O OUTRO LADO DA MOEDA
Para mercado, o Copom está à deriva
Publicado em 28/06/2023 às 11:54
A falta de clareza e de coerência entre o comunicado do Copom após a renião do dia 21 e a íntegra da Ata, divulgada ontem (27) irritou o mercado financeiro. Mas os economistas e operadores evitam críticas abertas ao Banco Central, temendo retaliações, quando precisarem de liquidez do Demab, o departamento que controla a mesa de operações do Banco Central na compra e venda de títulos públicos no mercado aberto.
O Comitê de Política Monetária do Banco Central, mais conhecido como Copom, foi criado para exercer a política monetária visando o cumprimento das metas de inflação – a âncora da política monetária criada em março de 1999. Em reuniões mensais (e desde 2006 a cada 45 dias) o Copom fixa a taxa básica de juros (Selic) e anuncia as diretrizes da política monetária visando levar a inflação ao centro da meta nos próximos 18 meses. No intervalo das reuniões, o BC atua diariamente nas operações de mercado aberto, na compra e venda de títulos públicos federais para ajustar a liquidez e a curva dos juros.
Os comunicados do Copom após cada reunião, quando é anunciada a decisão do colegiado (sempre às 4[s feiras), costumam ser sucintos, mas não podem ser herméticos a ponto de desnortear o mercado. Como as operações no mercado financeiro são concentradas em transações futuras, a boa administração das expectativas (com relação à taxa de inflação, bem como a taxa de juros capaz de recolocar ou manter a inflação no centro da meta), é muito importante que o Banco Central tenha sintonia estreita com o mercado quanto as expectativas. Eventuais dúvidas são desfeitas na semana seguinte, quando o BC divulga na 3ª feira a Ata da reunião do Copom.
As expectativas de inflação vão se formando ao longo do tempo. Choques externos (como o do fenômeno El Nino, a Covid-19 e a invasão da Ucrânia pela Rússia) mexem muito com as expectativas de inflação em relação às metas. E, como as metas são fixadas com 30 meses de antecedência – a de 2026 será fixada nesta 5ª feira pelo Conselho Monetário Nacional, que é presidido pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto – muitas vezes fatores externos tornam mais árduo ou mais fácil a gestão do Banco Central na administração de expectativas para que o mercado tenha credibilidade na ação do Banco Central para o alcance das metas.
No linguajar do Copom, que tem termos mais cifrados que o vocabulário econômico habitual, vulgarmente chamado de “coponês”, uma das palavras-chave usadas pelo Banco Central é “ancoragem das expectativas”.
Na minha experiência de mais de meio século na cobertura econômica, especialmente na área financeira, acho muita pretensão imaginar que modelos macroeconômicos consigam antecipar a marcha da economia. Servem para balizar, mas estão sempre sujeitos a imprevistos. No Brasil é fácil prever safras grandes ou perdas de safras de grãos. São lavouras de ciclo longo (a soja tem só uma safra, o milho e o feijão dão duas e três safras, respectivamente).
Os choques climáticos de chuvas, enchentes, geadas ou estiagem prolongada sobre hortifrutigranjeiros têm impacto forte na inflação. Como são lavouras de ciclo curto, há possibilidade de reversão em cinco a seis meses. Os impactos, contudo, são mais difíceis de ser atenuados pela política monetária. Do mesmo modo, os preços administrados, sejam os combustíveis, antes atrelados na PPI aos preços internacionais, atualizados pelo câmbio, sejam as demais tarifas de reajustes anuais, há todo um calendário para diluir os impactos ao longo de cada mês. Mas sempre surge uma surpresa, de fundo climático.
Por isso acho um pouco exagerado o Banco Central levar muito a sério as previsões das Pesquisas Focus para além de um horizonte de 24 meses. As pesquisas balizam 2023 (com expectativas para os indicadores macroeconômicos de dezembro, para os dados de IPCA, IGPs, Selic e Câmbio dos três meses) e ainda os grandes dados macros de 2024, 2025 e 2026 (ainda não definidos). Geralmente os dados apontados pelo CMN são tidos como guias pelas mais de 150 instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisa que respondem às enquetes mensais da Focus.
Minhas observações sobre as pesquisas são de que elas dão algumas respostas efetivas até os dois primeiros anos. Dificilmente fogem dos parâmetros das metas de inflação, que são de 3,25% em 2023 + tolerância de 1,50%=4,75%; 2024 (3,00%+1,50%=4,50%); e 2025 (3,00%+1,50%=4,50%). Para 2026, imagina-se que o CMN manterá os 3%, apenas alterando a periodicidade da medição (de dezembro para 12 meses contínuos).
O feitiço contra o feiticeiro
Apenas em períodos curtos (até seis meses) os parâmetros lançados nos anos anteriores vão se ajustando às expectativas presentes. Neste sentido, a tal da “ancoragem ou desancoragem das expectativas”, tão destacada pelo Banco Central, parece ter sido um feitiço que se voltou contra o feiticeiro.
O Comitê de Política Monetária se arvorou tanto da independência do Banco Central que desdenhou das intenções do governo Lula para manter o crescimento e a estabilidade dos preços sem necessariamente seguir a linha não apenas independente do BC, mas quase hostil. Ao ficar distante e cético em relação às intenções do governo Lula, Campos Neto criou um campo magnético explosivo com o presidente da República, que age politicamente.
Campos Neto, que atuou politicamente a favor da reeleição de Bolsonaro, ficou numa situação incômoda. Ao reagir contra as tentativas de ingerência, extrapolou a ação meramente monetária do Banco Central e do Copom e fez do Copom uma espécie de trincheira política contra o governo.
Grande erro político de comunicação
Foi enorme erro político. Com a diretoria incompleta, a diretoria de Política Monetária, vaga desde que expirou o mandato de Bruno Serra, foi acumulada pelo jovem e inexperiente Diogo Guillen, de Política Econômica. No afã de ressaltar a ortodoxia monetária, o BC, que já errara a dose no ano passado (a inflação caiu pela tesoura de Paulo Guedes nos impostos de combustíveis, sobretudo gasolina, energia elétrica e comunicações), voltou a errar este ano.
Não acertou na intensidade prevista para o IPCA pelo BC este ano, porque o governo Lula não repôs 100% da carga tributária e ainda aproveitou a baixa dos alimentos, gerada pela supersafra, para adotar nova política de preços da Petrobras que, ajudada pelo dólar em baixa (os altos juros no país atraem dólares especulativos) gerou inflação bem menor do que supôs o Copom.
Entretanto, o Copom não apenas não reconheceu o comprometimento do governo com uma política fiscal, responsável, nem a baixa da inflação e manteve o tom rígido da comunicação da política monetária. O Comunicado do Copom, após a 255ª reunião manter, “por unanimidade” a taxa Selic em 13,75% foi um dos maiores erros de comunicação da autoridade monetária.
Como se viu íntegra da reunião, nesta 3ª feira, 27 de junho, em seu parágrafo 19, a Ata informa que a maioria do colegiado (votaram oito membros - o presidente e sete diretores) já tinha vislumbrado possibilidade de reduzir a Selic na reunião de agosto. “A avaliação predominante foi de que a continuação do processo desinflacionário em curso, com consequente impacto sobre as expectativas, pode permitir acumular a confiança necessária para iniciar um processo parcimonioso de inflexão na próxima reunião”. Mas isso foi omitido.
Em seguida é dito que uma parte ponderou que “outro grupo” [minoritário] “mostrou-se mais cauteloso, enfatizando que a dinâmica desinflacionária ainda reflete o recuo de componentes mais voláteis e que a incerteza sobre o hiato do produto gera dúvida sobre o impacto do aperto monetário até então implementado (...) sendo “necessário observar maior reancoragem das expectativas longas e acumular mais evidências de desinflação nos componentes mais sensíveis ao ciclo”
Esse erro monumental de comunicação deixou o mercado “desancorado perante um Banco Central à deriva”, sem confiança na própria política. Em função da omissão da verdade pelo Banco Central no comunicado de 21 de junho, negócios foram desfeitos com ações na B3, em moedas e em tantos mercados regulados ou não. Nos Estados Unidos, o Fed, além de mais claro e transparente, informa quem votou contra a corrente majoritária.
Talvez só a “diagonal endógena da banda cambial, aplicada por Francisco Lopes, para romper com a banda cambial de Gustavo Franco, que gerou violenta desvalorização e a crise sistêmica que ameaçou travar a BM&F e quebrar bancos avalistas do Marka e do Fonte-Cindam, tenha provocado tantos danos na imagem do Banco Central no mercado.
Tudo isso será rediscutido nas de 1 e 2 de agosto, já com a presença de Gabriel Galípolo na diretoria de Política Monetária (com a visão do Ministério da Fazenda, onde era secretário executivo) e de Ailton Santos, da Fiscalização.
LCA vê Selic em 12%, e abaixo de 10% para 2024
Ao fazer a avaliação da conjuntura, a LCA Consultores aponta que “a evolução recente da conjuntura externa tem instigado uma expressiva valorização do câmbio no Brasil - que, como temos argumentado, tem alcançado intensidade maior do que em outras economias emergentes, uma vez que: (i) a apresentação do novo arcabouço fiscal reduziu incertezas quanto à trajetória da dívida pública; e (ii) o elevado diferencial de juros doméstico-externo é fator de atração de capitais externos de curto prazo.
A valorização do câmbio tem contribuído para intensificar o relevante alívio de custos proporcionado pela normalização das cadeias globais de produção e pelo recuo dos preços das commodities - o que vem acentuando a deflação no atacado doméstico. Nessas circunstâncias, o nosso Banco Central avaliou, na ata do Copom publicada nesta 3ª-feira (dia 27), que "a conjuntura internacional se mostra um pouco mais benigna para o processo inflacionário no Brasil".
Para a LCA, “esses sinais de descompressão inflacionária contribuem para reafirmar a projeção de que a taxa básica Selic começará a ser reduzida no 3º trimestre deste ano, provavelmente já na próxima reunião do Copom, a ser realizada no começo de agosto. O conteúdo da ata do Copom, divulgada pelo Banco Central nesta 3ª-feira, reafirma essa expectativa de flexibilização iminente da política monetária doméstica. No documento, a autoridade afirmou que a "avaliação predominante foi de que a continuação do processo desinflacionário em curso, com consequente impacto sobre as expectativas, pode permitir acumular a confiança necessária para iniciar um processo parcimonioso de inflexão [monetária] na próxima reunião".
Não obstante, o Copom reiterou diversas vezes que a conjuntura atual requer "parcimônia", sinalizando que o iminente processo de redução da Selic será bastante gradual. Diversos fatores são apontados pela autoridade para justificar a "parcimônia", dentre os quais a baixa ociosidade na economia, sobretudo no mercado de trabalho. De fato, a robustez no mercado de trabalho tem conferido resiliência à inflação de itens não-comercializáveis, notadamente de serviços privados.
Com isso, o componente de inflação subjacente de serviços do IPCA, que representa um conjunto de preços mais sensíveis à demanda e à política de juros, continua a correr em níveis incompatíveis com as metas.
Nesse contexto, o Copom ponderou na ata que "flexibilizações do grau de aperto monetário exigem confiança na trajetória do processo de desinflação. O cenário base da LCA pressupõe que a Selic será reduzida dos atuais 13,75% ao ano para 12% ao ano até o final de 2023, começando com uma redução de 25 pontos-base em agosto, seguida de reduções de 50 pontos-base em cada uma das três reuniões do Copom que restarão até o final do ano.
Também a LCA continua a projetar que a Selic será reduzida para um pouco abaixo de 10% até o final de 2024 – o que faria a taxa básica se aproximar de sua estimativa de juro neutro no começo de 2025”.
IPCA pode ter deflação de 0,13% em junho
A deflação no atacado já começa a trazer forte alívio ao conjunto dos preços dos bens comercializáveis no varejo - que registrou deflação no resultado de junho do IPCA-15, descontados os efeitos sazonais; e desacelerou para perto do piso da meta de inflação na média trimestral anualizada e dessazonalizada. Com isso, a média das cinco principais medidas de núcleo da inflação ao consumidor acompanhadas pelo Banco Central começou a mostrar descompressão mais consistente nas leituras mais recentes do IPCA e do IPCA-15.
Na simulação do resultado do IPCA, que será divulgado em 11 de julho, a LCA Consultores está projetando deflação de 0,13%. Os principais itens de baixa seriam a Alimentação e Bebidas (-0,45%, contra +0,16% em maio), com “novo alívio de itens “in natura” dentro da alimentação no domicílio, bem como Carnes, Leites e Óleos”; Transportes (-1,23%, contra -0,57% em maio), como reflexo dos primeiros efeitos dos descontos anunciados para automóveis, além dos combustíveis em ligeiro declínio.
Também haveria “uma desaceleração sazonal de Higiene pessoal e de Produtos farmacêuticos dentro de Saúde e cuidados pessoais” (sem contar a menor apropriação dos reajustes dos Planos de Saúde, corrigidos anualmente em 9,63%, contra 15,50% em 2022). Para a consultoria, “Comunicação perderá força por conta de correio e de telefonia móvel. Os preços monitorados deverão registrar -0,05% neste mês. Para o ano, ela mantém a projeção de 5,1%.