Origem da Black Friday (6ª feira negra): a maior especulação com ouro em Wall Street

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A falta de informação e as conclusões apressadas levam a erros históricos monumentais. Vejam o caso da “Black Friday”, termo apropriado pelo comércio nos Estados Unidos para promover liquidações relâmpagos em outubro ou começo de novembro. Como o sucesso da empreitada foi grande, nossos comerciantes para macaquear “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, adotaram o termo (estou com Ancelmo Gois – “Black Friday é o cacete”).

Aqui no Brasil representantes dos movimentos de afrodescendentes, ou seja, dos povos africanos que vieram escravizados para o Brasil-Colônia nos séculos XVII, XVIII e XIX, querem abolir o termo. Concordo inteiramente. O governo Bolsonaro criou a Semana Verde-Amarela, com adesão livre dos comerciantes e prestadores de serviços, para aplicação de descontos especiais na chamada “Semana da Pátria” durante o regime militar. Em 2020 foi de 3 a 12 de setembro (excluído o feriado nacional da Independência, em 7 de Setembro.

Mas houve quem fizesse uma confusão tremenda chamando para a “Black Friday Verde-Amarela” (sic). Se Sérgio Porto, o saudoso Stanislaw Ponte Preta, fosse vivo, diria que é o “slogan do publicitário doido”. Mas a confusão, ou falta de noção, atingiu o processo seletivo do Magazine Luiza, que, numa tentativa de reparar séculos de escravidão e falta de acesso do povo preto (ou pardo) à terra (como tiveram os colonos europeus (italianos e espanhóis) que vieram, com as famílias, substituindo a mão de obra escrava no café na rica terra roxa de São Paulo e depois Paraná), abriu seleção de “trainee apenas para negros”. Não gosto de termos em inglês. Trainee também é o cacete...

A grande especulação com ouro em Nova Iorque

Na origem, o termo foi usado para descrever uma das maiores manobras especulativas, com toque de alta corrupção junto aos altos escalões da República americana, ainda curando as cicatrizes da guerra civil. O ápice da manobra, sob a presidência de Ulysses S. Grant, deu-se no dia 24 de setembro de 1869, batizado de “A sexta-feira negra”, o pânico da quebra do mercado de ouro na New York Gold Exchange (a Bolsa de Ouro de Nova Iorque).

O pânico do mercado de ouro foi causado pelas manobras de dois especuladores, sócios-diretores da Ferrovia Erie, Jay Gould e seu parceiro James Fisk, que ficou conhecido por “anel de ouro”, para dominar o mercado de ouro dos EUA. A política do presidente Grant, formulada e executada por seu Secretário do Tesouro, George Boutwell, era vender ouro do Tesouro em intervalos semanais para pagar a dívida nacional, estabilizar o dólar, e impulsionar a economia.

A manobra funcionou a contento e mantinha a recuperação da economia americana. Mas a dupla de ambiciosos especuladores logo percebeu que se havia apenas um grande vendedor de ouro no mercado, se pudessem interferir nas vendas, sabendo quando ocorreriam ou impedindo a sua concretização, poderiam operam no sentido inverso, ganhando muito dinheiro. Foi o que puseram em curso a partir de meados de 1869.

O cartel da dupla é singular e se assemelha em muito à fauna de atravessadores e intermediários que sempre se envolvem em grandes negociatas com os representantes dos Tesouros Nacionais e a contratação de obras, como o petrolão, descoberto pela Operação Lava-Jato e outros escândalos da história do Brasil e EUA. Fisk era um showman itinerante, que controlou a Ferrovia Erie. Já Gould fez fortuna como contrabandista de algodão na Guerra Civil (1861-1865).

O primeiro passo da dupla para o plano foi se aproximar de Abel Corbin. Era um pequeno especulador, mas valioso, pois era casado com Virginia Grant, a irmã mais nova do presidente Grant. Gould e Fisk aproveitaram o seu relacionamento de cunhado do presidente e convenceram Corbin para apresentá-los a Grant. O objetivo era colher informações antecipadas sobre as compras e vendas de ouro (informação privilegia, punida severamente pela Securities Exchance Comission, de quem foi cópia a nossa Comissão de Valores Mobiliários). Mas a SEC só surgiu no governo Roosevelt, em 1933.

Poses com presidente dão cartaz

Como os papagaios de pirata que se gabam de fotos com o presidente Bolsonaro, ministros ou governadores e prefeitos, Gould e Fisk usaram suas aparições pessoais com Grant para ganhar influência em Wall Street, além de usar a sua informação privilegiada. Mas não era suficiente para alterar a política do Tesouro, executada por Boutweell, a quem não tinham acesso.

O segundo passo foi recrutar Daniel Butterfield. Tratava-se de um ex-general. Herói da Guerra Civil, mas sem qualquer experiência em finanças. Apesar disso Corbin e Gould pressionaram com sucesso para a nomeação de Butterfield como o tesoureiro adjunto, por meio de quem Boutwell deu ordens para vender o ouro do Departamento do Tesouro. Gould subornou Butterfield com um cheque de US$ 10.000, mais do que o salário anual de Butterfield de US$ 8.000. Butterfield concordou em derrubar os investidores na posição contrária das decisões do governo.

Durante um bom tempo, a dupla e mais Corbin e sua mulher, a irmã do presidente ganham dinheiro. Fisk, mais ousado, chegou a presenteá-la com um rico anel de ouro, daí seu epíteto no mercado. O dia D, 24 de setembro de 1869, o dia da Grande Depressão do século XIX, supurou como um apendicite quando Jay Gould e James Fisk buscaram manipular o mercado do ouro nos Estados Unidos, comprando grandes lotes e buscando levar o mercado a uma situação de corner.

Contando com a cumplicidade de funcionários públicos, Gould e Fisk buscaram deter o controle dos preços do ouro, e provocaram uma alta súbita nas cotações. Pretendiam com isso impor suas próprias condições de negociação, quase sempre em detrimento de outros operadores. Os vendidos a termo short) não conseguiriam comprar posições suficientes para honrar seus contratos, gerando lucros extraordinários para os dois operadores. O golpe não deu certo, mas muitas pessoas foram atraídas ao mercado e perderam fortunas.

Desfecho e consequências

Em 23 de setembro, Grant e Boutwell se encontraram e os dois decidiram quebrar o anel de ouro com a venda de ouro do Tesouro se o preço do ouro continuasse a subir. Em 24 de setembro, Gould começou silenciosamente vendendo seu ouro enquanto na Sala dourada agentes apresentaram uma frente pública e continuou a compra a uma taxa menor, com Fisk liderando compras viciadas. Quando o ouro ultrapassou US$ 155 a onça, na sexta-feira 24 de setembro, o presidente Grant ordenou a Boutwell liberar US$ 4 milhões em ouro e comprar US$ 4 milhões em títulos. Em minutos, o preço do ouro caiu de US$ 160 a onça para US$ 138 e o esquema de Gould e Fisk foi quebrado. Alguns especuladores foram arruinados, enquanto os jogadores que tinham apostado que o preço do ouro iria para baixo fez dinheiro. Corbin perdeu dinheiro com o empréstimo que tinha tomado para comprar ouro.

A Black Friday 24 de setembro causou a devastação financeira Estados Unidos por meses. No sábado, 25 de setembro de Gould, Fisk e Corbin encontraram-se no escritório de Gould, na Opera House, cada um alegando ser a vítima e culpar o outro pelo desastre. Obrigado a honrar todas as dívidas, o Banco Gold Exchange ficou sem reservas para cobrir as dívidas. O Décimo Banco Nacional, que normalmente fechava às 15:00, naquele dia, tinha depositantes e especuladores que se aglomeram na calçada em sua porta principal. A Polícia atuou dentro e fora do banco.

Os preços das ações caíram 20% de 24 setembro a 1º de outubro. Dezenas de empresas de corretagem faliram. Os agricultores, que constituíam metade da força de americana, sofreram mais: os preços do trigo na Bolsa de Chicago caíram de US$ 1,40 para US$ 0,77 por bushel, milho caiu de US$ 0,95 a US $ 0,68, e outras commodities, como centeio, aveia e cevada tiveram perdas semelhantes . O "New York Tribune" informou que produtos prontos para exportação não poderiam ser enviados. Agricultura norte-americana entrou em forte declínio passou vários anos com liquidez apertada e estreitamento de mercados.

"Ele foi uma figura sinistra que esvoaçou como um morcego diante dos americanos", escreveu o jornalista Joseph Pulitzer (cujo nome batiza o principal prêmio de jornalismo dos Estados Unidos). A data ficou registrada no rol das catástrofes financeiras. Portanto, o termo não devia ser usado em 2020. A dupla e Butterfield e Corbin foram punidos. Boutwell foi forçado a se demitir do Tesouro, mas sem receber condenações. Nada se provou contra Grant, que virou marca de uísque. Muitos investidores o recusam temendo dor de cabeça.

Touros X Ursos, a eterna briga em Wall Street

O nome oficial do touro de Wall Street é “Charging Bull” [Touro em investida, na tradução em inglês]. Uma metáfora do mercado acionário em alta, pois o touro ataca de baixo para cima com seus chifres. Enquanto o urso, símbolo do mercado em baixa, ataca com suas patas de cima para baixo. Uma iconografia que remonta ao século XVIII. Por isso no mercado se fala em “bull market” e “bear market”.

Como todos todos querem que o mercado suba, o touro ficou eternizado numa estátua de bronze na Wall Street. Quem visita a New York Stock Exchange (NYSE) ou opera no mercado costuma acariciar a testa do touro para dar sorte. Com o fim do pregão presencial na NYSE (tudo é feito remotamente, por computadores.

A Goldman & Sachs, fundada em 1869, que adotava o estilo Touro, declarou este ano, quando foi decretada a pandemia da covid-19, que o “Bull Market”, o rali de 11 anos de alta contínua, estava “morto”, ilustrando um informe com a imagem do Touro de Wall Street estirado na calçada da NYSE. Já o urso foi incorporado como símbolo pelo Banco de Investimentos Bear Stearns, que costumava ganhar dinheiro apostando na baixa. Mas a baixa da crise do sub-prime de agosto/setembro de 2008, que levou à maior crise financeira mundial antes da pandemia da covid-19, foi de tal ordem que o Bear Stearns não resistiu e foi comprado pelo J.P. Morgan naquele ano.

No Brasil, o Caso Vale foi o mais parecido

Aqui outro parênteses. Na história do mercado de capitais brasileiro já tivemos muitos corners nos mercados futuros. Corner (o pequeno triângulo onde os times cobram o escanteio) é a situação do investidor que fica acuado porque vendeu a futuro uma ação ou uma “commoditie” (mercadoria) e não tem o produto (a ação ou a mercadoria). Em abril de 2020l, deu-se o inverso no mercado futuro de petróleo (os preços ficaram negativos porque ninguém queria estocar e seria "mais barato" perder o dinheiro do contrato que estocar...

A situação mais famosa aqui foi o “Caso Vale”, ocorrido em 1980, na Bolsa de Valores do Rio. A Corretora Ney Carvalho, que pertencia ao presidente da BVRJ, Fernando Carvalho, herdada do pai que emprestou seu nome a uma corretora de fundos públicos que tinha autorização para operar no pregão em nome do Tesouro Nacional. Mas estava encurralada,. Vendera ações da Vale do Rio Doce (então estatal), os preços subiram e ela não tinha como encontrar papéis à véspera do vencimento.

Valendo-se de sua influência junto ao governo, conseguiu que o Banco Central vendesse no pregão um lote de ações da Vale em poder do Tesouro. Quando se tratava de operação de grande monta (na época os operadores estavam dentro do pregão), era preciso um aviso prévio para que todos pudessem participar equanimemente. Mas isso não foi feito. O executor da ordem de venda do Tesouro foi o operador de pregão da Ney Carvalho Jorge Salgado (atual dono da Ativa Investimentos e um dos candidatos à presidência do Vasco da Gama). E o comprador, numa operação fechada (tipo Zé com Zé, como é conhecida no mercado) foi a própria Ney Carvalho, que escapou de ficar inadimplente ou tomar um enorme prejuízo.

Foi um escândalo, devidamente relatado pelo Jornal do Brasil, cuja equipe de Economia, da qual era sub-editor e tinha Patrícia Saboia, Angela Santângelo, Terezinha Costa e Octávio Costa, como repórteres, ganhou o “Prêmio Esso de Economia" daquele ano. A CVM, então presidida por Jorge Hilário Gouveia Vieira, interferiu e sofreu forte pressão do ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, e do presidente do Banco Central, Carlos Langoni para não levar o caso adiante.

Muitos anos depois, fui trabalhar como assessor de comunicação da Andima (que se fundiu com a Anbid, formando a Anbima) e encontrei lá a Marilene Tápias. Era viúva do superintendente da BVJR em 1980 e ex-assessor de imprensa, Luiz Tápias. Ela me deu todo o dossiê pelo lado da Bolsa, que comprovava boa parte das matérias do JB. Nunca o usei e me desfiz quando vendi o apartamento em que morava, em 2017. Devia ter guardado.

Lembro de me esconder atrás de uma das árvores da Praça 15 de Novembro para abordar, à noitinha, um dos conselheiros da Bolsa, após uma das reuniões que afastou Fernando Carvalho. Não digo o nome, mantendo o sigilo da fonte. Mas nunca me conformei de a série de reportagens do JB não ter deixado mais clara a origem da operação. O autor do corner, o era o investidor Alfredo Grunser, especialista em papéis de Vale (manteve um estúdio de cavalos no Jóquei Clube com o nome de "Doce Vale". Numa das curvas da história, alguns anos depois Grunser foi a vítima de um corner aplicado por Daniel Dantas, que ainda pôs anúncio em jornal avisando que ia exercer a opção de compra.