O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

[email protected]

O OUTRO LADO DA MOEDA

As ligações perigosas da Reag e Master

...

Publicado em 16/01/2026 às 18:31

Alterado em 16/01/2026 às 19:55

Daniel Vorcaro Foto: divulgação/Banco Master

As revelações que vêm à tona na liquidação, quinta-feira (15), pelo Banco Central, da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. (nova denominação de Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.) explicam como as relações intrincadas dos gestores de investimentos alimentavam as reações da Faria Lima (centro financeiro brasileiro) contra as propostas do Ministério da Fazenda para acabar com a isenção de tributação sobre Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito Agropecuário (LCAs).

Os dados de novembro da Anbima sobre o patrimônio administrado pelos gestores de investimento (atendendo às regras que desligam instituição liquidada pelo BC) excluíram a CBSF/Reag do “ranking” mensal, liderado pela BB Asset Management, com R$ 1.768,7 bilhões, mas que seria ultrapassado pelos R$ 1.970 bilhões do Itaú (R$ 1.445,2 bilhões + os R$ 524,7 bilhões da Intrag DTVM). O 3º posto seria do BTG-Pactual (R$ 909,3 bilhões), contra R$ 813,8 bilhões do Bradesco, que mantém a posição com os R$ 444,9 bilhões da controlada BEM DTVM. A Reag estava entre o Santander e BNY Mellon DTVM.

Nos dados de setembro, a Reag teve o primeiro baque com a revelação, pela “Operação Carbono Oculto” deflagrada em agosto pela Polícia Federal, de que a gestora tinha cerca de 12 dos seus 40 fundos que movimentavam R$ 350 bilhões vinculados a lavagens de dinheiro do crime organizado. Quanto mais títulos de renda fixa puderem ser negociados sem pagamento de impostos, mais fáceis e ágeis são as operações de lavagem de dinheiro do crime organizado pelo mercado financeiro.

Outro dado que chama a atenção é o fato de que os Fundos de Investimento de Direitos Creditórios (FDICs) tenham fechado 2025 com patrimônio de R$ 741 bilhões. As interligações entre as Instituições de Pagamento, que cresceram de modo exponencial com a abertura do mercado financeiro às “fintechs” na gestão Roberto Campos Neto no Banco Central (o próprio ex-presidente, após o fim da quarentena, em julho de 2025, assumiu alto cargo na diretoria do Nu (bank), na verdade uma instituição de pagamento).

Por isso, o mercado financeiro e as “fintechs” reagiram de forma virulenta quando a Receita Federal repisou, em dezembro de 2024 (conforme instrução normativa de setembro), que, a partir de janeiro de 2025, as instituições financeiras, as “fintechs” e os cartões de crédito deveriam informar operações acima de R$ 5 mil. Como se vê, a reação encobria a defesa de operações escusas, que precisam ser atacadas pela Receita.

Pelo princípio da isonomia tributária, não é possível o mercado financeiro conviver com práticas lesivas ao fisco e aos contribuintes cumpridores de suas obrigações tributárias. Mais que lesar o fisco – e a boa-fé da maioria da sociedade –, a sonegação e a convivência paralela de regimes legais com ilegais não podem ser moralmente aceitáveis.

Os meandros do caso Master, como já indicamos aqui nesta coluna, pela descrição da auditoria da KPMG, encobria a incorporação ao grupo de Daniel Vorcaro de empresas e investimentos de difícil liquidez e avaliação complexa, pela opacidade das negociações

Há informações escandalosas sobre triangulação de empréstimos e até a realização de um alto empréstimo da Reag com um técnico da seleção de futebol da Índia. O que só pode ser explicado pelo fato do fundador da Reag, João Carlos Mansur, ter muitas relações com clubes de futebol (Palmeiras e Coríntians). As relações do Banco Master com empresários e políticos são ainda mais alarmantes.

Por tudo isso, fica mais estranha a dupla interferência (em princípio) retraída do Tribunal de Contas da União, na figura do ministro Jonathan de Jesus, e do Supremo Tribunal Federal, na atuação do relator do caso Master, ministro Dias Toffoli. Ambos andaram restringindo e dificultando a coleta de provas e as novas diligências da PF. Estão conseguindo amarrar a ação da PF.

A Câmara bem que tentou limitar (no projeto do ex-secretário de segurança de SP, o deputado federal Guilherme Derrite) a livre ação da PF, que teria de obter autorização prévia dos governos estaduais. Tanta burocracia e restrições só facilitam a atuação de quadrilhas organizadas em operações financeiras e sumiço de vestígios do crime de novas diligências (com vazamento, tão comum nas polícias estaduais, por policiais fazendo o jogo do crime organizado).

O PIB do BC reage
O crescimento de 0,7% no IBC-Br de novembro, o PIB do Banco Central, surpreendeu as previsões do mercado financeiro (mediana de 0,4% e 0,3% da consultoria 4Intelligence). Interrompeu sete meses de declínio. Um dos fatores do crescimento veio dos Serviços (+0,6%), puxado pelo bom desempenho do comércio. A indústria encolheu 0,8%. Há expectativas sobre dezembro e janeiro, com o impacto da isenção do IR até quem ganha R$ 5 mil.

Deixe seu comentário