O OUTRO LADO DA MOEDA
Os efeitos colaterais da guerra
Publicado em 05/03/2026 às 16:47
Alterado em 05/03/2026 às 16:47
Ante o real, o dólar chegou a ser negociado a R$ 5,2813, mas às 13 hs era cotado a R$ 5,2755, com alta de 0,82% Foto: Agência Brasil
Não são apenas as populações locais, a aviação comercial e os mercados de petróleo, incluindo a marinha mercante que transporta mais de 20% da produção mundial de petróleo e gás extraídos da área onde se espalhou o conflito entre Israel-Estados Unidos X Irã, no Oriente Médio, com reflexos nos mercados financeiros de todo o mundo, os atingidos pela guerra no Golfo.
O britânico “Financial Times” e a agência alemã de notícias Deutsche Welle explicam que além da ameaça de nova crise energética para a Europa, o fechamento do Estreito de Ormuz, principal gargalo marítimo do Golfo, está desencadeando uma crise no fornecimento de alumínio e paralisações em todo o Oriente Médio. Os reflexos chegam ao Brasil que é grande exportador de bauxita e sua forma refinada, a alumina, matéria-prima do alumínio.
Lembra a DW que a região também é um “hub” importante de alumínio, respondendo por mais de 8% da produção global no ano passado, segundo o Instituto Internacional do Alumínio (IAI). Mais de 5 milhões de toneladas de metal são embarcadas todos os anos pelo Estreito de Ormuz por fundições no Bahrein, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, aproveitando a generosa oferta de gás natural dos países locais.
A interrupção do fluxo marítimo afeta tanto os compradores globais quanto os exportadores de insumos para a produção do alumínio, entre eles o Brasil, como a bauxita e sua forma refinada, a alumina. Grandes volumes dessas matérias primas seguem no sentido inverso para abastecer as fundições do Golfo. Com o Estreito fechado à navegação, os reflexos na cadeia internacional de produção logo se fazem sentir, com retração na compra de matéria-prima e na produção final para a exportação.
Segundo a Deutsche Welle, “nenhuma dessas plantas foi até agora diretamente atacada na escalada das hostilidades. Mesmo assim, a Qatalum, parceria entre a norueguesa Norsk Hydro e a QatarEnergy, já anunciou que irá paralisar suas operações após o fornecimento de energia do país ser comprometido. "A decisão foi tomada depois que o fornecedor de gás da empresa informou sobre uma suspensão iminente do fornecimento", afirmou a Hydro na terça-feira (03/03).
A norueguesa Norsk Hydro, com atuação em quase todos os continentes, tem sua principal fábrica no Brasil, em Barcarena (PA). Lá, usando a energia da hidrelétrica de Xingu, transforma a bauxita produzida em Paragominas e Trombetas em alumina nas unidades da Albras e da Alunorte. A Norsk Hydro tem ainda fábrica em Itu (SP), para atender a indústria de cerveja e refrigerantes.
Antes da guerra, dados otimistas
Além do baixo índice de desemprego (5,4%) no trimestre encerrado em janeiro (5,1% em dezembro), que o Itaú, excluindo efeitos sazonais, aponta em 5,3%, mostrando um mercado de trabalho ainda resiliente, os dados do IC-Br (o indicador dos preços das “commodities” do Banco Central apresentou baixa mensal de 3,2% em fevereiro. Antes da guerra os dados eram favoráveis.
Com a desaceleração prevista no PIB deste ano, o Itaú projeta desemprego de 5,7% em dezembro. Para o Bradesco, a força do mercado de trabalho fará o consumo das famílias crescer 2,1%, contra 1,3% em 2025. Quanto aos preços, depende da duração e extensão do conflito no Oriente Médio.
Dólar e óleo sobem com expansão da guerra
Com a expansão da área do conflito entre Israel-EUA X Irã para o sul da Índia, Turquia e Líbano, os contratos de petróleo tipo Brent para entrega em maio subiram mais 3,28% às 13 horas (horário de Brasília), para US$ 84,07 e os mercados financeiros buscaram proteção no dólar, que subiu diante de quase todas as moedas. Ante o real, o dólar chegou a ser negociado a R$ 5,2813, mas às 13 hs era cotado a R$ 5,2755, com alta de 0,82%. Com o dólar forte, o ouro perdeu força e caía 0,81% no contrato para entrega em abril a US$ 5093.
Mercado aguarda balanço da Petrobras
A guerra do Golfo torna o cenário futuro da Petrobras mais promissor do que os resultados do quarto trimestre de 2025, que a estatal divulga nesta noite, após o fechamento dos mercados no Brasil e nos Estados Unidos. Com o petróleo acima de US$ 80 e o custo de extração, considerando afretamentos e participações especiais, de pouco acima de US$ 22, cresce a margem de lucro.
Mas o resultado do último trimestre de 2025 vai impactar, para baixo, a distribuição de dividendos, porque a companhia fez investimentos pesados: além de FPSOs para explorar o pré-sal (com redução de custos) houve pagamento de US$ 1,3 bilhão pelo leilão de áreas não contratadas da PPSA e outros US$ 258 milhões gagos no acordo de unitização do campo de Jubarte.
A XP Investimentos projeta um FCFE (Fluxo de Caixa Livre para o Acionista) de US$ 649 milhões (retorno trimestral de 0,6%), pressionado pelos altos investimentos no trimestre. Calcula dividendos ordinários de US$ 1,6 bilhão (cerca de R$ 8,4 bilhões com base no câmbio de R$ 5,25). Até o terceiro trimestre, a Petrobras pagou R$ 32,54 bilhões aos acionistas. O governo federal abocanha 28,67% desse total.
O Bradesco BBI espera provento de US$ 1,3 bilhão (contra US$ 2,3 bilhões no 3º trimestre de 2025), também levando em conta que os dividendos por fórmula devem ser impactados pelo desembolso de US$ 1,3 bilhão relacionado ao leilão do PPSA no 4º trimestre. O Itaú BBA tem projeção menos otimista: US$ 1,0 bilhão, o que implica um retorno sobre dividendos (dividend yield) de 1,1%