O OUTRO LADO DA MOEDA
Desaba castelo de cartas do Master&cia
Publicado em 06/02/2026 às 18:21
Alterado em 06/02/2026 às 18:23
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Bem que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, avisou, há mais de uma semana, quando novos escândalos do Banco Master, de Daniel Vorcaro, levavam o Banco Central a promover mais liquidação de instituições financeiras, advertindo de que “talvez, estejamos diante da maior fraude bancária do Brasil”.
Pois a cada dia, fica claro que o “open finance” estimulado pela gestão do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto (janeiro de 2019 a dezembro de 2024), criou um castelo de cartas na expansão das “fintechs” com baixa capitalização e alta alavancagem em “papéis de qualidade duvidosa ou podres” (sem o devido controle do BC) que está desmoronando.
Desde o fim de 2024 esta coluna já alertava, em tabela, mostrando os riscos que o Master assumia (às custas do Fundo Garantidor de Crédito) estava se tornando um “iceberg à deriva no Sistema Financeiro Nacional. E o modelo de negócios do Master, copiado por algumas “fintechs” e instituições de menor porte e contar com o “aval” do FGC, torna a competição do mercado completamente desigual.
Sobretudo, como alertou o presidente-executivo do Itaú, Milton Maluhy Filho, instituições até de grande porte, como o BTG-Pactual, servem de “escada” para a colocação dos papéis de alto rendimento do Master&cia no mercado, em troca de “fees” na operação inicial. XP, Nubank e Genial fizeram o mesmo: embolsaram o lucro, mas o risco ficou todo com o FGC.
O exame dos balanços de 2025 divulgados nesta semana por Santander e Itaú (quarta-feira, dia 4 de fevereiro) e pelo Bradesco (quinta-feira, 5 de fevereiro), mostrou o Itaú com lucro líquido recorrente de R$ 46,830 bilhões, 75% maior que os R$ 26,652 bilhões do Bradesco, também em bases recorrentes e quase o dobro dos R$ 15,615 bilhões da filial brasileira do espanhol Santander. Mas tanto Itaú quanto Bradesco têm altos lastros em depósitos à vista, a prazo e de poupança e captações de recursos para terceiros, incluindo fundos de investimento na casa dos R$ 2 trilhões ou mais.
Pior, o Bradesco e o Itaú foram penalizados com os impactos da Resolução Banco Central/CMN 4.966/21, que os obrigou a aumentar as baixas nas operações com atraso superior a 90 dias, que não podem mais ser roladas mais de uma vez. O resultado é que o Itaú deus baixas líquidas de R$ 38,9 bilhões e ainda tinha estoque de R$ 56 bilhões para provisões de devedores duvidosos em dezembro de 2025. O Bradesco deu baixas líquidas de R$ 33,172 bilhões e ainda fechou o ano com provisões para PDD de R$ 56,2 bilhões (redução de 2,6% frente a 2024).
E os Master e os 'fintechs' da vida?
Deixados a operar com alavancagens abusivas na gestão Campos Neto, que escancarou os limites prudenciais na pandemia da Covid-19 e manteve os juros artificialmente baixos em 0,2% ao ano, a parte que gosta de se mover nas sombras do SFN, assumindo riscos imensos sob o amparo do FGC, ou em lastros fictícios, como títulos de precatórios judiciais, FIDC (fundos de investimento em direitos creditórios).
Os dados de novembro da Anbima registram um saldo de R$ 7 trilhões e 731,4 bilhões em recursos administrados pelos fundos de investimento de seus associados. Metade dos recursos, visando segurança e liquidez, estava aplicado em títulos do Tesouro Nacional (R$ 3 trilhões 555 bilhões). R$ 170 bilhões estavam em CDBs e RDBs, R$ 730 bilhões em debêntures de companhias. Mas, à parte dos R$ 627 bilhões em ações, havia R$ 171,6 bilhões em alocação de FIDC, R$ 192,8 bilhões em letras imobiliárias e R$ 652,9 bilhões (8,4% do total) alocados em Letras Financeiras diversas, incluindo as do agronegócio (isentas de IR, como a LCIs).
Num mercado pouco regulado e sem tributação, tal montante fluido permite montagens de carteiras sem lastro e alta alavancagens como ocorria no mercado aberto dos anos 70, até a edição da Resolução 366, de abril de 1976, que impôs aumentos de capital para corretoras, distribuidoras e bancos (comerciais e de investimento) e reduziu os índices de alavancagem com papéis públicos e privados de renda fixa.
A Resolução 366 (seguida pela Resolução 386, que proibiu a dupla hipoteca de imóveis no Sistema Financeiro da Habitação), também em 1976, evitou que o Brasil tivesse um duplo estouro do mercado de títulos e da bolha imobiliária, como ocorreu nos Estados Unidos em 2008, gerando a crise financeira mundial, com reflexos aos dias atuais.
Mas o que se pergunta é, por que, com registro escriturais de papéis e operações, uma parte do mercado se dedica a operar com “títulos podres”, sem registro? O caso do fundo Reag (liquidado pelo BC na esteira do Master e por estar envolvido na lavagem de dinheiro descoberto pela Polícia Federal na “Operação Carbono Oculto”, de setembro do ano passado), que declarou patrimônio de R$ 45 bilhões para seus fundos no final de 2025 é sintomático. O BC de Campos Neto baixou as regras de "compliance" e a jogatina correu solta no mercado. Todos os envolvidos com o Master (como o Fictor, que fez um contrato de função de compra para adiar a liquidação no mesmo dia 18 de novembro, e o Reag), operavam sem transparência. Sobrou para o Banco Regional de Brasília (do DF), que precisa explicar como aceitou R$ 12,2 bilhões de créditos sem lastro do Master e agora precisa fazer aporte de capital de R$ 5 bilhões.
As investigações descobriram que empresas ligadas ao Reag lançaram certificados de Unidades de Estoque de Carbono (UECs), onde cada UEC, seria equivalente a uma tonelada de carbono mantida ao longo de um ano na Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM). Acontece que a tal fazenda era objeto de grilagem e tinha dupla contagem nos valores. Olha a atração do carbono...Só mesmo para lavar dinheiro e fugir das garras do leão, agentes financeiros e investidores aceitariam pisar em terreno tão pantanoso.