Jornal do Brasil

Inovação JB

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Felipe Ribbe

Carnes à base de plantas ganham espaço entre consumidores e investidores

Jornal do Brasil FELIPE RIBBE DE VASCONCELLOS

Produtos que imitam carnes existem há anos. Porém, eles sempre foram desenvolvidos tendo como alvo vegetarianos e veganos, um público que, apesar de crescer ano após ano, ainda representa uma parcela bem pequena da população. Um movimento para atrair carnívoros para este setor, entretanto, ganhou força nos últimos meses, especialmente nos EUA, liderado por duas companhias que estão fazendo sucesso entre investidores: a Beyond Meat e a Impossible Foods. Ambas apostam em fórmulas criadas em laboratórios, que conseguem fazer até com que seus produtos “sangrem” como se tivessem origem animal.

As duas empresas, apesar de serem os principais expoentes desta nova tendência, têm produtos e estratégias de distribuição diferentes. Em comum apenas o fato de terem o hambúrguer como carro chefe. A Beyond Meat, fundada em 2009, vende ainda dois tipos de linguiça e dois de carne moída. Sua linha de produtos pode ser encontrada em supermercados e em redes de restaurantes, como TGI Fridays (apenas nas unidades dos EUA; no Brasil o produto ainda não está disponível) e Carl’s Jr. Já a Impossible Foods trabalhava até o mês passado apenas com o Impossible Burger, mas em maio também lançou sua versão de linguiça. Esta, no entanto, só está disponível, pelo menos por enquanto, na Little Caesar’s, uma rede de pizzarias dos EUA. O hambúrguer também é vendido exclusivamente em cadeias de restaurantes e ainda não pode ser comprado no varejo. Em abril, a companhia fechou seu maior acordo até o momento: o Burger King começou a oferecer em algumas lojas o Impossible Whopper, a versão com carne à base de plantas do seu sanduíche mais famoso. A princípio, a opção foi disponibilizada apenas em 59 unidades na região de St. Louis, com a expectativa de chegar a todas as 7.200 unidades americanas do Burger King até o final do ano em caso de sucesso. E os números mostram que isto deve acontecer. Segundo a inMarket inSights, em um mês as lojas com a novidade tiveram um movimento 18,5% maior em relação à média nacional.

Outra diferença entre as duas empresas está na fórmula de seus hambúrgueres. A Beyond Meat usa uma mistura de feijão mungo, ervilha e proteínas de arroz para alcançar a textura de carne e completa com óleo de coco e manteiga de cacau para simular a gordura. Há ainda extrato de maçã, que faz com que a cor mude de vermelha para marrom durante o cozimento. O Impossible Burger leva proteína de trigo (para dar firmeza e textura), proteína de batatas (permite ao hambúrguer reter água e mudar a textura durante o preparo) e coco sem sabor (imita a gordura). Porém, o grande segredo é um componente chamado heme. Ele dá cor vermelha ao sangue e é encarregado por entregar oxigênio aos músculos de animais, sendo responsável pelo cheiro e paladar da carne. A Impossible Foods descobriu que raízes de soja também contém heme; a partir daí, alterou geneticamente uma espécie de levedura, inserindo material genético da soja, fazendo com que estas leveduras passassem a produzir o componente em grande quantidade.

Analistas de grandes bancos apostam que o mercado de alternativas às carnes vai crescer bastante nos próximos anos. A Barclays, por exemplo, publicou relatório no qual estima que o segmento movimentará US$140 bilhões em 2029, 10% do mercado global de carnes naquele ano – hoje, ele representa menos de 5% nos EUA e menos de 1% em todo o mundo. Isso talvez explique a empolgação dos investidores: a Impossible Foods, em maio, fechou um aporte de US$300 milhões, alcançando um valuation de US$2 bilhões. No mesmo mês, a Beyond Meat realizou um dos IPOs mais bem-sucedidos da história, valorizando 163% no primeiro dia. A valorização continuou - bateu 707% – e, apesar de terem caído desde então, as ações seguem em alta de mais de 500% (enquanto escrevo, em 11/06) em relação ao preço inicial; um valor de mercado de mais de US$7 bilhões, imponente para uma empresa com estimativa de receita na casa de US$210 milhões em 2019.

Resta saber se tamanha empolgação é fogo de palha ou irá se justificar. O fato de grandes companhias como Nestlé e Tyson Foods terem planos de lançar seus próprios produtos que imitam carnes me faz crer que o futuro do setor é de fato promissor.