O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

PIB mais forte e Selic em queda

Publicado em 19/02/2026 às 16:12

Alterado em 19/02/2026 às 16:12

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Mesmo com queda de 0,2% em dezembro, sob influência da forte desaceleração em varejo e serviços (-0,3%), o IBC-Br, divulgado hoje pelo Banco Central registrou surpreendente crescimento de 2,5% em 2025, puxado pelo forte desempenho da agropecuária (+13,1%) e pela residência das atividades da indústria extrativa mineral – os dois segmentos que operam praticamente imunes ao estrangulamento da política monetária no crediário. O problema é que a agropecuária só representa 5,8% do PIB e a indústria extrativa (4,5% do PIB).

Mais do que o aumento surpreendente no PIB do Banco Central (o PIB oficial, calculado pelo IBGE, será divulgado em 3 de março), chamou a atenção o carregamento de 0,1% para o primeiro trimestre de 2026. Sem redução rápida dos juros, a agropecuária (com safra de grãos estável ou com pequena queda frente a 2025) não terá força, junto com a extrativa mineral, para sustentar o PIB este ano. As apostas estão entre 1,5% (Bradesco) e 1,9% (Itaú).

Mas o que pode animar o setor de Serviços, que representa 59,2% do IBC-Br (a Indústria, incluindo a extrativa, responde por 20,9%) são os sinais emitidos pelo mercado na última pesquisa Focus: as projeções da inflação continuam caindo a cada semana e o mercado, além de projetar queda de 0,50% na Selic na reunião de 18 de março, renovou a queda de 0,50% para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 29 de abril, quando a Selic cairia a 14,00% ao ano.

Mais que isso, o mercado e a maioria dos bancos filiados à Febraban apostavam que a Selic fechará o ano em 12% (era a aposta do Bradesco – em janeiro, o Itaú previa a Selic terminal em 12,75%. Será que fará revisão em fevereiro? O mercado aguarda a nova previsão de cenário até amanhã. Um dos fatores que pode determinar o rumo da inflação e dos juros é o câmbio.

Bradesco analisa impacto das tarifas no dólar
Em análise do economista Vitor Araújo de Holanda Jó, do departamento de Estudos Macroeconômicos do Bradesco considera que “talvez o aspecto mais surpreendente de 2025 tenha sido o comportamento do dólar. Em vez de se apreciar, como sugeriria uma leitura mais tradicional de choques tarifários, a moeda americana se desvalorizou de forma ampla. Parte dessa dinâmica tem sido atribuída a fatores políticos e institucionais, incluindo maior percepção de risco associada aos Estados Unidos. Independentemente da causa, o efeito macroeconômico do dólar fraco foi claro: houve um afrouxamento relevante das condições financeiras globais”, diz o estudo.

Segundo Jó, “a decomposição do Financial Conditions Index (FCI) mostra que, após um aperto pontual em abril, o câmbio passou a contribuir de forma significativa para a flexibilização das condições ao longo do restante do ano. Esse canal ajudou a sustentar o apetite por risco, valorizou ativos e deu suporte ao crescimento tanto nos EUA quanto no resto do mundo. Mesmo quando a origem do enfraquecimento cambial é potencialmente negativa — como maior incerteza política — seu efeito pode ser estabilizador ao relaxar o FCI. No modelo DSGE utilizado como guia, esse mecanismo é representado por um choque de prêmio de risco que domina o canal tradicional de paridade de juros, levando à depreciação do dólar e a efeitos expansionistas via condições financeiras”, sustenta o economista.

Mundo reagiu ao tarifaço

“Outro fato estilizado relevante de 2025 foi a surpresa positiva do crescimento fora dos Estados Unidos. Em vez de uma desaceleração sincronizada, diversas economias mostraram resiliência. Parte dessa dinâmica pode ser interpretada como consequência direta do dólar mais fraco, que melhorou condições financeiras externas e facilitou o financiamento e o comércio. Ao mesmo tempo, os custos associados às tarifas se manifestaram mais como choques de eficiência e custos intermediários do que como um colapso da demanda”.

“No modelo, isso aparece como um aumento do custo marginal via insumos importados, pressionando a inflação de bens, mas sem gerar um choque inflacionário persistente no CPI agregado. Essa leitura está alinhada com a ideia de “production tariffs”, na qual o principal efeito das tarifas ocorre ao longo da cadeia produtiva, afetando margens e alocação, mais do que o nível contemporâneo do PIB e preços ao consumidor”.

Para o estudo, “a experiência de 2025 sugere algumas lições importantes. Primeiro, a diferença entre tarifas anunciadas e tarifas efetivas é crucial para a análise macroeconômica e não pode ser ignorada — embora isso só fique plenamente visível ex-post. Segundo, o dólar emergiu como a variável-chave do ano, funcionando como um poderoso canal de transmissão via condições financeiras. Terceiro, a política monetária respondeu mais à incerteza e aos riscos para a atividade do que aos movimentos, aparentemente, temporários da inflação de bens”.

E o economista assinala que “como exercício de robustez, verificamos que essas conclusões qualitativas não dependem de calibrações específicas: em variações razoáveis dos parâmetros de preferência intertemporal e elasticidade de substituição no comércio, os sinais centrais permanecem — impacto direto das tarifas limitado, dólar fraco, política monetária levemente acomodatícia e crescimento relativamente resiliente, ainda que com magnitudes diferentes”.

“Por fim, vale notar que fatores não modelados explicitamente provavelmente atuaram como amortecedores adicionais em 2025: (i) o ciclo de investimentos associado à inteligência artificial, que sustentou demanda e “valuations”; (ii) um impulso desinflacionário vindo da China, via bens comercializáveis e pressão competitiva sobre preços industriais; e (iii) a queda nos preços do petróleo, que ajudou a reduzir a inflação total e aliviou custos ao longo da cadeia. Ainda assim, mesmo abstraindo desses elementos, o arcabouço apresentado aqui ajuda a entender por que o choque tarifário, apesar de grande no anúncio, teve efeitos macroeconômicos bem menores do que muitos antecipavam”, conclui.

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