O OUTRO LADO DA MOEDA
Sob risco fiscal, países estimulam a demanda
Publicado em 21/01/2026 às 15:04
Alterado em 21/01/2026 às 17:18
Economistas do mercado financeiro insistem em políticas de contenção fiscal (improvável no ano eleitoral de 2026 - como foi em 2022, quando Bolsonaro deu calote nos precatórios e cortou impostos federais e estaduais para agradar o eleitor, cativado com mesadas a caminhoneiros e taxistas e o Auxílio Emergencial, cujos efeitos ainda afetam este ano, com a recomposição do ICMS sobre combustíveis em janeiro, por exemplo). Mas as análises de cenário da consultoria 4Intelligence e do Santander mostram que os países seguem estimulando a demanda com a política fiscal. Por que o Brasil seria diferente?
Visão da 4Intelligence – “Os riscos geopolíticos - reforçados por episódios recentes, como o aumento de tensões comerciais pela ameaça de intervenção dos Estados Unidos na Groenlândia - permanecem como fonte importante de volatilidade nos mercados de ativos. Ainda assim, as expectativas macroeconômicas globais não vêm mostrando deterioração relevante”.
“Nos EUA, os sinais são de manutenção de um ritmo robusto de crescimento, com indicadores recentes apontando resiliência do consumo e dos investimentos. A sustentação do crescimento tem sido amparada nos avanços relacionados à inteligência artificial, mas também decorre do impulso fiscal proporcionado pelo projeto orçamentário do governo Trump”.
“Outras economias avançadas, como a União Europeia e o Japão, também vêm implementando estímulos fiscais. Diante disso, nosso cenário base projeta que as principais economias avançadas registrarão, em 2026, expansão semelhante - ou até marginalmente superior - à observada em 2025, apesar da persistência de tensões geopolíticas e de riscos comerciais”.
“A China também tem adotado medidas de estímulo fiscal e monetário, mas a fragilidade da demanda interna e as pressões deflacionárias têm mantido a economia em desaceleração moderada”. [Um dado importante é que o impacto da desaceleração da inflação da China será menor em 2026].
“No Brasil, o calendário eleitoral também estimula a adoção de medidas de sustentação da demanda (em especial do consumo), o que deverá contribuir para que a atividade econômica sustente ritmo de crescimento similar ao observado em 2025. No entanto, embora deva conferir resiliência à atividade, o reforço de medidas de estímulo tenderá a reforçar incertezas fiscais, tendo, portanto, potencial para suscitar pressões sobre o câmbio e ativos financeiros”.
O câmbio mais pressionado [prevê dólar a R$ 5,65, contra R$ 5,50 da mediana do mercado] e a demanda resiliente tendem a dificultar a desaceleração da inflação, o que poderá limitar o espaço para a flexibilização da política monetária. [a consultoria prevê IPCA de 4,4%, acima dos 4% da mediana].
Para a Selic, “enxergamos espaço para cortes a partir de março, mas com maior probabilidade de um ciclo mais irregular e um pouco mais lento do que a curva precificada pelos mercados [enquanto o mercado prevê que a Selic feche o ano em 12,25% (12,00 na mediana dos últimos cinco dias na última pesquisa Focus, a consultoria, devido ao câmbio e a inflação maiores, prevê 12,50].
Visão do Santander – “Impulso fiscal deve sustentar a atividade. Os estímulos fiscais e seus multiplicadores corroboraram para que o PIB surpreendesse e registrasse média acima de 3% ao ano desde 2022. Em 2025, com o impulso fiscal mais próximo da neutralidade, o crescimento desacelerou para pouco acima de 2%, em linha com as projeções e refletindo menor surpresa positiva e atividade mais moderada. Em 2026, a política fiscal tende a ser o principal motor do crescimento, sustentada por um impulso fiscal do setor público estimado entre 1,5% e 2,0% do PIB”.
“Dentre as medidas, destacamos a isenção do imposto de renda até R$ 5 mil / mês que deve gerar algo próximo de 0,25% do PIB. Portanto, a política fiscal deve ser o principal motor da economia, com a política monetária permanecendo restritiva. Os impulsos serão importantes também, pois o carregamento estatístico estimado do PIB para 2026 (herança de 2025) é de apenas 0,1 p.p., bem inferior ao de 2025 (0,8 p.p.)”.
“Apesar do impulso fiscal, seu efeito deve ser mais limitado diante do crédito mais restrito, hiato do produto menos favorável e incerteza diante de um ano eleitoral, fatores que sugerem multiplicador menor do que em anos anteriores”.
“Riscos: desaceleração mais intensa da atividade levando a um aumento da dose do impulso fiscal com impacto na percepção de risco. Multiplicadores e efeitos indiretos diferentes do que o esperado. Impulso fiscal deverá sustentar o crescimento do PIB e contrabalancear os efeitos da política monetária restritiva”.
“Esperamos um impulso fiscal vindo dos entes subnacionais da ordem de 0,6% do PIB, principalmente dos estados. Parte do estímulo será devido à aprovação da PEC 66 (Emenda Constitucional 136), que deve abrir espaço de R$ 15 bilhões (0,1% do PIB) com menores pagamentos de precatórios. Estimamos que também possa ser gradualmente utilizado o caixa livre, entre R$ 40 e 50 bilhões. Nas empresas estatais, vimos ao longo de 2025 o maior déficit da série desde 2002. Na LDO 2026, criou-se exceção de R$ 10 bilhões à meta fiscal às empresas estatais. Assim, devemos ver o déficit próximo de R$ 10 bilhões”.
“Riscos: redução das receitas cíclicas e ligadas ao petróleo implicando em uma deterioração dos resultados primários. Maiores gastos das estatais, além do espaço aberto na LDO 2026”.
O desafio da dívida pública
“Desde o final de 2022 até novembro de 2025, a dívida bruta/PIB subiu 7,3 p.p. A perspectiva é de que continue a registrar alta em 2026, mesmo com a redução da taxa básica de juros ao longo do ano. O custo da dívida deve continuar subindo até meados do ano, para então começar a reduzir, tendo em vista maior nível de emissão de títulos em 2025”.
“O grande desafio será conter o crescimento real das despesas, que apresentam alta pouco abaixo de 5% acima da inflação, desde 2022 [foi de 2,4% em 2025]. Além disso, o deflator do PIB e os ganhos com operações de “swap cambial tendem a ser menos favoráveis em 2026. Assim, mesmo com o cumprimento do arcabouço fiscal, a pressão altista da dívida persiste”.
“Neste contexto, o país apresenta desafios para uma reancoragem fiscal e a possibilidade de realizar um ajuste fiscal da ordem de ao menos 2,5 p.p. do PIB nos próximos anos. Riscos: queda de receitas cíclicas aumentando a percepção de risco fiscal. Maiores pressões para o resultado nominal”.
O embate eleitoral
O Santander vê a “eleição competitiva com eleitorado cauteloso”, e frisa que, apesar de um ambiente econômico relativamente estável, pesquisas mostram que parte significativa do eleitorado segue preocupada com o poder de compra” e as “percepções relacionadas à segurança pública e ao acesso a serviços essenciais continuam presentes no debate público”.
“Nesse contexto ocorrerá a eleição presidencial de 2026, marcada pela possível repetição do acirramento observado no ciclo anterior. A expectativa é de disputa com margens apertadas, em linha com o registrado nas últimas eleições. Os dois principais polos políticos contam com bases de apoio consolidadas, mas também enfrentam altos níveis de rejeição, o que pode limitar o avanço de candidaturas alternativas. A permanência desse grau de polarização pode influenciar o comportamento do eleitor, inclusive em relação à taxa de comparecimento, que havia caído no segundo turno de 2022”.
“A amplitude das preocupações socioeconômicas, que mobilizam segmentos distintos do eleitorado, e a estabilidade das percepções já formadas nos principais campos políticos tornam a campanha eleitoral relevante para definir o resultado.”
“Riscos: Elevada competitividade pode alimentar propostas que aumentam riscos fiscais. Menor previsibilidade em meio a polarização, abrangência de preocupações e maior risco de abstenção”.
Apesar de um ambiente econômico relativamente estável, pesquisas mostram que parte significativa do eleitorado segue preocupada com o poder de compra. Além disso, percepções relacionadas à segurança pública e ao acesso a serviços essenciais continuam presentes no debate público. É nesse contexto que ocorrerá a eleição presidencial de 2026, marcada pela possível repetição do acirramento observado no ciclo anterior. A expectativa é de uma disputa com margens apertadas, em linha com o que foi registrado nas últimas eleições. Os dois principais polos políticos contam com bases de apoio consolidadas, mas também enfrentam níveis relevantes de rejeição, o que pode limitar o avanço de candidaturas alternativas. A permanência desse grau de polarização pode influenciar o comportamento do eleitor, inclusive em relação à taxa de comparecimento, que havia diminuído no segundo turno de 2022. A amplitude das preocupações socioeconômicas, que mobilizam segmentos distintos do eleitorado, e a estabilidade das percepções já formadas sobre os principais campos políticos tornam a campanha eleitoral especialmente relevante para a definição do resultado. Riscos: Elevada competitividade pode alimentar propostas que aumentam riscos fiscais.