O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

[email protected]

O OUTRO LADO DA MOEDA

Só o Copom não vê juro alto

...

Publicado em 21/03/2023 às 15:52

Alterado em 21/03/2023 às 15:52

As principais fábricas de automóveis deram férias coletivas para não acumular estoques. O plano de recuperação judicial da Americanas, uma das maiores redes de varejo do país, pede até 20 anos para pagar dívidas a credores financeiros, com descontos acentuados nos valores de face, e, também, pede descontos à cadeia de fornecedores. Como as vendas estão em queda no geral, é provável que muitos aceitem descontos para manter uma importante fonte de escoamento de sua produção. Tudo isso configura ameaça de desemprego numa economia em que a indústria, o comércio e os serviços rateiam em função dos níveis reais recordes das taxas de juros.

Descontado o IPCA acumulado de 12 meses em 5,60% até fevereiro, com a taxa Selic em 13,75% ao ano, que é o piso do mercado financeiro, representa uma taxa de juro real de 7,72%. Mas as projeções para o IPCA de março apontam um tombo na inflação em 12 meses ainda maior (março de 2022 teve a taxa recorde de 1,62% na inflação, com os primeiros reajustes de combustíveis após a invasão da Ucrânia pela Rússia e as retaliações da OTAN), indicando um piso de taxa real de juro na faixa de 9% em abril.

Economistas de renome mundial que compareceram ao seminário promovido esta semana pelo BNDES no Rio de Janeiro, como o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, professor da Universidade de Colúmbia, que comparou o nível dos juros reais no Brasil “a uma pena de morte”, ou Jeffrey Sachs, professor também de Columbia, que falou por vídeo conferência nesta 3ª feira, expressaram sua perplexidade com a resistência da economia brasileira a uma taxa de juros real tão leonina.

Pelo lado brasileiro, economistas experientes como André Lara Resende, que chegou a taxar o nível de juros de pornográfico, fizeram coro às críticas do presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva, e do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alkmin.

Enquanto os economistas mais experientes do país e a equipe econômica do governo Lula discutiam fórmulas para evitar a desaceleração (a viagem da enorme comitiva do presidente Lula à China, com parada na volta nos Emirados Árabes Unidos é uma tentativa de compensar nas exportações com o encolhimento do mercado doméstico causado pela trava dos juros), a diretoria do Banco Central, com mandato independente do Executivo, dava início, esta tarde, a dois dias de discussões do cenário no Comitê de Política Monetária.

 

Faltam experiência e cabelos brancos no BC

Quando o jovem economista Digo Abry Guillen, com apenas 38 anos, graduado em Economia pela PUC-Rio em 2005, onde recebeu o diploma de Mestre em Economia em 2007 e foi graduado PhD em Economia na Universidade de Princeton (EUA), em 1913, foi nomeado para a Diretoria de Estudos Econômicos do Banco Central, em 27 de abril de 2022, para um mandato até 31 de dezembro de 2025, critiquei a indicação afirmando faltar experiência de mercado e cabelos brancos ao jovem diretor. Sua atuação no mercado financeiro brasileiro foi muito curta e quase limitada à Itaú Asset Management, onde começou como chefe de pesquisa econômica internacional e terminou como Economista-Chefe de 2020 a 2021.

Antes de chegar ao Itaú, suas experiências anteriores no mercado financeiro praticamente se limitaram ao período de estágio. A permanência mais duradoura foi na Galanto, consultoria fundada pelo saudoso professor Dionísio Dias da Silva, que deve ter admirado seus trabalhos na PUC. Na Galanto, Diogo Guillen conviveu um tempo com a economista Monica De Bolle, atual professora de Macroeconomia da John Hopkins, em Baltimore (Maryland).

Por mais inteligente que venha a ser, não vejo como um jovem que só completará 40 anos em julho tenha cabedal de experiência e vivência nos ciclos econômicos do Brasil para ser uma das vozes mais influentes entre os oito diretores do BC que integram o Copom ao lado do presidente Roberto de Oliveira Campos Neto. Roberto Campos Neto, por sinal, é um dos mais jovens presidentes que já passou pela história do BC. Faz 54 anos em julho.

Experiência não só no mercado financeiro (onde fez longa carreira em Tesouraria, inicialmente no Bozano, Simonsen, [onde conheceu Paulo Guedes], que mais tarde foi comprado pelo espanhol Santander, de onde saiu para comandar o Banco Central em janeiro de 2019), mas em vários órgãos da gestão pública. Vivenciar crises da economia no governo é outro aprendizado.

Lembro de Ernane Galvêas, quadro do Banco do Brasil, que trabalhou com Octávio Gouvea de Bulhões na Sumoc, foi assistente do ministro da Fazenda de Jânio, Clemente Mariani, e novamente assistente de Bulhões, quando este foi ministro da Fazenda em dupla com o avô de RCN, no Ministério do Planejamento do regime militar. Galvêas era professor de contas nacionais e antes de assumir o Banco Central, de 1968 a 1974, dirigiu por dois anos a Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil (Cacex).

Ao voltar ao BC, em agosto de 1979, Galvêas indicou o jovem economista Carlos Geraldo Langoni, um acadêmico, para diretor da área Bancária. Quando Galvêas assumiu o ministério da Fazenda, no começo de 1980, no lugar de Karlos Rischbieter, Langoni foi pilotar o BC. Sub-editor de Economia do JB, me dava bem com os dois, minhas fontes, mas senti a inexperiência de Langoni na gestão da dívida pública. Pior foi o seu desafio para renegociar a dívida externa do Brasil, em 1982.

Como editor de Economia do JB, acompanhei toda a crise, a partir de agosto daquele ano, e fui cobrir a grande reunião com os credores em 20 de dezembro no Hotel Plaza, em Nova Iorque (que ainda não tinha sido comprado e retrofitado por Donald Trump). Inexperiente, num país carente de dólares para comprar petróleo (a Bacia de Campos só começou a produzir e aliviar o calvário brasileiro junto com as exportações do agronegócio nos anos 80), Langoni foi na conversa de Tony Gebauer, do Morgan, e a renegociação fracassou com pouco mais de oito meses. Foi substituído por Afonso Celso Pastore, no Banco Central, enquanto William Rhodes, do Citibank, assumia a coordenação das renegociações, em novas bases.

 

O que está errado no Brasil são os juros

Faço coro a Jeffrey Sachs, que analisando de fora, as turbulências dos mercados financeiros à política inócua de subida de juros nos Estados Unidos e Europa (quando seria mais frutífera a negociação de armistício entre Rússia e Ucrânia para derrubar as pressões inflacionárias em combustíveis, fertilizantes e alimentos) declarou que “não é o momento para austeridade fiscal, mas de aumento dos investimentos públicos, significativo, principalmente com infraestrutura e capital humano”.

Sachs destacou que os juros altos são “um dos impedimentos ao investimento público porque o financiamento está indo para pagamento de juros em vez de infraestrutura, saneamento, habitação, energia verde ou outros investimentos públicos de alta prioridade.”

 

O dilema da Americanas

Presente em todo o Brasil, a Americanas tem um enorme patrimônio imobiliário próprio e alugado (os aluguéis de suas lojas em shoppings e pontos movimentados estão dando dor de cabeça aos gestores de fundos imobiliários que antes festejavam o cliente.

Mas a situação de anemia econômica, que desvaloriza o mercado imobiliário não recomenda, na análise da Consultoria Apsis, contratada pela Americanas, a venda dos imóveis próprios. No Rio, talvez só a velha sede da Americanas, na Rua Sacadura Cabral, com área ampla na região do Porto Maravilha, possa ter liquidez. Mas há uma superoferta de imóveis na região e baixa demanda. No centro da cidade, o complexo de lojas da pioneira carioca, que dá frente para a rua Ramalho Ortigão e tem saídas para as ruas do Ouvidor e Uruguaiana, poder ter algum interesse comercial (para construção de prédio em parte do terreno.

As lojas próprias Belo Horizonte e de Petrópolis, na serra fluminense, padecem da mesma situação das lojas próprias de Copacabana, Tijuca, Madureira, Laranjeiras e Ipanema: estão em área de demanda fraca num mercado em retração e superoferta de salas comerciais vazias. E um dos motivos é a concentração bancária.

Os mesmos bancos, cujas taxas de juros asfixiaram famílias e empresas, aproveitaram a retração dos clientes na pandemia para encolher o número de agências. Tijuca, Copacabana e Ipanema têm agora excesso de ofertas de lojas (o Bradesco fechou cinco agências e ficou só com duas em Ipanema; o Itaú, que chegou a ter 12 quando se fundiu com o Unibanco, hoje tem cinco, contando as duas do Personnalité). Não há demanda para as farmácias ocuparem o espaço, porque quem está mais doente é a economia.

Deixe seu comentário