O OUTRO LADO DA MOEDA
Explosão da galáxia do Master atinge 10 instituições
Publicado em 18/02/2026 às 16:34
Alterado em 18/02/2026 às 16:34
Daniel Vorcaro Foto: divulgação/Banco Master
Com a liquidação dupla nesta quarta-feira do Banco Pleno (ex-Voiter, comprado ano passado pelo ex-sócio do Master, Augusto Lima) e da Distribuidora Pleno, chegam a uma dezena as instituições financeiras atingidas mortal ou gravemente por girarem em torno da galáxia do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
A primeira instituição, o Banco Regional de Brasília, do governo do Distrito Federal, que se apresentou em março de 2025 para comprar 68% do controle do banco de Daniel Vorcaro, com quem negociou créditos podres. Depois de examinados pelo Banco Central, que assistia o negócio, por intermédio do então diretor de Organização, Renato Brito Gomes, foram identificadas fraudes de R$ 12 bilhões em papéis sem lastro e o Banco Central vetou a operação em setembro, o que deixou o Master à deriva. O BRB já comunicou ao BC que fará em aumento de capital de R$ 5 bilhões para cobrir parte do rombo e está tentando vender fatias do seu capital a instituições financeiras da Faria Lima.
Quem não conhece os meandros dos negócios do mercado financeiro, com operações interligadas entre bancos grandes com menores. Um exemplo: o XP, o Nubank e o BTG-Pactual, além da Genial Investimentos vendiam CDBs do Master no mercado, amparados na garantia até R$ 250 mil do Fundo Garantidor de Crédito. Com isso, ganharam gordas comissões de corretagem.
Outra interligação se dá na troca de posições nos mercados interbancários. Com bem mais liquidez que o Master, o BRB era financiador de suas posições, O interesse por se associar ao banco de Vorcaro e assumir seu controle estava mais ligado ao fato de tentar corrigir a má avaliação na compra de papéis do Master. No Brasil e nos mercados internacionais, posições credoras elevadas são fatores que induzem a compra do rival menor para encobrir prejuízos. É que os prejuízos acumulados dão direito a crédito tributário pelo comprador.
Castelo de cartas começa a ruir
Entre o veto do Banco Central, em setembro, e a sua liquidação, em 18 de novembro, Daniel Vorcaro tentou várias operações. Incluindo “fake News”. Na tarde de 17 de novembro, o Master soltou um “press release” anunciando a sua venda para o obscuro Fundo Fictor (mais conhecido por seu um dos patrocinadores do Palmeiras) em associação com o fundo Mubadala, o fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, por R$ 3 bilhões.
Vorcaro foi detido no aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em seu jato, cujo plano de voo indicava uma ida a Malta (paraíso fiscal europeu no Mediterrâneo), embora dissesse que iria a Dubai fechou o negócio com o Mubadala. Nem a Polícia Federal nem o Banco Central acreditaram na versão. Vorcaro teve prisão decretada no dia seguinte, junto com diretores do seu grupo (Augusto de Lima logo foi solto) e o conglomerado foi liquidado no dia seguinte, 18 de novembro: Banco Master S/A, Banco Master de Investimento, Banco Letsbank (atual BlueBank) e a corretora do conglomerado.
Na esperança de que o Will Bank, banco digital controlado pelo Master, fosse negociado, o BC o deixou livre. Entretanto, em 21 de janeiro, depois de dar calote em pagamentos de operações de seu cartão de crédito com a bandeira Mastercard, foi decretada também a liquidação do Will Bank.
Uma semana antes, em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central ampliou a intervenção para a CBSF DTVM (ex-Reag Investimentos), apontada como parte do mecanismo usado para ocultar prejuízos em fundos de investimentos, inclusive com lavagem de dinheiro para o PCC e devedores contumazes, além de empresas-laranja.
Já o grupo Fictor, que tem 40 CNPJs, mas só dois deles entraram em dificuldades após a tentativa de compra do Master em parceria com o Mubadala, depois de ter bloqueados R$ 150 milhões pelo TJ-SP, a pedido do Mastercard, entrou com pedido de Recuperação Judicial para a Fictor Invest e da Fictor Holding, dia 1º de fevereiro de 2026 (domingo) no tribunal paulista, alegando dívidas de R$ 4 bilhões. A versão de que iria aportar R$ 3 bilhões no Master com o Mubadala, parece saída de um conto de “Mil e Uma Noites”.
Rombo do FGC passará de R$ 52 bilhões
O que estas instituições liquidadas tinham em comum? O modelo de negócios de quem captava recursos do público se fiava na garantia (aos compradores de papéis de renda fixa) oferecida até R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), em grande parte bancada pelos grandes bancos, que querem mudar o modelo, pedem liberação do compulsórios para aportar os débitos contábeis e querem que o BC exija mais capital das “fintechs” e novos bancos.
O Master já tem inscritos pedidos de R$ 40,6 bilhões em coberturas (fundos de pensão de servidores de estados e municípios acumulam prejuízos de mais de R$ 10 bilhões). O Will Bank gerou pedidos de R$ 6,3 bilhões e o Pleno reúne um potencial de R$ 4,9 bilhões. Mas a enxurrada parece que não parou por aí.
A demora do alerta sobre o Agibank
Já passava das 18 horas da sexta-feira, 13 de fevereiro, quando os batuques de Carnaval já sacudiam o mercado financeiro, quando o Banco Central soltou um comunicado de ocorrência de irregularidades nas contas do Agibank S.A.
Segundo o Banco Central, entre 26 de dezembro de 2025 a 30 de janeiro de 2026, os dados cadastrais vinculados a 5.290 chaves Pix: nome do usuário, CPF com máscara, instituição de relacionamento, número da agência e número e tipo da conta, do Agibank foram acessados por “hackers”. Por que esperar tanto (mais de duas semanas) para alertar o mercado e os clientes do banco?
Na minha leitura o Banco Central teve excesso de cautela em não interferir no processo de IPO (lançamento de ações novas do Agibank no mercado de Nova Iorque. O Agibank, que já teve participação acionária do Bradesco, com quem mantém parceria no crédito consignado, foi acusado pelo inquérito de desvios de contas de aposentados, de participar do esquema de fraudes contra o INSS. Isso levou ao adiamento do seu IPO, marcado para o começo de janeiro.
Uma nova suspeita pode arquivar de vez a operação. O que você acha, caro (a) leitor(a). Foi excesso de zelo do BC ou erro de avaliação?