O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Uber (+56,08%) é um dos vilões da inflação 2025

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Publicado em 09/01/2026 às 15:09

Alterado em 09/01/2026 às 19:00

Uber REUTERS/Shannon Stapleton

Com alta 12,31%, a energia elétrica residencial foi o item de despesa que mais pesou (0,48 pontos de percentagem) na inflação de 4,26% do IPCA em 2025, divulgada hoje pelo IBGE, com o índice fechando dezembro com alta de 0,33% (maior que os 0,18% de novembro, mas inferior aos 0,52% de dezembro de 2024). Porto Alegre teve alta de 23,50% na energia e São Paulo, de 18,64%. Os serviços continuaram subindo na faixa de 6,01%

Sob pressão da energia elétrica e aluguéis (6,00%) a Habitação subiu 6,79% no ano e teve o maior peso (1,02 p.p.) na inflação do IPCA (famílias com renda até 40 salários-mínimos – R$ 60.720), superando a Alimentação e Bebidas que subiu 2,95% (0,64 p.p), bem menos que os 7,69% de 2024. Com altas de 6,42% nos planos de saúde, de 5,42% em produtos farmacêuticos, e 4,23% em higiene pessoal, Saúde e Cuidados Pessoais subiu 5,59% e contribuiu com 0,75 p.p. na inflação de 4,26%, também superando a Alimentação e Bebidas.

Transporte por aplicativo (Uber) sobe 56,08%

No aumento de 2,30% em combustíveis, liderada pela alta de 7,15% do etanol, a mistura de 30% do etanol anidro na gasolina evitou que a variação positiva de 1,85% da gasolina (9,71% em 2024) fosse ainda menor. As passagens aéreas tiveram aumento de 7,85% (após queda de 22,20% em 2024), mas ao lado dos reajustes de 5,37% nas passagens de trens, de 5,58% nos ônibus intermunicipais e de 4,04% nos interestaduais, chama a atenção o reajuste de 8,18% nas tarifas de integração do transporte público.

Escandaloso mesmo foi o aumento de 56,08% nas tarifas de transporte por aplicativo (Uber etc), comparado ao reajuste de 9,46% nas tarifas do táxi. O resultado é que o item Transporte, com peso de 0,63 p.p. quase iguala os 0,64 p.p. da Alimentação e Bebidas, que costuma ser o item de mais peso no IPCA.

Arroz, feijão e carne seguram alimentação

A Alimentação em domicílio, garantida pelas baixas de 26,56% no arroz, de -12,87% no leite longa vida, de 13,65% na batata inglesa, de 21,04% no azeite de oliva (queda nos preços internacionais ampliada pela baixa do dólar), pela queda de 15,68% no alho e a redução de 32,18% nos preços do feijão preto, teve um recuo espetacular dos 8,23% de 2024 para 1,43% e fez o item Alimentação e Bebidas desacelerar de 7,69% em 2024 para 2,95%.

Fernando Gonçalves, gerente da pesquisa do IPCA do IBGE, destacou que o a que “esse é o quinto menor resultado da série desde o Plano Real (em 31 anos). Os menores índices anteriores foram: 1998 (1,65%), 2017 (2,95%), 2006 (3,14%) e 2018 (3,75%)”. Por seis meses consecutivos (junho a novembro), a alimentação no domicílio registrou variação negativa, acumulando queda de 2,69%. Nos demais meses, a alta acumulada foi de 4,23%.

Outro item que segurou os preços da alimentação foi a carne bovina, que subiu apenas 1,22% no ano passado. O desempenho da carne, do arroz, da batata e do feijão e do óleo de soja (+3,99%) deveria moderar e até baixar os preços da refeição, com promoções na feijoada e no arroz de carreteiro. Entretanto, o café, que subiu 39,68% em 2024 e chegou a 70% no acumulado de 12 meses no primeiro trimestre, foi desacelerando os preços no final do ano e fechou 2025 com alta de 35,65%. Curiosamente, o café solúvel subiu apenas 25,47% Achocolatados e bombons subiram 27,12% e o pão francês, 5,36%. Então, como justificar aumentos de 11,35% no lanche e de 4,97% na refeição?

Os grandes vilões da inflação

O IBGE apontou os 10 itens, entre os 377 que pesquisa no IPCA, como responsáveis por mais da metade (2,33%) ou 54,36% da inflação acumulada de 4,26% em 2025. A lista é baseada no peso de cada item no orçamento das famílias que ganham até 40 salários-mínimos. A energia elétrica residencial teve alta de 12,31% e contribuiu com 0,48 ponto percentual no IPCA de 4,26%. O segundo item foram os cursos regulares (+6,54% e 0,29 p.p.), vindo a seguir os Planos de Saúde (6,42% e 0,26 p.p.). Os aluguéis residenciais subiram 6,00% (0,22 p.p.) e o Lanche, com alta de 11,35%, pesou 0,21 p.p.

Os produtos farmacêuticos subiram 5,42% (0,19 p.p.), a refeição ficou 4,97% mais cara (0,18 p.p.), com mesmo impacto do café moído, que subiu 35,65%. Os artigos de higiene pessoal subiram 4,23% (0,17 p.p.) e as despesas com empregado doméstico aumentaram 5,36% (0,15 p.p).

Mas outros itens tiveram reajustes surpreendentes. Com os reajustes das tarifas lotéricas e o avanço dos jogos por aplicativos, os jogos de azar ficaram 15,17% mais caros no ano passado. Os serviços de correios (a ECT passa por grande crise) também tiveram reajuste de 12,31%, como a energia elétrica residencial. Nos serviços, além do aumento injustificável de 56,08%). As mensalidades de clube subiram 10,07%, as despesas em casas noturnas e as tarifas de hospedagem subiram exatos 9,61%! Os pacotes turísticos subiram 7,09% e os serviços de manicure ficaram 9,93% mais caros no ano passado.

INPC sobe 3,90% e reduz reajuste de aposentados

Enquanto o reajuste do salário-mínimo, fixado em R$ 1.621, com aumento de 6,78%, teve por base o reajuste de 4,18% em 12 meses no IPCA-15 até dezembro, e mais um reajuste de 2,5% referente ao PIB de dois anos atrás, o INPC de 3,90% fechado em dezembro de 2025 vai resultar em reajustes menores (mesmo com o PIB) para os aposentados que ganham acima do piso mínimo, a partir de janeiro (valores corrigidos no começo de fevereiro).

O conselho aos aposentados que enfrentam correção bem menor que os 4,26% de aumento do IPCA é adaptar sua cesta de despesas ao perfil do INPC (que mede as despesas das famílias que ganham até cinco salários-mínimos R$ 8.105) e menos ao IPCA que mede as despesas das famílias com renda até R$ 64.840 mensais). Ou seja, cortando despesas supérfluas. Mais alimentação em domicílio e menos despesas em bar, lanchonete e restaurante.

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