O OUTRO LADO DA MOEDA
Após RTI, Itaú vê Selic em 13,50% em agosto
Publicado em 29/06/2023 às 14:42
Alterado em 29/06/2023 às 14:42
. Itaú
Após a divulgação do Relatório Trimestral da Inflação do 2º trimestre, nesta 5ª feira pelo Banco Central, o Departamento de Estudos Macroeconômicos do Itaú considera que o RTI “mostra projeções consistentes (...) com início de um ciclo de corte de juros a partir de agosto”. O cenário base do Itaú para 2023 contempla quatro cortes (2 reduções de 0,25 p.p., com início em agosto, seguidas por 2 cortes de 0,50 p.p.), levando a Selic a 12,25% a.a. em dezembro.
Um dos fatos que chamam a atenção a cada divulgação dos RTIs são os erros do Banco Central em relação às suas projeções de inflação e o IPCA registrado. No trimestre terminado em maio o erro foi de 0,23 ponto percentual em relação ao projetado no RTI de março, assinala o Itaú. A surpresa foi causada, em grande medida, pelos preços de alimentação no domicílio e pelo componente ex-subjacente da inflação de serviços, como passagem aérea (item tipicamente mais volátil) e serviços de comunicação. [no caso da inflação de alimentos, era óbvio que os números da supersafra derrubariam os preços].
Já a inflação de preços administrados surpreendeu para cima, com contribuição relevante das passagens de ônibus urbanos, energia elétrica e preços de gasolina. Relativamente ao curto prazo, o BC espera variações de -0,08% em junho, 0,29% em julho, 0,25% em agosto e 0,26% em setembro, levando a inflação para 5,4% no acumulado de 12 meses ao final deste período.
Erros levam a mais juros
A magnitude dos erros do Banco Central costuma ser desdenhada no Brasil, mas ela é altamente relevante (seja para cima ou para baixo). É com base nas estimativas de inflação, balizadas pelos modelos próprios do BC e reforçado pelas expectativas semanais do mercado auscultadas na Pesquisa Focus a cada 6ª feira, que o Banco Central vai ajustando a pilotagem das taxas de juros nas operações diárias do open market (com os ajustes a cada 45 dias nas reuniões do Comitê de Política Monetária) para colocar a trajetória da inflação dentro dos limites das metas traçadas pelo Conselho Monetário Nacional.
Quando o BC superavalia a inflação e prescreve dosagem de remédio (os juros), a dose acaba sendo cavalar e afeta toda a sociedade (as famílias e empresas, de todos os portes) acabam pagando mais despesas financeiras que as necessárias ao sistema financeiro. Em outras palavras, na tentativa de esfriar a inflação, o Banco Central esfria a economia e arbitra mais transferência de renda dos devedores para os credores, não só o sistema financeiro, mas toda a sorte de rentistas, ampliando a concentração de renda.
A política monetária, portanto, não pode ser tratada como uma questão essencialmente técnica, pois afeta toda a sociedade.
Redação do Copom amplia dubiedade
Já escrevi aqui contra a falta de clareza do “coponês”, uma sub-linguagem do economês. Quem lê os comunicados do Federal Reserve, percebe que além da clareza do linguajar em inglês, que não usa de subterfúgios, o Banco Central dos Estados Unidos prima pela transparência dos votos dos 12 membros do Federal Open Market Committee (FOMC), o colegiado no qual foi inspirado o Copom, para definir os votos (mesmo os divergentes da decisão da maioria, pois podem indicar o risco de mudança de cenário, salvo se estiverem errados. De qualquer forma, é uma questão que deve ser levada em conta.
A ata da última reunião mostrou que o Copom adotou tal defensiva perante a política econômica do governo que – ultrapassado pelos fatos (a inflação e o câmbio se comportam abaixo do que previa o BC, forçando a baixa dos juros, pois a manutenção da Selic está gerando sucessivos aumentos dos juros reais – descontada a inflação), o Copom cometeu o erro de omitir no comunicado a tendência da maioria pró corte dos juros em breve (o que se viu na ata, podia ter sido antecipado no comunicado).
Mas o exemplo da contrariedade do Copom, que adotou linha quase hostil ao governo Lula, em relação aos fatos pode ser lido nas entrelinhas deste confuso parágrafo das páginas 37 e 38, quando o RTI tenta justificar seus erros nas projeções de inflação (e da Selic, por consequente):
“Também houve algum recuo das expectativas de inflação para prazos mais longos, que estão além do horizonte relevante para a política monetária, que pode estar associada a incertezas menores em relação à situação fiscal e à
A mim, parece um absurdo o Copom justificar ser erros por ter embarcado em suposições: “incertezas menores em relação à situação fiscal” significa falta de diálogo do Banco Central para entender as intenções do Arcabouço Fiscal; “percepção de que a possível elevação da meta de inflação para os próximos anos ficou menos provável”, trata da questão da revisão das metas da inflação.
Trata-se de uma prerrogativa do Conselho Monetário Nacional, órgão máximo das decisões da economia, presidido pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e integrado pela ministra do Planejamento, Simone Tebet, e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Por que Campos Neto não procurou esclarecer essa questão mais cedo? De quem foi o erro de não dialogar com o governo para definir seu plano de vôo que furou em vários itens? Parece claro que foi do próprio Banco Central.
A propósito, o CMN se reune logo mais à tarde para ficar a TJLP (do BNDES) para o 3º trimestre e definir a meta de inflação para 2026 (em princípio, deve seguir os 3,00% de 2024-25, com tolerância de 1,50 ponto percentual, elevando o teto a 4,50%). A novidade seria alterar a meta calendário (dezembro) para horizonte contínuo de 12 meses, o mesmo já adotada para a política fiscal.
Vejam alguns exemplos de erros de projeções, citadas no próprio RTI:
(...)”os preços de frutas se beneficiaram da melhora nas condições climáticas; o preço do arroz arrefeceu com a safra do cereal no início do ano; e óleos e gorduras seguiram em queda, em linha com a evolução do óleo de soja no atacado. Preços da carne bovina também seguiram em queda, com repasse dos preços menores do boi gordo, já mencionados”. [não era previsto?]
“No sentido contrário, leite e derivados apresentaram alta mais forte do que no trimestre anterior. Esse movimento, típico do período, é menos intenso do que o observado em 2022, quando a oferta foi afetada por seca e queda na produtividade dos animais. Relatos do setor também indicam que a oferta de produtos importados tem limitado a alta de preços dos lácteos neste ano”.
“Os preços de bens industriais também desaceleraram no período, com variação de 0,97% no trimestre até maio, ante 1,94% no trimestre encerrado em fevereiro”. [uma queda de mais de 50%]
“Os preços da gasolina responderam à reoneração parcial de impostos federais no início de março. O impacto da reoneração foi atenuado por reduções no preço ao distribuidor pela Petrobras em março (-3,9%) e em maio (-12,6%). A mediana das expectativas para a inflação em 2023 apresentou queda desde o Relatório anterior, passando de 5,95% para 5,12%, segundo o relatório Focus”.
Desde a campanha, Lula prometia “abrasileirar” os preços dos combustíveis.