Jornal do Brasil

Música em Pauta

Música em Pauta

Mariana Camargo

Era uma vez em Hollywood

Jornal do Brasil MARIANA CAMARGO, mcamargo@jb.com.br

Existe diferença entre compor trilhas sonoras para filmes e televisão ou compor músicas para concerto (não necessariamente feitas para filmes)? Só sei, de minhas observações, que mesmo os melhores compositores de trilhas sonoras, se forem fãs de Beethoven e cia, têm um quê de inveja dos que compõem estritamente obras com suas formas específicas e complexidades ligadas à tradição da música clássica. Por outro lado, os compositores de “música para concerto” também carregam uma ponta de inveja e não apenas porque financeiramente a trilha sonora pode ser bem mais interessante do que esperar alguém encomendar uma peça para ser tocada em salas de concertos, isto funciona bem para compositores como John Adams, visto que teatros do mundo inteiro disputam suas obras. No entanto, para a gigantesca maioria dos compositores, a vida é dura para encontrar músicos, orquestras e teatros para apresentar suas obras. Nos EUA, há muito mais oportunidades para compositores – aqui no Brasil é um horror, ainda mais agora quando nada é tão ruim que não possa piorar. Tem que ralar muito. Vide o exemplo de compositores brasileiros excepcionais e que raramente são executados.

 Fazer música para filmes, então, pode ser uma saída. Além de, digo por experiência própria, ser um grande prazer ver uma composição ou um arranjo emoldurando uma cena. A música adquire outra dimensão. Mas ficam algumas perguntas: é possível ser compositor para os dois tipos de músicas? Sim e não. E as músicas são mesmo tão diferentes (trilha sonora versus música de concerto)? A música para filme é geralmente mais simples, até porque a possível complexidade musical tem que ser dividida com roteiro, fotografia, atores, etc. E isto acarreta que muitas vezes é tão mais simples ao ponto de excelentes compositores de trilhas sonoras não saberem ler partitura ou mesmo tocar um instrumento. Ou seja, no mínimo são músicas que têm maneiras muito diferentes de ser escritas. Com a chegada da tecnologia, há programas que nos trazem bibliotecas com milhares de sons e apertando alguns botões podemos gerar sons comparáveis às melhores orquestras, fazendo com que uma composição seja mais um jogo de saber usar esses programas do que propriamente compor como no velho estilo. Hans Zimmer, um dos ícones das trilhas sonoras no mundo, quando perguntado qual instrumento toca, responde: “Sequenciador” (um dispositivo que permite gravar, editar músicas em pistas no computador). Sem desmerecer a trilha sonora, compor uma trilha muitas vezes exige plagiar. O bom compositor de trilha é um excelente plagiador, pois o diretor quando encomenda algo, já vai logo dizendo: “Eu queria uma música como aquela...” Aí vocês dirão, mas e Philip Glass, Ennio Morricone, John Williams? Esses escrevem para filmes e música de concertos. Acho que a resposta está em ouvir as músicas mais “bonitas” deles e comparar com as de compositores que não fazem trilhas.

Alguns diretores há muito desconfiam que as melhores músicas não necessariamente são as compostas para o filme. Stanley Kubrick que o diga: “Por melhores que sejam nossos melhores compositores, eles não são um Beethoven, um Mozart ou um Brahms. Por que usar música que é menos boa quando existe uma multidão de ótimas músicas orquestrais disponíveis no passado e em nosso tempo? Quando você está editando um filme, é muito útil poder experimentar diferentes peças de música para ver como elas funcionam com a cena ... Bem, com um pouco mais de cuidado e pode-se pensar que essas faixas temporárias serão as finais”. Não à toa, o diretor usou como trilhas de seus filmes compositores como Ligeti, Bártok, Beethoven, Strauss e Shostakovich.

Outro diretor que recorre ao baú de músicas já existentes é Tarantino. Neste caso o baú fica literalmente num quarto em sua casa de Hollywood, em que o diretor tem uma coleção de LPs separados em estilos e organizados por períodos. Mary Ramos, supervisora musical em vários filmes de Tarantino, conta que o processo de escolha de músicas começa neste quarto e que para seu último filme, “Era uma vez... em Holywood”, o diretor quis que nenhuma música ultrapassasse o ano de 1969, época em que se passa o filme. Com uma Trilha Sonora repleta de rocks clássicos e música soul como Vanilla Fudge, The Rolling Stones, Neil Diamond, Simon & Garfunkel, Deep Purple, The Village Callers, José Feliciano, a trilha por si já faz deste um dos melhores filmes do ano.

Adoro ouvir e fazer trilhas sonoras. No entanto, que fique claro que há uma diferença enorme entre comer um maravilhoso “cheeseburger” e uma comida elaboradíssima, como as das cozinhas chinesa e francesa.

Macaque in the trees
Era uma vez em Hollywood (Foto: Reprodução)