O OUTRO LADO DA MOEDA
Mercado torce por inflação e juros altos
Publicado em 09/03/2026 às 15:04
Alterado em 09/03/2026 às 18:07
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Mesmo quando parece bonzinho e confiável, não se iluda: o mercado financeiro padece da “síndrome do escorpião” e não perde uma oportunidade para especular e tirar proveito do pior cenário. A guerra que cada vez sobe um degrau entre Israel-Estados Unidos contra o Irã, que, depois de anunciar o filho do falecido Aiatolá Ali Khamenei, Mojtaba Khamenei, como o novo líder espiritual, se defende atacando mais países árabes com bases militares dos EUA, fez o barril do petróleo do tipo Brent para entrega em maio ser negociado acima de US$ 100.
Tanto bastou para correr nos mercados europeus, com reflexos no Brasil, o temor de que diante da inflação os juros seriam mantidos altos ou elevados. Antes da guerra a previsão geral era de queda. Mas a alta do petróleo não se sustentou. Às 12:45 (horário de Brasília) o contrato do era negociado a US$ 98,54, com alta de 5,84%. E os contratos de junho a dezembro mostravam queda sucessiva, indicando que os agentes que negociam com petróleo (os maiores compradores são China, Índia, Japão e Alemanha) não acreditam na duração da guerra e na extensão das suas sequelas. O contrato de junho era negociado a US$ 92,71; o de setembro a US$ 80,65 e o de dezembro de 2026 a US$ 75,57.
No Brasil, a Petrobras está extraindo o petróleo pré-sal, que abastece 70% das cargas de suas refinarias, que operam com 91% da capacidade instalada, a um custo abaixo de US$ 21, incluindo afretamento de equipamentos, “royalties” e participações especiais em impostos. Há uma margem enorme de lucro, que já era confortável com o barril a US$ 60 e se torna folgada para a companhia.
O próprio comportamento das ações da Petrobras e das pequenas companhias privadas de petróleo (que basicamente só extraem e exportam o petróleo, ainda que a custos bem mais altos do que a Petrobras no pré-sal) mostra apostas no ganho de margens com a alta do Brent. As ações da Prio disparavam quase 6% na B3 por volta das 13 horas, contra cerca de 4,5% das ações ON e PN da Petrobras. Não há exagero na Prio? A título de comparação, as ações da Brava sobem 1,88% e as da Petrorecôncavo, 1,32%.
Mas a Petrobras vem sendo pressionada a dizer se deve ou não elevar os preços da gasolina e do diesel. Haveria saudade especulativa do PPI, criado no governo Temer, que produziu montanha russa nas cotações, que acompanhavam o mercado internacional, e gerou a greve dos caminhoneiros da qual o candidato Bolsonaro pegou carona em 2017-118, mas manteve o PPI em seu governo? Ou são os importadores independentes (20% a 25% do diesel e do GLP são importados que estão com margens comprimidas e pressionam a estatal a jogar gasolina na fogueira da inflação? Para gargalhadas dos especuladores do mercado financeiro.
Como o dólar não está disparando - ao contrário, caía 0,62% a US$ 5,2130 às 13:03 - vê-se a clara especulação de uma parte do mercado, interessada em fazer arbitragens com juros (e alardear nas mídias financeiras controladas – ver coluna anterior) as projeções de que não se espera baixa da Selic em 15%.
Na Pesquisa Focus apurada pelo Banco Central até sexta-feira, 6 de março, e divulgada hoje, o mercado esperava duas baixas de 0,50% nas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central, em 18 de março e 29 de abril, quando a Selic cairia para 14,00% ao ano.
Uma leitura combinada das projeções do mercado para o IPCA e os preços administrados (nos quais estão embutidas as projeções para a gasolina e o diesel), o mercado previa que o IPCA ficaria acima dos preços administrados em 2026 (3,91%/3,92%, contra 3,67% para os preços administrados em 2026, não revelava temor. Os preços por atacado estão em queda e seguram a inflação.
Só que um reajuste de gasolina (o item que mais pesa entre os 377 pesquisados pelo IBGE no IPCA) ou no diesel, que impacta o frete e produziria pressão em cadeia nos transportes públicos (o governo Lula tem proposta para transporte grátis, mas a turbulência da guerra acirra os debates) fariam, ambos em conjunto ou em datas separadas uma escalada da inflação.
Em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro, os preços dispararam e o PPI provocou reajustes em séries a cada mês (um a cada semana). Bolsonaro demitiu vários presidentes da Petrobras. Não adiantou. A inflação escalou. Em fins de junho, no desespero, Paulo Guedes quis ajudar cortando impostos federais e estaduais (ICMS) dos combustíveis, energia elétrica residencial e comunicações de julho a 21 de dezembro de 2022. Criou um rombo nas contas públicas, mas não se reelegeu. O ICMS só foi zerado com os estados em janeiro deste ano.
Lula agora está diante do dilema, mas não deve ceder às pressões do mercado. Tem de ter o mesmo sangue frio de quando o tarifaço parecia emparedar o Brasil e seu governo e o país reagiu altaneiro e se saiu bem com o recuo nas tarifas com Trump. Uma nova agenda mais ampla sobre o tema e outros assuntos estratégicos entre Brasil e Estados Unidos aguarda uma janela de oportunidade (e de paz) para a abertura de uma agenda em Washington.