O OUTRO LADO DA MOEDA
Sem Guillen, Copom adota linha mais direta
Publicado em 03/02/2026 às 13:11
Alterado em 03/02/2026 às 13:11
.
O Banco Central divulgou nesta terça-feira a íntegra da ata da 275ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a primeira, depois de 30 reuniões seguidas em que o ex-diretor de Política Econômica, Diogo Guillen, (que atuou como o principal redator dos comunicados e atas desde 246ª reunião, de maio de 2022. Por isso mesmo, mesmo mantendo a Selic em 15% ao ano (desde 20 de junho de 2025) o comunicado já marcou uma mudança. Foi mais sucinto e direto, com menos “coponês”, e já adiantou a redução da Selic em março.
Os que tentaram decifrar que nível seria a queda da Selic em 18 de março, ficaram frustrados. O Copom se limitou a dizer, de modo mais direto (e em 19 tópicos, contra 23 da reunião de setembro) que “antevê, em se confirmando o cenário esperado [de continuidade da desinflação], iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
E alerta: “O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária”. Acontece que mudanças de linguagem nem sempre são bem interpretadas pelo mercado financeiro.
O Itaú chega a comparar mudanças de palavra e vírgulas a cada reunião. Talvez sejo o banco que mais tenha egressos da diretoria do Banco Central, (o atual diretor de Pesquisas Macroeconômicas, Mário Mesquita integrou o Comitê, assim como Bruno Serra, que antecedeu Gabriel Galípolo na diretoria de Política Monetária até março de 2023, saíram do Itaú para o BC) e Diogo Guillen deve ir para o Itaú, após cumprir quarentena, quem sabe, na vaga de Mesquita que se aposenta por atingir idade máxima estatutária.
A diretoria de Política Monetária está ocupada, desde janeiro de 2025 pelo ex-diretor Tesoureiro do Bradesco, Nilton Davi. Por sinal, Roberto Campos Neto, era diretor Tesoureiro da América Latina do Santander (onde entrou com a compra do Bozano Simonsen pelo banco de Ana Botin), quando foi chamado para a presidência do Banco Central, pelo futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, em dezembro de 2018.
Mercado reage a indicações da Haddad
Acontece que para o mercado, acostumado a ler as sutis (ou enfadonhas) entrelinhas das atas do Copom, a troca do mensageiro traz sempre problemas, pois as operações do mercado financeiro são feitas a curto, médio e longo prazo. Mudanças na direção dos juros nos Estados Unidos, com a indicação por Trump do ex-diretor Kevin Warsh, para substituir Jerome Powell, em 15 de maio de 2026, também mexem com os cenários e as expectativas, Warsh traz a missão de derrubar os juros, que Trump cobrava de Powell.
No Brasil, já houve reações ao vazamento das indicações ao presidente Lula pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que deixa o posto este mês, para dois nomes para ocupar as vagas de Diogo Guillen e Renato Brito Gomes (Organização do SFN). Haddad, que reclamou do vazamento) sugeriu seu secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, e o economista e professor de Cambridge, Tiago Cavalcanti. Tudo porque Guilherme Mello, formado na Unicamp, não se alinha entre os monetaristas ortodoxos e Cambridge alinhava pensamento heterodoxo, bem diversos da ortodoxia monetarista de Chicago (Milton Friedman).
A leitura do mercado (que me parece correta e indispensável) é que o Banco Central, consolidada a fase de desinflação e lassidão dos controles do mercado financeiro na era Campos Neto, partirá para um regime de juros reais (descontada a inflação) mais brando que os mais de 10% atuais. Cada redução de um ponto nos juros poupa R$ 62 bilhões em um ano ao Tesouro. É menos recursos drenados aos rentistas e ao mercado financeiro.
Se os juros reais caírem a 7% (ainda com alto diferencial aos Estados Unidos, que podem reduzir os ”fed funds”, dos atuais 3,50%-3,75% ao ano para 2,75%-3,00% ao ano), ainda sobrará muita margem para arbitragem na jogatina entre os diversos ativos e moedas. Porém, como um pouco mais de risco. É o fim de uma fase de ganhos fáceis, com pouco risco, que o mercado antevê e critica.
Pequeno resumo do Copom
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), inspirado no Federal Open Market Committee (FOMC) foi criado em junho de 1996, na gestão do presidente Gustavo Loyola, que sucedeu a Persio Arida e foi sucedido por Gustavo Franco. As reuniões ocorriam a cada 30 dias e o principal instrumento de contenção da inflação, no começo do Plano Real (1º de julho de 1994), era a âncora cambial, comandada pelo diretor da área Externa, Gustavo Franco.
A âncora cambial foi abandonada em janeiro de 1999 no começo do segundo mandato de FHC, com a troca de Gustavo Franco por Francisco Lopes na presidência do BC. Chico Lopes trocou as bandas cambiais por um modelo que durou poucas horas. O câmbio furou o teto e paralisou a BM&F na esteira da quebra dos bancos Marka e Fonte-Cindam, que apostavam no câmbio estável. Chico Lopes foi substituído do Armínio Fraga. Ele só tomou posse oficialmente em março de 1999, mas adotou o câmbio flutuante já em fevereiro.
Inspirada na experiência vitoriosa do Banco Central da Nova Zelândia, copiado por vários países na década de 90, Fraga trouxe para o Brasil o sistema de metas de inflação. Por ele, a partir de julho de 1999 (5º ano do Plano Real), o Banco Central passou a mirar a meta de inflação – até 18 meses adiante – avaliando um enorme conjunto de dados macroeconômicos. Com o tempo, para auscultar o mercado, passou a submeter ao mercado financeiro, consultorias e institutos de pesquisas, suas expectativas a uma série de indicadores macroeconômicos que integram a Pesquisa Focus.
Após cada reunião do Copom, que passou a ter intervalo de 45 dias em 2006, o Comitê divulga um comunicado sucinto (a exemplo do Federal Reserve Bank, que faz reuniões nos mesmos dias que o Copom, antecipando a direção da política monetária e o nível de juros para o sistema financeiro global.