O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

[email protected]

O OUTRO LADO DA MOEDA

‘Fakes’ do Master são ensaio para eleição

Publicado em 07/01/2026 às 15:46

Campos Neto gerou o ovo da serpente Foto: José Cruz/Agência Brasil

A impressionante enxurrada de “fake news” envolvendo o caso do Banco Master, com insinuações sobre a legitimidade da intervenção do Banco Central, que foram assimiladas pelo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan de Jesus, são apenas o ensaio do que poderá acontecer no processo eleitoral de 2026. A enxurrada de notícias falsas disparadas (e acolhidas, em troca de remuneração) por “influencers” põe em xeque a própria credibilidade da imprensa regular, que, por descuido, também embarca em falsas versões.

Como os leitores do JORNAL DO BRASIL “on line” devem perceber, este colunista, aqui na trincheira de “O Outro Lado da Moeda” ou em “Coisas da Política”, sempre deixou de lado as aleivosias contra o Banco Central e as insinuações, por tabela, contra o ministro Alexandre de Moraes, por ter, em janeiro de 2024, o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, sido contratado pelo banqueiro Daniel Vorcaro para defender os interesses do Banco Master.

O conhecimento dos meandros do mercado financeiro, ao longo de 54 anos de cobertura, que aguçaram meu sexto sentido, me leva a fazer investigações prévias sobre certas versões. São mais do que evidentes, desde o fim de 2023, os interesses inconfessáveis de Daniel Vorcaro de salvar, a qualquer custo, a instituição que crescera vertiginosamente no governo Bolsonaro, mas vinha fazendo água. Era imenso “iceberg” à deriva ameaçando o Sistema Financeiro Nacional, via exigência de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) a seus papéis, sem liquidez no resgate até o limite de R$ 250 mil.

Campos Neto gerou o ovo da serpente
Uma análise retrospectiva das decisões do Banco Central, sob o comando do ex-presidente Roberto Campos Neto durante a pandemia da Covid-19 mostram que o BC não apenas manteve os juros baixos da Selic por muito tempo (a taxa estava em 4,25% até 17 de março de 2020, quando foi reduzida para 3,75% em 18 de março). Na ocasião, para manter a liquidez do sistema, diante da interrupção do fluxo financeiro internacional, o BC adotou um amplo pacote de redução de encaixes compulsórios e de medidas prudenciais (os limites alavancagem foram drasticamente elevados em relação ao capital e reservas e as provisões para devedores duvidosos reduzidas).

Mais do que isso, já em 5 de agosto de 2020 a Selic foi reduzida a 2,00% ao ano e assim permaneceu até 17 de março de 2021. Quem conhece os meandros do mercado financeiro sabe que “dinheiro na mão é vendaval” e salvo conduto para operações financeiras tipo “xepa da feira”. É inegável que a Covid teve seríssimos impactos sobre a economia, o meio empresarial e o emprego (a prática do “home office” segue institucionalizada em muitas empresas e ajuda a explicar o esvaziamento econômico do centro do Rio de Janeiro, com milhares de funcionários públicos e de estatais em trabalho remoto). Com a queda de movimento fecharam comércios, bares, restaurantes e agências bancárias, tendência que se acentuou no pós-pandemia, aos bairros, quando as transações bancárias passaram a ser feitas via celular.

Vorcaro montou uma rede de empresas atreladas a seu conglomerado financeiro, muitas delas compradas a baixo custo diante das dificuldades financeiras de seus antigos controladores. Mas a escalada da Selic (saltou de 2,00% ao ano, em 17 de março de 2021, para 11,75% ao ano, em 17 de março de 2022) começou a criar mais dificuldades de captação para Vorcaro manter a engrenagem funcionando.

Em 2022 a Selic subiu até 13,75% ao ano em 4 de agosto e assim permaneceu até 2 de agosto de 2023, quando o Comitê de Política Monetária deu início a um ciclo de baixa para 13,25% que estacionou em 10,50% ao ano (de 9 de maio de 2024 a 1º de agosto de 2024). Nesse sobe e desce de taxas, o Master, para garantir a captação, adotava políticas agressivas de oferecer remuneração pelos seus CDBs de 110% a 120% do rendimento do CDIs.

Mas a escalada no dólar no segundo semestre de 2024, ainda na gestão de Roberto Campos Neto (Gabriel Galípolo só assume a presidência em 1º de janeiro de 2025), pegou o Copom atrasado e o forçou a uma escalada frenética a cada 45 dias de intervalo entre as reuniões: em 18 de setembro de 2024 o Copom eleva a Selic em 0,25% para 10,75%, em novembro, dobra a alta para 11,25% ao ano e em dezembro salta um ponto para 12,25%. A Selic não conseguia conter o dólar nem a inflação, que disparou.

E o Master começou a fazer água, pagando até 140% do CDI com ajuda de “players” de alto peso no mercado, como a XP, o BTG-Pactual e o Nu(bank) para colocar seus papéis junto a fundos de investimento e de pensão (com comissões adiantadas). Na troca de guarda no BC, o piso dos juros subiu mais um ponto em janeiro para 13,25% e sobe novamente para 14,25% na reunião de 19 de março de 2025, escalando para 14,75% em maio e 15% em junho (onde permaneceu até os dias de hoje).

Entre março e maio de 2025, os problemas de liquidez do Master se tornaram mais evidentes e começou a ser negociada a fusão com o Banco Regional de Brasília, com cessões de crédito do Master para o banco do Distrito Federal. Nas negociações, sob a lupa do Banco Central, foram descobertas pela diretoria de Organização do então diretor Renato Brito Gomes, lastros inconsistentes que somaram mais de R$ 12 bilhões, motivo pelo qual o BC vetou a fusão em setembro do ano passado. As pressões e boatos contra Brito Gomes (o mandato expirou em 31 de dezembro) foram abaixo da cintura e o Banco Central decretou a liquidação do Master em 18 de dezembro.

O 'VAR' do TCU
Parecia que o jogo estava encerrado, mas houve a tentativa de acionamento do VAR por Vorcaro, que nunca se conformou com a liquidação. O Supremo Tribunal Federal avocou o processo para si, e o ministro Dias Toffoli, indicado relator por sorteio, depois da descoberta de documento de uma negociação, não concluída, com deputado federal do PL da Bahia, retirou o processo contra Daniel Vorcaro da Primeira Instância para o STF. E ainda houve a intromissão indevida do TCU no caso.

Faço analogia com a Lava-Jato, quando, em 2013 e 2014, o então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro, avocou para si as investigações contra favorecimento de empreiteiras ao ex-presidente Lula. O fórum natural teriam sido as Varas Federais de São Paulo, onde Lula tinha residência ou Brasília. Pela declaração de “incompetência” do fórum, o processo foi anulado pelo STF e a prisão de Lula foi anulada após 580 dias de cumprimento da pena.

O TCU está se intrometendo em seara que foge à sua competência, já disseram ministros do STF. Mas até a bola voltar a campo, a interferência do “VAR” pró Vorcaro pode salvar alguns milhões ou bilhões no futuro em disputas judiciais contra o Banco Central. Na eleição é a consciência do eleitor que estará ainda mais exposta com a malícia do uso em massa da IA.

Deixe seu comentário