O OUTRO LADO DA MOEDA
A perigosa mistura do SFN com a mídia
Publicado em 04/03/2026 às 18:42
Alterado em 04/03/2026 às 18:42
A rede de Vorcaro teria se infiltrado em cada escaninho e ainda contava com a assessoria direta de dois altos funcionários do Banco Central na gestão de Roberto Campos Neto Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Sempre tive a impressão de que Daniel Vorcaro estivesse mais próximo da figura de “gangster” do que para a de banqueiro tradicional. Os fatos estarrecedores revelados pela Polícia Federal sobre suas incursões no mundo da política e do poder, com uso de “hackers” para fuçar informações da Polícia Federal, do Ministério Público e até do FBI, sem contar os espiões avançados em postos-chave do Banco Central, só confirmam a má fama. Ele chegou ao ponto de planejar um falso assalto, com agressões, para intimidar o colunista Lauro Jardim, de “O Globo”, por fazer revelações contrárias ao Master.
Não que os banqueiros do passado fossem santos. Muitos eram implacáveis e perigosos. Nem todos eram polidos como Walter Moreira Salles (Unibanco), Olavo Setúbal (Itaú), Lázaro Brandão (Bradesco – Amador Aguiar era arredio), Aloisio Faria (Real), Thomaz Edison de Andrade Vieira (Bamerindus). Turbulência e métodos pouco ortodoxos eram mais da turma de investimento.
Há uma piada centenária que diz ser rara a presença de um banqueiro na clientela dos cardiologistas. Não porque tenham dinheiro para gastar com nutricionistas e fisioterapeutas, e assim garantir uma saúde de ferro. Simplesmente porque o coração não bate no peito dos banqueiros. Se assim fosse, perdoariam as dívidas ou cobrariam juros módicos...
Meu amigo Aluizio Maranhão, hoje em “O Globo”, quando era meu colega na editoria de Economia do velho JORNAL DO BRASIL, no começo dos anos 70, dizia que temia ser “atropelado por um caminhão da Brinks” numa das ruas estreitas do Rio de Janeiro quando publicava matéria crítica ao Sistema Financeiro Nacional. Seu alerta pegou; também tinha minhas precauções.
Naquela época, o Rio era o centro financeiro nacional (mudou para São Paulo na metade dos anos 90), o “open market” e o mercado interbancário de crédito estavam nos primórdios e as transações em dinheiro predominavam. Hoje, as transações do mercado de ações, câmbio, títulos e mercadorias são por via escritural e eletrônica. Entre pessoas e empresas é via eletrônica (TED para grandes quantias e Pix, concentrado até R$ 5 mil), em transações via celular. O inimigo hoje pode vir por uma pegadinha no celular e não é tão visível quanto os então carros-fortes amarelo-ovo da Brinks, que distribuíam numerário e recolhiam cheques das agências bancárias. Hoje os cheques são raros.
Dos conselhos à chantagem
Nos velhos tempos, como recorda em livro o banqueiro Luiz Cezar Fernandes, que fundou o Banco Garantia (com Jorge Paulo Leman) e o Banco Pactual (com Paulo Guedes e André Jakurski), hoje à frente do Garantia Capital, os dirigentes do Banco Central eram pacientes e tinham disposição para orientar a operar com ética. Ele cita o pessoal da gerência da Dívida Pública do BC (conheci quase todos desde 1973) e o então gerente de redesconto, depois diretor da Área Bancária no governo Geisel, Ernesto Albrecht.
Considero Ernesto Albrecht, depois convocado por Mário Henrique Simonsen para comandar o Instituto de Resseguros do Brasil no governo Figueiredo (seu plano era concorrer a presidente do Flamengo), como exemplo de funcionário público. Aposentado, Albrecht foi convocado para gerir a Central de Liquidação e Custódia dos Títulos Privados (Cetip), o sistema que deu garantia de registros físicos aos títulos privados negociados no mercado, como antes o Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) fez com os papéis públicos.
No final dos anos 80, com o desmonte dos aparelhos de repressão, muitos “arapongas” foram recrutados para fazer espionagem para banqueiros de investimento. Uma informação privilegiada tem alto valor financeiro no mercado. Imagina quando você extrai informações privilegiadas de ministérios, das lideranças políticas da Câmara e do Senado, de membros dos tribunais superiores (STJ e STF) e tribunais de justiça dos principais estados brasileiros?
A rede de Vorcaro teria se infiltrado em cada escaninho e ainda contava com a assessoria direta de dois altos funcionários do Banco Central na gestão de Roberto Campos Neto (2019-2024). Eram eles o ex-diretor de Fiscalização do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza, que desde 2025, ao ser substituído por Ailton de Aquino, como era funcionário de carreira, continuou a operar em superintendência, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Ambos antecipavam a Vorcaro e a seu grupo irregularidades encontradas nas operações do Master e davam a orientação para a correção. Chegavam, segundo a PF, a redigir enquadramento nas normas.
Mas as investigações estão indicando que o Master tinha duplo esquema operacional: captava depósitos a prazo amparado na garantia até R$ 250 mil no Fundo Garantidor de Crédito, aplicava os recursos em títulos precatórios, comprados bem abaixo do valor de face (investigações posteriores indicaram que nem todos os títulos eram legais) ou em papéis de baixa liquidez, também comprados na bacia das almas (uma das vias preferidas eram operações com Fundos de Investimento em Participações (FIP) de empresas ou Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), que se prestam a lavagem de dinheiro, e tinham no liquidado fundo Reag um dos parceiros mais atuantes.
A tentativa de ataque a Lauro Jardim
Não é de hoje que os jornalistas são ameaçados quando não são dóceis aos interesses das grandes empresas, financeiras ou não. As assessorias de imprensa tentam angariar simpatia para seus clientes e viram linha de frente para tentar aliviar notícias negativas. Mas há quem exceda todas as normas. Se Jeffrey Epstein usava mocinhas (europeias pouco versadas em inglês) para entreter políticos, altos funcionários e magnatas nos Estados Unidos do começo do século 21, imagina o que Vorcaro não andou aprontando por aqui em figurino semelhante, na linha de “como fazer influência e conquistar amigos”).
Há coleção de jornalistas atacados nas mídias sociais, com ameaças que se concretizam. O que ocorreu com Lauro Jardim e será apurado com rigor pela PF é só o prelúdio do que pode vir a ocorrer na sangrenta campanha eleitoral de 2026. As Organizações Globo fizeram muito bem em repudiar e condenar veementemente a tentativa de silenciar seu colaborador.
Conflito de interesses
Mas eu considero que há um caminho perigoso no noticiário financeiro atual quando uma parte importante da mídia eletrônica está sob controle direto de instituições financeiras. Como garantir se a informação é neutra ou não está devidamente “operada”. (trabalhada para produzir determinado impacto ao qual o grupo financeiro que controla a mídia já se antecipou?).
Cito alguns exemplos de conflito de interesse: o grupo Folha controla o UOL e o PagBank. A “Exame” é controlada pelo BTG-Pactual, assim como o “Money Times” e o “Seu Dinheiro”. Já a XP Investimentos é dona do “Infomoney”, do “Primo Rico” e da “Empiricus”. Nos Estados Unidos, a Securities Exchange Comission, o “xerife” de lá que inspirou a Comissão de Valores Mobiliares, fiscaliza as “insides informations” e as “inside tradings”. Aqui, falta muito.