Para IBGE, recuperação é em U e não em V de Guedes

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A máxima do ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco, Rubens Ricúpero, flagrado em agosto de 1994, por antenas parabólicas em conversa privada com o jornalista Carlos Monforte, antes de gravação para a TV Globo - “O que é ruim a gente esconde, o que é bom a gente mostra logo” -, ficou patente nesta 4ª feira, 23 de dezembro quando o governo tratou de divulgar os dados positivos do Caged de novembro.

A contratação líquida de 414.556 vagas com carteira assinada (recorde histórico, a maior cifra anterior para o mês de novembro de 2009 fora de 246.695 vagas) tentou diluir o impacto da verdadeira acomodação do mercado de trabalho revelada poucas horas antes pelo IBGE, com a pesquisa mensal PNAD COVID 19. Houve aumento recorde da taxa do desemprego para 14,2% (14 milhões de pessoas, 38,6% acima de maio), com as pessoas que perderam o emprego na pandemia voltando às filas do SINE para tentar um novo emprego (a pesquisa só registra como desempregado quem estava procurando trabalho na semana da pesquisa). Assim, o dado do desemprego é falsamente baixo.

Mesmo assim, o ministro da Economia, Paulo Guedes, comemorando o fato de que as contratações de novembro fizeram o ano de 2020 já acumular um saldo positivo de 227.025 vagas com carteira assinada no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), disse que o “resultado mostra recuperação em V”. Não é bem assim. O saldo positivo de 2020 deve-se ao fato de que os meses de janeiro e fevereiro acumularam a criação de 339.958 novas vagas.

Na Covid, menos 112,9 mil vagas; dezembro sempre é negativo

A recuperação no mercado de trabalho, iniciada em junho, ainda está longe de anular as vagas líquidas fechadas em março, abril, maio e junho, que somaram 1.612.317, com recorde de 948.857 dispensas líquidas em abril. De julho a novembro foram recriadas 1.499.402 vagas. Ou seja, a pandemia ainda tem déficit de 112.915 vagas perdidas com carteira assinada.

Vale observar, contudo que o mês de dezembro sempre registra forte aumento das demissões (tão logo terminam as vendas de Natal no comércio e fábricas dão férias coletivas). No ano passado houve 307 mil demissões líquidas (descontadas as contratações). Em 2018 foram 324 mil demissões. O recorde absoluto foi no Natal de 2008, quatro meses após a crise financeira mundial de agosto/setembro de 2008: 654 mil pessoas perderam emprego.

O segundo maior número foi na recessão de 2015 no 2º governo Dilma (que se prolongou para 2016), com 596 mil demissões. Assim, é verdade que o mercado de trabalho reage, seguindo a lenta recuperação dos setores da economia, sobretudo o setor de serviços, com o país ainda assolado pelo repique da Covid-19 e sem data para iniciar a vacinação, é cedo para comemorar.

Cauteloso, IBGE vê recuperação em U

Com a experiência de acompanhar o mercado de trabalho há várias décadas, o IBGE, que é presidido pela economista Suzana Cordeiro Guerra e está atrelado à pasta da Economia, comandada por Paulo Guedes, é menos otimista que o ministro. Diria que é mais realista.

Ao fazer a análise – o release do IBGE trouxe os dados de saúde da Covid bem à frente dos números do mercado de trabalho [confesso, leitor, que tive de procurar em vários escaninhos do site do IBGE para encontrar o relatório completo, que por sinal estava com os dados de trabalho antecedendo os da Covid] o IBGE frisou:

“Em novembro de 2020, foram estimadas 211,7 milhões de pessoas residentes no Brasil, das quais 170,7 milhões de 14 anos ou mais de idade, que correspondem à população em idade de trabalhar. Essa última se divide em população ocupada, população desocupada e população fora da força de trabalho”.

“Segundo os dados da PNAD COVID19, a população ocupada totalizava 84,4 milhões de pessoas no início da pesquisa, em maio, 84,1 milhões de pessoas no mês de outubro e 84,7 milhões em novembro (ou seja, aumento de 0,6% em relação a outubro, e pela primeira vez desde o início da pesquisa, apresentando aumento em relação a maio de 0,3%); já a população desocupada passou de 10,1 milhões de pessoas no começo da pesquisa para 13,8 milhões em outubro e, agora, 14,0 milhões de pessoas (aumento de 2% na margem e de 38,6% desde o início da pesquisa, acumulando sucessivos aumentos mês a mês)”.

“Portanto, neste mesmo período, a força de trabalho, que corresponde à soma da população ocupada e a desocupada, passou de 94,5 milhões em maio para 97,9 milhões em outubro e 98,7 milhões agora em novembro (aumento de 0,8% em relação a outubro e de 4,4% em relação a maio)”.

“Enquanto isso, o contingente de pessoas fora da força de trabalho passou de 75,4 milhões em maio para 72,7 milhões em outubro e 72,0 milhões de pessoas em novembro, o que corresponde a uma redução de 0,9% na margem e 4,4% em relação a maio. Esses números demonstram a consolidação do retorno às atividades ao redor do país, com mais pessoas mês a mês deixando de estar fora da força de trabalho”, diz a nota do IBGE.

Ao tratar do total das pessoas ocupadas, visão diferente de Guedes: “O nível da ocupação, isto é, o percentual de pessoas ocupadas em relação às pessoas em idade de trabalhar, passou de 49,7% em maio, para 49,3% em outubro e 49,6% em novembro, configurando uma trajetória em “U”, com seu valor mínimo em julho (47,9%)”. O grifo é meu, mas a informação é do IBGE.

Alta dependência do Auxílio no NO e NE

Segundo o IBGE, a “proporção de domicílios que recebeu algum auxílio relacionado à pandemia, no Brasil, passou de 42,2% em outubro para 41,0% em novembro, com valor médio do benefício em R$ 558 por domicílio. As Regiões Norte e Nordeste foram novamente as que apresentaram os maiores percentuais de domicílios recebendo auxílio, 57,0% e 55,3%, respectivamente. Entre os auxílios estão o Auxílio Emergencial2 e a complementação do Governo pelo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda.

Apostas na inflação de dezembro

A partir da alta de 1,06% no IPCA-15, de dezembro, com dados divulgados ontem pelo IBGE, o Departamento Econômico do Itaú reviu a “projeção preliminar para o IPCA (cheio) de dezembro para 1,21%, com alta de 4,37% no IPCA em 2020. A LCA consultores está esperando IPCA maior, de 1,27%. Como a inflação acumulou 3,13% até novembro, a previsão da LCA implica taxa de 4,44% em 2020.

O estudo da economista Júlia Passebom, do Itaú, assinala que “as próximas leituras de inflação continuarão sendo impactadas pelo choque de inflação atual relacionado ao movimento de depreciação cambial, alta no preço de commodities agrícolas e dinâmica da pandemia. Esperamos aceleração na inflação de bens adiante devido ao nível de utilização na indústria (NUCI) mais alto no curto prazo, o que contribui para maior repasse da alta de insumos em ambiente de demanda sustentada via políticas de transferência de renda e mudanças na cesta de consumo das famílias ao longo do ano”.

“Também esperamos aceleração na inflação de serviços com normalização partindo de níveis deprimidos e voltando junto com a recuperação da mobilidade e da atividade econômica. Por fim, contribuem também para uma leitura pressionada no mês de dezembro a coleta extraordinária de preços de educação e bandeira tarifária vermelha 2 nas contas de luz dos consumidores.

A boa notícia é que Júlio vê horizonte menos pesado para 2021: “Esperamos desaceleração do IPCA em janeiro para 0,03% e alta de 0,42% em fevereiro”.

Que venham mais vacinas, mais empregos e menos inflação.