Os unicórnios não são mais tão incomuns assim

Todo mundo que conhece ao menos um pouco do universo de startups é familiar com o termo “unicórnio”, usado para classificar startups com valor de mercado igual ou superior a US$1 bilhão. Tal termo foi criado por Aileen Lee, uma investidora, e publicado pela primeira vez em um artigo no TechCrunch, em novembro de 2013. À época, jovens empresas com tamanho valuation eram raras, por isso chamá-las desta maneira fazia sentido. Porém, cinco anos e meio depois, talvez seja hora de pensar em nova nomenclatura, afinal o número de companhias que se encaixa no descritivo cresce de forma exponencial ano após ano.

Semana passada, foi relançado o Crunchbase Unicorn Leaderboard, um estudo completo sobre o cenário atual, reunindo informações sobre todos os unicórnios existentes no mundo, startups que estão próximas de alcançar este status (Emerging Unicorns, com valor entre US$500 milhões e US$1 bilhão) e outras que faziam parte do grupo, mas que tornaram-se públicas ou foram adquiridas. E o relatório mostra o grande “boom” pelo qual passa o setor de tecnologia. Se em 2013 Lee identificava apenas 39 unicórnios – com uma média de quatro novos surgindo ao ano durante os 10 anos anteriores ao artigo -, hoje são 452 companhias com esta classificação, média de uma nova a cada dois dias úteis. Juntas, elas captaram US$345 bilhões em investimentos e têm um valuation total de US$1,6 trilhão. Se olharmos para fevereiro de 2018, eram 279 startups, com US$206 bilhões levantados e valor de mercado conjunto de US$1 trilhão. Ou seja, em pouco mais de um ano, 173 atingiram o status, US$140 bilhões a mais foram investidos e US$600 bilhões foram adicionados em valor. Realmente impressionante!

O ano de 2018, aliás, foi o mais agitado até agora. Foram 151 novos unicórnios, contra 96 em 2017. Investidores aportaram US$135 bilhões nestas startups, 52% a mais do que no ano anterior. Em 2018, também tivemos a maior quantidade de “exits”, ou seja, companhias que deixaram o status porque listaram suas ações em bolsas de valores ou foram compradas por outras. No total, foram 39 IPOs e 14 aquisições. Outro dado interessante é o crescimento, entre estas empresas, daquelas que possuem ao menos uma mulher como cofundadora. Se compararmos o ano passado com 2017, o aumento foi de 57%; se a comparação for com 2014, o percentual sobe para 148%, o que mostra que, apesar do número de mulheres fundadoras que recebem aportes ainda ser bem inferior ao de homens, elas têm, aos poucos, conquistado mais espaço. Há, inclusive, fundos que só investem em startups criadas por mulheres.

Em relação aos países destes unicórnios, EUA e China mostram todo o seu domínio. São 196 americanos contra 165 chineses. Dos 20 com maior valuation, apenas um não pertence às superpotências: a Grab, de Cingapura, a 17ª colocada. Mas, apesar da liderança em quantidade dos EUA, a China possui quatro das cinco mais valiosas, segundo o relatório, com a Ant Financial – controlada pelo Alibaba – no topo da lista, avaliada em incríveis US$150 bilhões. Para se ter noção da disparidade destes dois países em relação aos outros, em terceiro e quarto lugares vêm Índia e Reino Unido, com 19 e 12 unicórnios, respectivamente.

O Brasil é representado por quatro empresas: Nubank (US$4 bilhões), Movile (US$1 bilhão), iFood (US$1 bilhão) e Decolar (US$1 bilhão), sendo esta última uma filial da argentina Despegar, listada na Bolsa de NY desde 2017. O relatório coloca o Hotel Urbano como único representante nacional na categoria Emerging Unicorns, com valuation de US$560 milhões, mas, como o volume de capital investido por aqui tem crescido anualmente, é bem capaz de que, em breve, tenhamos outras startups destacadas na lista.

De qualquer maneira, os dados mostram que talvez seja hora de repensar a famosa classificação. Algumas pessoas falam que é preciso inventar um novo termo, outras dizem que é melhor mudar o requisito para requerer o status. Com rounds de investimentos iguais ou superiores a US$100 milhões cada vez mais comuns, uma coisa é certa: os unicórnios não são mais tão especiais assim. Prova disso é que somente em 2019, até o final de maio, 42 empresas entraram para o grupo.