabilidade de uma redução menor - de 25 pontos - voltou a aumentar”.
“A resiliência do mercado de trabalho, a pressão sobre serviços e o risco de secundarização do choque energético justificariam um ritmo potencialmente mais lento de flexibilização monetária”.
Razão tem o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que deixa o cargo na semana que vem, para concorrer ao governo de São Paulo. A turma da Faria Lima torce sempre pelo pior cenário ou pela incerteza para manter os juros altos que asfixiam a economia. Estão esperando mais GPAs pedirem recuperação judicial?