Jornal do Brasil

Inovação JB

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Felipe Ribbe

A corrida para oferecer internet em todos os lugares

Jornal do Brasil FELIPE RIBBE

Semana passada, a SpaceX lançou com sucesso 60 satélites ao espaço, o primeiro ato do Starlink, o ambicioso projeto de criar uma constelação de satélites de pequeno porte posicionados na órbita terrestre baixa para fornecer internet de alta velocidade em todos os pontos do mundo, especialmente onde atualmente isto não acontece com facilidade, como em áreas rurais e plataformas de petróleo. A companhia de Elon Musk, entretanto, não é a única com este objetivo. O ano de 2019 marca o início de uma corrida entre empresas de diferentes tamanhos em direção ao mercado que, ao mesmo tempo que promete ser bilionário, apresenta dificuldades que fazem algumas pessoas duvidarem de sua viabilidade financeira.

Para começar, vale uma explicação: a grande maioria dos satélites de comunicação existentes hoje se encontra numa região conhecida como órbita geoestacionária, a cerca de 36 mil km de altura da superfície.

Nesta posição, o satélite acompanha a velocidade de rotação da Terra, o que faz com que ele fique parado sempre sobre o mesmo local. A vantagem é que as antenas que transmitem e recebem dados têm um alcance muito maior, por isso podem existir em menor número. Porém, o custo de desenvolvimento e construção é igualmente superior, assim como a energia requerida para fazê-los funcionar. Há ainda uma alta latência no sinal, que também se degrada à medida que se espalha. Já quando posicionados na órbita terrestre baixa – até 2 mil km de altura -, o custo de produção é menor (a distância mais curta permite o uso de satélites de pequeno porte, consideravelmente mais leves), além da velocidade de transmissão de dados ser mais rápida.

Há obstáculos, no entanto. O primeiro é que, para uma cobertura global, muitos satélites são requeridos por conta da velocidade com que estes giram ao redor da Terra, por volta de 26 mil km/h. No caso da Starlink, por exemplo, o projeto completo prevê 12 mil deles posicionados em três “camadas” de alturas distintas, a 340 km, 550 km e 1.200 km. O número é mais que o dobro dos satélites em órbita atualmente - 5.101 segundo a ONU (a SpaceX, contudo, afirma que com 800 satélites consegue iniciar a comercialização do serviço). Além disso, eles precisam comunicar-se entre si diretamente. O outro obstáculo é o número de antenas na superfície para rastrear milhares de satélites rapidamente enquanto aparecem e desaparecem no horizonte. A empresa quer ter 1 milhão destas antenas.

Entretanto, a SpaceX não é a única com foco neste segmento. A OneWeb, uma startup que já recebeu mais de US$3,4 bilhões em investimentos de nomes como Softbank, Virgin Group e Airbus, lançou em fevereiro os primeiros seis satélites de uma constelação que pretende ter 900 em 2027. Outras empresas têm planos semelhantes: a canadense Telesat quer ter 512; a LeoSat 108; e a Iridium 66. Até o governo chinês entrou na história, com um projeto de 320 satélites. Há também startups apostando nos chamados cubesats, que são do tamanho de torradeiras, como a Swarm Technologies, a Astrocast e a Sky and Space Global. Mas talvez a maior concorrência venha da Amazon, que em março entrou com um pedido de permissão para colocar 3.256 satélites na órbita terrestre baixa.

Segundo a Northern Sky Research, 3,5 bilhões de pessoas no mundo têm pouco ou nenhum acesso à internet de qualidade. Porém, apesar destas empresas citarem este como o motivo principal de existirem, elas estão de olho mesmo é no potencial financeiro do mercado. O Morgan Stanley estipula que, em 2019, o setor de internet via satélite movimentará apenas US$4 bilhões. Mas a estimativa é de que este valor chegue a US$22 bilhões em 2024 e US$41 bilhões em 2029. Elon Musk, inclusive, afirmou que esta oportunidade pode gerar a receita necessária para a SpaceX desenvolver foguetes ainda mais avançados, parte fundamental de seus planos de exploração espacial. Os modelos de negócio, no entanto, ainda não estão claros e há dúvidas se, com os desafios tecnológicos, de infraestrutura, e com tamanha competição com outras formas de se levar internet de alta velocidade, estes números de fato serão alcançados.