O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Mercados: Brent sobe pouco, ouro dispara

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Publicado em 05/01/2026 às 14:55

Alterado em 05/01/2026 às 16:34

instalações da PDVSA, estatal do petróleo venezuelana Foto: reprodução

Para o ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, “os dados de mercado desta manhã ajudam a separar retórica de realidade. Apesar do choque político e simbólico da captura de Maduro (no sábado), os mercados globais abriram em alta e o petróleo recuou levemente. Isso confirma um ponto essencial: não há choque físico relevante de oferta”. Mesmo com as maiores reservas no subsolo (300,9 bilhões de barris), a Venezuela produz hoje menos de 1% do petróleo global. O Brasil produz três vezes mais. O mercado entende isso, diz.

Ele acrescente que “o comportamento dos títulos do tesouro americano indica leve aumento de prêmio de risco, mas nada que sugira pânico ou expectativa de conflito prolongado. A Opep+ também reforçou essa leitura ao anunciar manutenção da produção. Ou seja: o sistema energético global não entrou em estresse”.

Mas a movimentação comparativa entre o dólar, as cotações do petróleo e a dos metais, indicava uma busca de investidores e países por ativos mais sólidos, como o ouro e a prata. No Brasil, o dólar era cotado às 11:50 a R$ 5,4420, alta de 0,38%. Já o barril do Brent para entrega em março era cotado a US$ 61,47, com alta de 1,15%, às 11:40 (hora de Brasília) mas o salto nos preços do ouro (o contrato de fevereiro era negociado no mesmo horário, a US$ 4,434, com alta de 2,46% no dia e de 4,48% no mês) e a prata para entrega em março superava os US$ 76, com alta de mais de 7% no dia e de 28,4% no mês

EUA querem bloquear acesso à China e Irã

Para Jean Paul, um estudioso dos mercados energéticos globais, a reação dos mercados reforça a tese central que vem ficando cada vez mais explícita nas falas oficiais dos Estados Unidos, lembrando que o Secretário de Estado Marco Rubio foi claro: “Não precisamos do petróleo da Venezuela. O que não vamos permitir é que a indústria petrolífera venezuelana seja controlada por adversários dos EUA”. Para Prates, isso é praticamente uma confissão estratégica.

“O objetivo não é produzir mais petróleo, nem controlar preços no curto prazo. É negar acesso. Controlar o destino, o financiamento e a governança da energia venezuelana, impedindo que China, Rússia e Irã consolidem influência no Hemisfério Ocidental”.

Por isso fala-se agora em “quarentena do petróleo”, uso de bloqueios seletivos e influência política, não em ocupação direta. A energia vira instrumento de contenção geopolítica, não de maximização econômica.

Nesse contexto, também chama atenção a retórica crescente de Trump em relação a outros países da região, como a Colômbia. Isso indica que o precedente não se encerra na Venezuela. A noção de “zona de influência” está sendo verbalizada sem constrangimento.

'Energia voltou a ser poder'

Para o ex-presidente da Petrobras, “num mundo em que grandes produtores passam a ser contidos ou alinhados à força, o Brasil surge como origem segura, institucionalmente estável e fora de sanções. Isso aumenta nosso peso no tabuleiro energético global, especialmente diante da China. Ao mesmo tempo, eleva a responsabilidade: energia deixou de ser apenas mercado, voltou a ser poder”

Ele alerta que “O risco não é o barril hoje. É o precedente amanhã”. Por isso, considera que a resposta brasileira “não pode ser ideológica nem reativa. Precisa ser estratégica, coordenada e baseada em soberania energética, política externa ativa e uso inteligente dos nossos ativos, especialmente a Petrobras”.


Venezuela tem 8 vezes mais óleo que EUA

Alguns dados saltam aos olhos neste quadro resumido da geopolítica mundial do petróleo. Tanto Estados Unidos (11ª reserva) quanto a China (12ª), as duas maiores potências mundiais, têm baixíssimas reservas e dependem da produção alheia. No momento, com o declínio da produção venezuelana desde o governo Chaves, quando a PDVSA assumiu poços de companhias americanas (um dos motivos da cobrança de Donald Trump), a Venezuela produz pouco mais de um bilhão de barris para a exportação, sendo mais da metade destinada à China.

A Rússia e o Irã são grandes supridores da China e da Índia. E a posição do Canadá, como dono da 3ª reserva, após a Arábia Saudita, explica a cobiça de Donald Trump, que queria fazer do vizinho o 51º estado norte-americano.

Mas a Venezuela, além de potencial em terras raras, tem ainda grandes reservas de bauxita (matéria-prima do alumínio), carvão, minério de ferro e ouro. Estima-se que a Amazônia venezuelana esconda em seu subsolo até 10 mil toneladas de ouro.

Antes do ataque, Focus era otimista

A primeira pesquisa Focus de 2026, encerrada sexta-feira 2 de janeiro pelo Banco Central e divulgada hoje, tem pouca validade. Primeiro porque a maioria das respostas é do ano passado e a totalidade das previsões é anterior às ações do governo Trump, que bombardearam a Venezuela e capturaram o presidente Nicolás Maduro e senhora, no Palácio, na madrugada de sábado, em Caracas.

Ainda assim, a leitura dos últimos cinco dias úteis era mais otimista quanto a inflação e a Selic em 2026. Para o IPCA, embora a mediana das respostas tenha indicado alta de 4,05% para 4,06% no IPCA, a mediana dos últimos cinco dias caiu para 3,99%. E a Selic, mantida em 12,25% na mediana para dezembro, cai para 12,00% na mediana dos últimos cinco dias úteis

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