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Efeitos da má gestão: safra recorde e inflação também

O IBGE revelou o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) de setembro

Foto: Jose Peres
Credit...Foto: Jose Peres

Sou entusiasta da produção agrícola e dos avanços da tecnologia da Embrapa para descobrir modalidades de sementes e cultivos adaptáveis aos diversos climas e biomas deste imenso Brasil. Aos 17 anos, pensei ser engenheiro agrônomo. Depois, mirei na Economia (fiz vestibular simultâneo, não era ainda unificado, para Economia e Comunicação, ambos na UFRJ). Não fui aprovado em Economia, mas passei em 2º lugar na ECO e virei jornalista de economia...

Mas gosto da agricultura (e da criação animal) que usa técnicas modernas e preserva o meio ambiente. Plantio em curva de nível. Respeito às matas ciliares e nascentes, sem avançar em áreas de florestas e cumprindo os limites de desmatamento – máximo de 20% de derrubada na Amazônia, até 80% no cerrado e região da Mata Atlântica, com nível de 35% na zona de transição da Amazônia para o cerrado (o que pega a parte Norte do Mato Grosso, estado que concentra 40% da produção de grãos do país, basicamente, soja, milho, girassol e algodão). Arroz e feijão em escala bem reduzida.

Pois hoje o IBGE revelou o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) de setembro. A cada mês é feita nova estimativa e a nova LSPA fez a safra nacional de grãos, já em patamar recorde, ter a previsão aumentada mais uma vez: deve chegar a 252,0 milhões de toneladas em 2020, ficando 4,4% acima da colheita de 2019. A soja, o algodão herbáceo e o café devem atingir seus recordes históricos na série do IBGE.

O milho também está em alta, e com boas perspectivas no mercado, mas não deverá atingir o recorde alcançado em 2019. A produção de soja de 2020 bateu mais um recorde, devendo totalizar 121,4 milhões de toneladas, aumento de 7,0% frente à safra de 2019 e de 0,3% em relação ao estimado em agosto. A colheita só não será ainda maior devido à perda de 39,4% na produção gaúcha, que sofreu com uma estiagem prolongada entre dezembro e maio.

“Os preços da soja mantiveram-se elevados, alavancados pela valorização do dólar e pela forte demanda internacional, o que fica evidenciado pelo ritmo de vendas antecipadas, maior que no ano anterior”, comenta Carlos Barradas, analista de Agropecuária do IBGE. Já a estimativa para o milho, ainda abaixo do recorde de 2019, está com apenas 100 mil toneladas de diferença. Frente a agosto, a estimativa da produção cresceu 0,2%, totalizando 100,5 milhões de toneladas. Tanto a demanda interna, devido ao aumento do consumo pelos produtores de carnes (de suínos e aves, principalmente), quanto à externa, em decorrência da desvalorização do real, estão em alta.

Mato Grosso já produz álcool de milho

“A baixa oferta no mercado diante da elevada procura impulsionam os preços no mercado brasileiro, o que vem estimulando maiores investimentos nas lavouras de milho, principalmente no Paraná e no Centro-Oeste. Nesta região, algumas usinas de produção de álcool a partir do milho estão se instalando no Mato Grosso, o que pode também elevar regionalmente a demanda pelo cereal, possibilitando um aproveitamento maior dessa matéria-prima, com redução de custos logísticos e, consequentemente, uma diminuição na defasagem de preços entre diferentes praças”, ressalta Barradas.

Como a região é distante dos centros produtores de cana-de-açúcar, que é uma cultura permanente e monopolista na área cultivada, e o milho pode ser plantado no terreno onde antes foi colhida a soja (o algodão também entra no rodízio com o milho após a colheita da soja), o produtor aproveita melhor sua terra, a estrutura de maquinário e de silos. No caso da extração do etanol de milho (após fermentação em grandes dornas e posterior esmagamento), o farelo se torna importante elemento para a produção de rações.

Além do custo menor de uma fábrica para extração do álcool de milho X cana, a logística da operação é tão vantajosa (gasta-se menos fretes com transporte de álcool - o farelo de milho, mais leve, permite aumentar o volume transportado, compensando, em parte o fato do frete de uma tonelada de soja ser bem mais alto do que de uma t. de milho. E já há muitas granjas de suínos e de aves se instalando na região para aproveitar a abundância de matéria-prima para as rações animais. Numa segunda etapa, serão atraídos frigoríficos e abatedouros, aumentando o valor agregado da produção e mais empregos.

O outro lado da moeda é a absurda alta da alimentação

O nome completo da pasta da agricultura é Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (que absorveu o antigo Ministério da Pesca, criado em 2009 no 2º governo Lula e serviu de abrigo para o atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella jogar a sua rede Brasil afora, fazendo proselitismo na linha da IURD).

Mas a área de abastecimento parece ter sido deixada de lado na ação do governo Bolsonaro, que exagerou no liberalismo pregado por Paulo Guedes. Isso num ano em que o dólar disparou (estimulando as exportações com alta remuneração em dólar) e a pandemia da covid-19, além de desempregar milhões de brasileiros, deixou muita gente em casa. Para remediar a situação, o governo acabou criando o Auxílio Emergencial de R$ 600 que atendeu a 67,2 milhões de pessoas. O resultado da maior permanência em casa, foi o maior consumo de arroz, óleo, carne e leite.

Mas os quatro alimentos, e mais o milho, ficaram sem estoques reguladores (uma heresia para governos ultra-liberais). O resultado é que os preços agrícolas subiram no atacado até setembro, segundo a Fundação Getulio Vargas, 32,1%. Quase o dobro dos insumos industriais (+16,77%, puxados para baixo pela queda do barril de petróleo. Em 12 meses, os produtos agrícolas subiram 46,21% no atacado, segundo a FGV.

Amanhã (sexta-feira, 9 de outubro) o IBGE vai divulgar o resultado do IPCA de setembro. Em agosto, os alimentos subiram 0,78%, acumulando 5,43% no ano e quase 10% em 12 meses. Só o arroz subiu 22,8% em agosto. O maior peso foi da carne, que subiu 3,33% no IPCA de agostou. Para a FGV, foi 4,90% em agosto e 8,43% em setembro. A alta dos alimentos é mais perversa para as camadas que ganham até cinco salários mínimo, pois a alimentação tem o maior peso nas despesas familiares (22,82%). Já no IPCVA, que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos, o peso é de 20%.

Nas metragens da FGV, esses produtos seguem pressionando os orçamentos. Em agosto, a soja em grão (principal produto exportado pelo Brasil), subiu 11,41%, repicando mais 12,88% de alta em setembro (o reflexo imediato é no óleo de soja e nas rações animais, que têm a soja e o milho como base). O milho subiu 12,60% em agosto e 10,31% em setembro, mas nos últimos 30 dias subiu 11,95% na Bolsa de Chicago. Em dólar, a soja subiu 8,41% nos últimos 30 dias e 11,45% no ano. Como o dólar subiu 39/40% este ano, há uma pressão tremenda para a exportação. A arroba do boi subiu 4,90% em agosto e 8,43% em setembro e 8,16% em 30 dias. Como onde vai o boi a vaca vai atrás, o leite in natura encareceu 12,14% em agosto e 9,46% em setembro, devido à prolongada estiagem no Sudeste e Centro-Oeste.

O impacto disso é que a alimentação que tinha deixado de pesar no orçamento das famílias, com a supersafra de 2017, está pesando muito este ano de pandemia. O recorde de produção é uma boa notícia. Mas se não melhorar a gestão, de pouco adiantará celebrar a produção se o alimento não estiver acessível ao bolso da maioria da população.